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Paulo Marques é enfermeiro há mais de 30 anos, além de professor na Escola Superior de Enfermagem do Porto, sendo portanto alguém que conhece a fundo as dificuldades que afetam a classe dos enfermeiros, mas também alguém que sabe quais os seus maiores anseios, entre os quais se encontra aquele de ter um trabalho que lhes permita viver com dignidade.

Não encontrando essa dignidade profissional em Portugal, milhares de enfermeiros – o pilar do SNS, o Serviço Nacional de Saúde, a grande conquista da Democracia portuguesa – não tiveram outra opção senão a de emigrar em busca de uma vida melhor. Uma sangria que desde 2011 faz com que Portugal perca cerca de 2.500 enfermeiros por ano, perfazendo, segundo a Ordem dos Enfermeiros, um total de 18 mil enfermeiros emigrados durante esta última década.

Este ano, Paulo Marques decidiu então colocar todos esses anseios, dificuldades e experiências em livro. Em “Fora da Zona de Conforto”, Paulo Marques compila as histórias de nove jovens enfermeiros obrigados a emigrar e que, tal como muitos de nós que saíram de Portugal e refizeram as suas vidas no estrangeiro, não pensam em regressar. Numa altura em que uma parte da sociedade portuguesa também culpa os enfermeiros pela atual depauperação do SNS, o livro de Paulo Marques dá-lhes voz e iliba-os de qualquer responsabilidade. Afinal, os enfermeiros apenas procuram a tal dignidade profissional perdida.

 

Paulo, quem nos escuta, como emigrantes que somos todos, compreende perfeitamente a posição dos enfermeiros, mas nós também sabemos que a vida no estrangeiro nem sempre traz o “conforto” esperado. Os enfermeiros portugueses que entrevistou para este livro encontraram esse “conforto”?

Sim, eu acho que sim. Embora isso que disse seja verdade. Não há bela sem senão. Há uma fase inicial que será a fase mais complicada, que é a fase de afastamento da família e de adaptação a uma nova realidade, uma nova língua, uma nova cultura. Além do afastamento da família, existe também o afastamento dos amigos, daquela rede de contactos que tão importante é para todos nós. Mas depois as pessoas acabam por se adaptar, são bem recebidas na instituição para onde vão trabalhar e, cumprindo as regras, como é timbre do nosso povo, conseguem ter um nível socioeconómico e de qualidade de vida que não tinham em Portugal. Claro que existem outras situações que por vezes acontecem. Situações de xenofobia ou o impacto de um modo de vida, até religioso, que são diametralmente opostos àquele a que estão habituados. Mas de uma maneira global, julgo que o saldo é bastante positivo. Existem entraves, claro, onde é que eles não existem? Nós em Portugal também os temos. Obstáculos a uma vivência a 100%.

 

Uma das questões que levam à emigração dos enfermeiros, calculo que não a única, é a questão financeira. Quando nós ouvimos certas propostas de remuneração feitas aos enfermeiros em Portugal, como os muito badalados 3 euros à hora, percebemos perfeitamente a indignidade de que falam.

Sim, é um absurdo, um absurdo.

 

Então para percebermos melhor a discrepância: conhece o valor horário que um enfermeiro recebe em França ou no Reino Unido?

O valor horário não tenho agora presente, mas é bastante superior. Muitas vezes as pessoas dizem “ah mas o nível de vida noutras realidades é bastante superior”. Se pensarmos numa realidade normal, onde as pessoas por exemplo adquirem os seus bens de consumo num supermercado, a diferença não será tão grande. Agora, se compararmos a ida a um café ou a um restaurante, o valor pago no estrangeiro é maior, claro.

 

Aqui em França, o custo de vida comparado com o português será entre 25% ou 30% mais elevado.

Sim, é isso, mas se as pessoas fizerem alguma restrição a esse nível conseguem ter uma qualidade de vida bastante superior quando comparado com Portugal. Aqui, ouvi alguém ligado ao Governo dizer, não sei se o Primeiro Ministro quando andava muito revoltado com a greve cirúrgica dos enfermeiros, que os enfermeiros trabalhavam em dois ou três sítios diferentes. Mas é óbvio que trabalham!

 

Têm de o fazer para sobreviverem.

Mas é óbvio! Fazem-no para sobreviverem. Alguém quer trabalhar 70 ou 100 horas por semana? Ninguém o quer fazer. Se as pessoas conseguissem ter o nível de vida a que legitimamente aspiram devido ao valor da sua formação e à dignidade do seu trabalho… Se com 35 horas semanais ganhassem um valor digno, obviamente que não iam para o estrangeiro e descansavam com a família no maior tempo livre. Agora, os enfermeiros, ao trabalharem horas em cima de horas, turnos em cima de turnos, prejudicam claramente a sua família e a sua saúde. Tudo para conseguiram ter o nível de vida que merecem.

 

Esses enfermeiros partem à aventura ou já vão com trabalho garantido? Existe alguém, talvez ligado ao NHS inglês por exemplo, que os vá contratar a Portugal?

Quando os enfermeiros saem de Portugal já vão com um contrato porque tratam diretamente com uma agência de contratação e, depois de uma entrevista telefónica, já vão trabalhar para a instituição onde foram colocados. Depois, claro, passado algum tempo, já nos países onde estão, podem mudar de instituição. Já aqueles que regressam, depois de concorrer a um concurso em Portugal, já vêm com alguma coisa assegurada. Mas também conheço casos de pessoas que regressam devido a uma emergência familiar e vêm sem ter nada no imediato e depois candidatam-se a trabalhos e tentam lutar pela vida.

 

Olhando para os gráficos de pedidos de declaração para efeitos de emigração vemos que os anos de 2016 e 2017 tiveram uma diminuição significativa, mas que em 2018 e 2019 ocorreu um enorme aumento da emigração. A que se deveu, primeiro o decréscimo de 2016 e 2017, e, segundo, quais as razões do presente aumento?

O decréscimo que se verificou teve que ver com a melhoria da situação global. No livro “Fora da zona de conforto”, os testemunhos que lá estão são todos de enfermeiros que saíram durante a crise. Foi essa a grande vaga de saída durante a qual as pessoas saíram por obrigação e não por opção. O próprio Governo da época incitava as pessoas a emigrarem a saírem da sua zona de conforto. As pessoas não tinham opção ou a opção era ganharem três euros à hora, algo perfeitamente indigno e absurdo que só deixa mal quem propõe esses valores. Depois houve um decréscimo porque a situação começou a melhorar, as próprias instituições começaram a abrir vagas e começaram a haver possibilidades de trabalho um pouco melhor remunerado, embora não nas melhores condições.

 

E o atual aumento da emigração?

O grande ponto de viragem foi a greve cirúrgica. A partir desse momento, os enfermeiros sentiram-se muito desrespeitados. A opinião pública… As pessoas viraram as costas aos enfermeiros. Os enfermeiros trabalham todos os dias, abnegadamente, dando tanto às pessoas, fazendo, no fundo, aquela que é a sua obrigação… e quando os enfermeiros precisaram de apoio, a opinião pública, muito manipulada por alguns meios de comunicação social e pelo Governo, abandonou-os. Os enfermeiros então ficaram muito desesperançados e isso é o pior que pode acontecer. É chegar a um ponto e pensarmos “epá, não adianta, nós nunca vamos conseguir aquilo a que temos direito e se calhar o melhor é mesmo irmos para outras paragens”.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: Álvaro Filho autor de “Alojamento Letal”

Quarta-feira, 02 de outubro, 9h30

Domingo, 06 de outubro, 14h25

 

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