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“Monsieur Le President je vous fais une lettre”

 

Senhor Presidente da República,

Residi e trabalhei em França durante mais de 40 anos. Durante todo esse percurso da minha vida, o combate que sempre mobilizou as minhas energias foi a defesa da língua portuguesa no estrangeiro.

Fui Presidente da Federação das Associações Portuguesas de França (FAPF) durante 17 anos e, também nessas funções, para mim e para os meus companheiros associativistas, o ensino do português em França esteve sempre no centro das nossas orientações programáticas.

Quando fui eleito para presidir, durante 6 anos, ao Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), esse combate foi também partilhado, a nível mundial, pelos mais de 100 Conselheiros eleitos na nossa Diáspora. Para todos eles, a luta em defesa da língua de Camões, nos seus países de acolhimento, esteve sempre no centro das suas preocupações.

A nossa língua e a nossa imagem no estrangeiro devem muito a todos esses homens e mulheres que se entregaram “de corpo e alma” a essa altruísta missão!

E se hoje, reformado pelo sistema francês e regressado a Portugal, me dirijo ao Presidente da República do meu país, é porque penso que é sobretudo a ele, no exercício das suas funções, que compete a defesa da língua portuguesa, como pilar da nossa identidade e da nossa história milenar.

 

Senhor Presidente, a Academie de Montpellier decidiu recentemente que a língua portuguesa não devia passar as portas dos estabelecimentos do ensino público dessa região, porque e cito… “o seu ensino faria baixar o nível desses estabelecimentos”.

Ao tomar conhecimento de tal provocação, imaginei-me nos finais dos anos 60, quando a nossa língua era tratada de “língua de emigrante”, e ouvíamos os mesmos argumentos quando exigíamos o seu ensino, do Primário ao Superior, e um tratamento idêntico aquele reservado em Portugal à língua francesa.

O poder político em Portugal já devia ter reagido energicamente a esta lamentável decisão da Academie de Montpellier que, aliás, é contrária ao disposto nos Acordos entre os dois países.

A reação da Coordenação do Ensino do Português, sediada em Paris, é claramente insuficiente.

A Embaixada de Portugal em Paris já deveria ter reagido junto das autoridades francesas e, além disso, não se compreende o mutismo do Ministério dos Negócios Estrangeiros…

Fomos milhões, os militantes da língua portuguesa nas nossas Comunidades no mundo, que dedicamos muitos anos das nossas vidas a esse nobre combate, para agora ficarmos insensíveis perante tais exemplos.

Quantas vezes tivemos de lutar sozinhos, sem o apoio do nosso próprio país, para que os nossos filhos pudessem crescer e formar-se no estrangeiro recorrendo à língua portuguesa.

 

Senhor Presidente, por ironia do destino, a minha filha, nascida em França, é hoje médica cardiologista nessa mesma cidade de Montpellier e toda a sua formação foi um combate para ter o português, como língua ensinada nos vários estabelecimentos de ensino que frequentou… e a língua portuguesa contribuiu imenso para ela ser o que é hoje, uma jovem, perfeitamente bilingue e profundamente ligada a Portugal.

Dizia-me ela, no último verão em Portugal, que se esforçava para que os meus dois netos pudessem estudar o português na região de Montpellier… por este andar, os seus filhos não terão a sua sorte!

Parece que o ex-Presidente, Aníbal Cavaco Silva, durante o seu mandato, achou por bem aceitar o estatuto internacional de “língua rara” para a língua portuguesa em troca de uns subsídios… eis o resultado!

 

José Machado

Ex- Presidente da Federação das Associações Portuguesas de França

Ex-Presidente do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas

 

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