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O que fazem sete operários da construção civil entrando de rompante na Embaixada de Portugal em Paris, capacetes na cabeça, gillets cor-de-laranja sobre o bleu-de-travail, botas e luvas de segurança? Terá entrado a Embaixada em trabalhos profundos de remodelação? Mal se distingue o capataz dos seus homens e apenas quando se houve um “Vamos a isto que temos que voltar ao trabalho” (em português no original…) se percebe que estão ali de passagem, para fazer um favor, que o trabalho deles é outro.

Há um momento e hesitação perante o volume visível que é suposto deslocarem (2 metros e quarenta de altura e 1 metro e 80 de largura máxima), o peso enunciado (200 quilos) e a fragilidade da obra que têm pela frente. Mas o pessoal do camião de transporte, da galeria e da Embaixada acrescentam 10 ao número inicial de 14 braços disponíveis. O Embaixador passa a contar como qualquer outro nessa equipa empenhada em que o grande pote de cerâmica pintado por Manuel Cargaleiro vença os poucos degraus que separam a zona de entrada do átrio. A obra, cedida pela galeria parisiense do artista (a galeria Hélène Bally), veio diretamente da fábrica em Itália, perto de Nápoles, onde o artista a pintou e levou ao forno (em 2005); e vai ficar exposta na Embaixada nos próximos meses integrando a exposição que vem sendo montada no contexto da PPUE [ndr: Presidência portuguesa da União europeia”].

Mas, por enquanto, a peça está colocada sobre um pequeno charriot que facilita as deslocações em superfície, mas dificulta qualquer mudança de nível. Os breves degraus tornam-se obstáculos assustadores e a enorme peça parece-nos mais frágil que um cristal. As palavras de estímulo e de comando continuaram em português pois a equipa reunida ad hoc e graciosamente é pessoal português a trabalhar na grande obra que esta a transformar um quarteirão da vizinhança, o dos antigos escritórios da Lafarge, num grande complexo habitacional.

Vencidos os degraus, descê-la do charriot é também operação delicada. Começamos a ver pedaços de barro a desprender-se da base e paramos; mas percebemos que não pertence à peça, que é apenas matéria seca acumulada no espaço côncavo sob o grande pote. A posição final é determinada tendo em conta a elegante curva dos degraus de acesso ao Salão, a quadrícula de mármore enxaquetado do chão, a grande janela que se abre por cima e por trás iluminando naturalmente o espaço. E tendo em conta, finalmente, o diálogo de gerações e de técnicas que a obra estabelece com “J’Adore Miss Dior” de Joana Vasconcelos, colocado na mesma sala. A modelação do barro, o vidrado branco, a pintura manual, rápida, sintética e de inspiração floral, o cozimento final em forno cerâmico, o peso visível da peça de Manuel Cargaleiro, solidamente assente no chão, confrontam-se com o recorte mecânico de um motivo de design pré-existente (o laço da “Dior”), com a aplicação nessa base de centenas de “flacons de parfum” da linha “J’Adore”, com a iluminação led, com a suspensão da peça de Vasconcelos que assim ilude o seu peso real (400 quilos e as suas dimensões, aproximadamente 4 por 2 metros) fazendo-a voar.

Na segunda metade de maio, e até ao fim de junho, toda a exposição poderá ser visitada sob marcação. Dar-vos-emos essas preciosas informações em tempo certo.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão às 02h30, 05h45, 06h45, 10h30, 13h15, 16h15 e 20h00.

 

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