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A semana que passou desenhou as semanas que hão de vir. A minha crónica de segunda-feira dia 9 gravei-a com um som muito deficiente e apenas foi para o ar no horário das 7 da manhã. Erro técnico premonitório: mal sabíamos que não faria falta ouvi-la. Tudo o que ali se anunciava deixou de se realizar. Mesmo antes da comunicação oficial do Presidente Macron, antes ainda do segundo aperto das medidas decidido pelo Primeiro Ministro Edouard Philippe, espetáculos, filmes, inaugurações, conferências e colóquios foram sendo anulados.

Onde ir buscar factos culturais para preencher a semana que agora começa?

Por um lado, resta-nos a leitura: por exemplo ler, em casa, a poderosa epopeia de Mia Couto, que nos coloca no centro do confronto entre o frágil e pouco convicto poder colonial português e a tenaz, mas mesmo assim ineficaz, resistência das populações do sul de Moçambique; ou consultar os sites de numerosas bibliotecas e mesmo editoras que anunciam disponibilizar online obras dos seus catálogos.

O mesmo para Museus do mundo inteiro que podemos continuar a visitar online. E para as exposições encerradas, mas filmadas pelos artistas e galeristas.

Este ambiente de continência não sabemos por quanto tempo se vai prolongar. Certamente, para além das reflexões e estudos de todo o tipo que esta crise maior vai dar origem a numerosas criações culturais. Talvez o isolamento e a fuga à nova peste origine um novo Décameron – é esta a minha esperança utópica e sensual.

As suas consequências serão sempre enormes; mas veremos se o regresso à normalidade se faz dentro da normalidade anterior ou no quadro de novas normalidades. Ou seja, se continuamos, no quadro democrático conhecido, a desperdiçar recursos, a “turistizar” ou “turistificar” (desculpem o neologismo) a cultura, as cidades, as paisagens, a precarizar os agentes culturais, a mercantilizar a cultura; ou, se o pretexto do teletrabalho e do acesso online aos conteúdos vai ser desculpa para radicalizar estas tendências atuais, vai servir para despedir mais, para apoiar menos os criadores não rentáveis, para afastar mais os públicos e as populações em geral do acesso direto à produção cultural e aos locais de cultura; ou, finalmente se, como afirmou Emmanuel Macron, referindo-se às responsabilidades do Estado relativamente à Saúde gratuita e universal, os poderes políticos conseguem perceber que a Cultura está na mesma linha da frente, servindo para aumentar a resistência do corpo social democrático aos ataques de todos os outros tipos e estirpes de vírus: os da ignorância, da incivilidade, do racismo e antissemitismo, do nacionalismo e da xenofobia.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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