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Esta é a primeira semana antes de todas as outras semanas em que nos irão dizer que será a próxima semana do regresso à normalidade (seja lá o que isso alguma vez quis dizer ou passará a querer dizer daqui em diante).

Podíamos talvez continuar indefinidamente este encadeamento, mas é melhor parar por aqui para que o humor ou ironia que ele comporta não se torne mais e mais pessimista.

Gertrude Stein, escritora e colecionadora americana, das que escolheram Paris para viver a sua liberdade, e que foi amiga próxima de todos os artistas e escritores modernos dos anos de 1910 e seguintes, quando provocadoramente escreveu “Uma rosa, uma rosa é uma rosa” estava a fazer a afirmação (uma “desambiguação”, diríamos hoje em linguagem wikipédica…) de uma certeza recusando à “rosa” o papel que sempre lhe tinha sido reservado na literatura, na arte, na moral, na religião, o de ilustradora de inumeráveis símbolos poéticos ou metáforas de todo o tipo.

Matisse terá respondido, mais ou menos na mesma altura, a quem o criticava por ter pintado de verde parte do rosto de uma senhora: “Isto não é uma senhora, isto é uma pintura”.

Estas operações provocadoras, que acompanharam parte da revolução modernista, não venceram o gosto pela metáfora e pelo símbolo figuras de estilo que sustentam a criação artística desde o seu nascimento, mas que se estendem a todos os domínios do discurso humano – e nós temo-lo experimentado bem no discurso que acompanha a atual crise.

O vírus é um inimigo ou é a arma, serve projetos maléficos de variadíssimos inimigos (países, empresas farmacêuticas, sociedades e organizações secretas) ou é um sinal e alerta para um crime ou um pecado que cometemos. “Estamos em guerra” contra esse vírus, ou é a natureza que se vinga da desregulação que o Homem introduziu ou é uma lição que nos é dada contra a globalização capitalista e neoliberal.

O vírus, portanto, ou é um soldado ou é um sabotador ou é afinal um agente castigador e moralizador dos maus costumes da Humanidade. Já vimos isso nos Dilúvios de todas as religiões, em Sodoma e Gomorra, com as pestes medievais, com o Tremor de terra de Lisboa e, bem mais recentemente, no despontar e desenvolvimento da SIDA.

Há os que inconfessadamente pensam que as mortes servem a regulação de população (velho cinismo de Malthus, economista inglês do século XIX, que pretendia que a fome era uma maneira de regular o excesso de pobres na população).

E há ainda, sempre, os que, sem se colocarem exatamente do lado nos efeitos mortais que a crise provoca na humanidade, se regozijam com ela, como modo de limpar a Natureza travando o aquecimento global pela travagem brutal das atividades poluentes, como chamada de atenção das populações e dos políticos para um problema que nenhuma ação particular ou cimeira mundial tem podido travar.

De facto, mesmo nos países ricos, morrem mais os pobres e morrem mais os velhos do que morrem os ricos e os jovens.

E, de facto, o ar está mais limpo, as águas mais transparentes, o mundo animal e vegetal mais livre da depredação provocada pelas atividades humanas.

Mas a paragem brutal (ela mesma não regulada) do mundo em que vivíamos provocará mais falências, mais desemprego, mais fome, alargando o espetro da crise social e da morte física àqueles que pareciam poder estar mais longe de ser por elas atingidos.

E ainda: as guerras prosseguem um pouco por todo o mundo esquecidas pela paranoia monotemática da informação e talvez só voltem a ser notícia quando sobrepuserem mortes por obuses e mortes por Covid-19; e a desmatação da Amazónia prossegue também, facilitada por essa desatenção dos media e pelo risco das populações indígenas face à progressão da doença.

Perguntarão os leitores: o que tem tudo isto a ver com a cultura de que é suposto eu falar aqui? Tem tudo. Este é o contexto ambíguo, incerto, inseguro na sua representação e discurso, em que se move o mundo cultural (como ambíguos, incertos e inseguros são os discursos político e médico-sanitário que agora governam as nossas agendas).

Se esta é pois a semana que abre as semanas em que nos prometem aquilo que poderá vir a ser o princípio do fim da nova realidade em que estamos metidos, não o será para a fileira das atividades e dos agentes culturais.

Não, essa próxima semana não é ainda aquela em que os poderemos ver nos seus diferentes palcos de intervenção. Museus, teatros, cinemas, salas de concertos, universidades, galerias, são equipamentos que continuarão encerrados.

Não, não é também ainda o tempo de reiniciar filmagens, de regressar aos ensaios, de retomar a montagem de exposições, de voltar às aulas, de assistir a conferências…

Sabemos, pelo esforço que têm demonstrado em se manter vivos e visíveis, que todos esses agentes estão atentos e ansiosos por regressar ao nosso convívio, sabemos que o passado das suas atividades (que nos têm mostrado em suportes digitais) vai ser fundamental para o seu trabalho futuro mas que, estando atentos também aos sinais fortíssimos recebidos durante esta crise que tanto os atingiu, os vão querer transmitir nos seus próximos trabalhos artísticos.

Porque, afinal, “uma crise, é uma crise, é uma crise!”.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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