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Dia 10 de Junho, feriado nacional, também conhecido como o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, por excelência o dia no qual os governantes portugueses vêm a público enaltecer aquilo que dizem ter feito pelos Portugueses no estrangeiro, embora calando o que os Portugueses fazem pelo país de origem, em primeiro lugar apoiando o mesmo economicamente, com os milhões de euros anuais que para lá enviam, e, além disso, insistindo em manter viva nas Comunidades a sua identidade nacional, as tradições do nosso país, a língua e a cultura portuguesas.

No respeitante a estas duas últimas, o que se pode dizer é que a língua do poeta Luís Vaz de Camões, atualmente representada por uma instituição que optou pelo nome do autor da famosa epopeia, vai, como se diz em português vernáculo, de mal a pior.

A citada instituição, que desde 2011 ficou com a tutela dos cursos de Língua e Cultura Portuguesas destinados aos filhos dos trabalhadores portugueses nas Comunidades, consagrados na Constituição como dever do Estado Português, tem-se dedicado afincadamente à destruição do sistema, que em 2010 contava com mais de 600 professores e que atualmente tem apenas 312. No respeitante aos alunos, o descalabro foi total, mais de 18 mil deixaram de ter aulas da sua língua e cultura identitária, devido à imposição da vergonhosa “Propina” e ao encerramento de inúmeros cursos originado pela aplicação da mesma.

A entidade em causa, cujo nome não será hoje aqui citado, em homenagem e por respeito ao grande poeta, especializou-se em proporcionar aulas de Português Língua Estrangeira, gratuitas, a alunos franceses, alemães, espanhóis, etc, alegando ser esse o melhor modo de dignificar a língua e cultura portuguesas fora do território nacional.

É difícil que os Portugueses no estrangeiro possam levar a sério uma afirmação desse tipo e as entidades estrangeiras certamente não o farão, porque um país que fora das suas fronteiras nada melhor sabe fazer que oferecer a aprendizagem da sua língua aos estrangeiros enquanto vende a mesma aos Portugueses é um país que certamente não se respeita a si próprio.

Quanto à Cultura Portuguesa, essa ficou também pelo caminho, pois com manuais impostos, muitos deles intitulados Português Língua Estrangeira, onde História, Geografia de Portugal e Literatura Portuguesa se encontram notoriamente ausentes, não existe possibilidade de veicular conhecimentos sobre as mesmas.

Porém, tanto os citados manuais como um Certificado destituído de valor real, inútil para a escolaridade em Portugal e sem peso nos currículos escolares locais, estão a ser vendidos a bom preço, nas Comunidades Portuguesas no Canadá, Estados Unidos da América e Austrália, aproveitando o facto de esses países nunca terem sido inseridos na rede de cursos, iniciada nos anos 80, e que abrangeu apenas a Europa e África do Sul.

Claro que abandonar, linguística e culturalmente, estes países à sua sorte, por assim dizer, não foi correto. Mas também certamente não será correto afirmar agora que os mesmos estão a ser apoiados quando o “apoio” consiste em vender livros e certificados, distribuir bibliotecas pagas com dinheiro proveniente da aplicação da Propina e seguidamente vir a público afirmar que cada vez há mais professores e mais alunos, pois os professores nos países atrás citados não têm qualquer ligação ao Estado Português, sendo contratados e remunerados pelas entidades locais, e os alunos também não custam um cêntimo que seja ao nosso país.

O que foi feito antes, ou melhor, não foi feito, foi errado. O que se está a fazer agora errado é. Como se diz em português popular, pior a emenda que o soneto.

A nossa herança histórica, cultural e linguística não está a ser cuidada nas Comunidades, onde durante mais de 30 anos se aprendeu e ensinou Português língua materna ou de origem passando depois ao exclusivo Português Língua Estrangeira, que agora foi transformado à pressa em Português Língua de Herança, porque alguém deve ter chamado a atenção aos responsáveis da atrás citada instituição que considerar os Portugueses nas Comunidades linguisticamente estrangeiros, que já nem dominavam a língua de origem, pelo que seria mais indicado aprenderem Português como Língua Estrangeira, poderia ser politicamente incorreto.

Ou então, pior um pouco, afirmar, como sucedeu em França em 2015, que era recomendável evitar o termo Português Língua Materna, pois tal ligaria a língua à emigração, o que lhe conferiria um “status” inferior, aberto convite a envergonharmo-nos das nossas origens.

Serão os Portugueses no estrangeiro Portugueses? Claro que sim. A nossa identidade, as nossas raízes, são fortes e profundas. Somos como aquelas árvores que, apesar de secas e intempéries, se mantêm vivas e agarradas à terra porque as suas raízes, longas e resistentes, lhes garantem a sobrevivência.

Mas ficaríamos muito mais satisfeitos e felizes se, de vez em quando, e não apenas no 10 de Junho, os Governantes em Portugal se lembrassem de nós, não com palavras, não elogiando a nossa resistência e as nossas capacidades de adaptação, não louvando a nossa forte ligação ao país de origem, não apelidando-nos de “embaixadores” da nossa língua e cultura no estrangeiro, mas, muito simplesmente, ocupando-se verdadeiramente de nós, levando a sério os nossos problemas, informando-se mais sobre o que é realmente viver e trabalhar no estrangeiro, deixando de lado gráficos e estatísticas, respeitando, mais e sempre, a nossa língua, a nossa cultura, e garantindo, às crianças e jovens portugueses nas Comunidades, um essencial ensino gratuito e de qualidade da sua língua identitária, porque se esquecermos a nossa língua de origem e deixarmos, mesmo inconscientemente, que as culturas locais se tornem mais importantes que a nossa, perderemos uma grande parcela da nossa identidade nacional.

E não é isso que queremos. Queremos ser Portugueses no estrangeiro e não apenas no 10 de Junho.

 

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