Opinião: Mudanças a mais e esperança à espreita

Opinião

 

O mundo sempre foi feito de mudança. Mas nestes últimos anos, todos nós tivemos mudanças a mais. Mudanças que não esperávamos, nem pensávamos que tivessem lugar nas nossas vidas.

Primeiro, a pandemia, quando em 2020, alterou, por completo, todo o nosso planeta após o deixar parado.

Depois, quando pensávamos que a pandemia estava a ser ultrapassada, voltámos a ter na Europa, na nossa Europa, uma guerra, devido à invasão russa da Ucrânia no início deste ano.

Mais uma crise grave caiu nas nossas sociedades europeias e a todos nos afetou e ainda afeta. Deveras, são tempos conturbados e complexos os que estamos a viver.

Depois do desafio da saúde, com o qual ainda hoje lidamos, lidamos com uma guerra que já ceifou milhares de vidas e que deixou milhões de pessoas da Ucrânia em perigo.  Muitas delas viram-se na necessidade, para sobreviver, de sair do seu país natal e encontrar segurança nos países vizinhos.

Felizmente tivemos neste ano, ao contrário de 2015, um bom sinal da Europa. Da Europa dos valores e da Europa solidária, na qual nos revemos e pela qual lutamos. Todos nós abrimos os braços e fizemos das nossas casas, em todos os Estados da União Europeia, as casas de muitos ucranianos.

Porém o problema de fundo, a guerra, persiste e continua sem fim à vista. Todos estamos a sentir os efeitos desta guerra. A população russa inclusive, que está a ser altamente condicionada e amordaçada pelo poder do Kremlin.

Na União Europeia, os impactos da guerra foram imediatos e continuam a sentir-se cada dia que passa mais injustamente. Quer pela dimensão migratória, quer na relevante dimensão energética, que obrigou os Estados-membros e a União a ter de redefinir políticas públicas e estratégias de facto mais em comum.

Portugal, uma vez mais, e como sempre, esteve do lado da solução. Somos um país de acolhimento depois de ter sido um país de fuga da sua população. E fomos determinantes na nova etapa energética europeia num tempo em cada decisão tem impacto nas nossas vidas.

Cabe referir aqui que o novo corredor de energia verde, assinado há poucos dias em Alicante, entre Portugal, Espanha e França, é disso exemplo, pois demonstrou o compromisso do nosso país em prol da nova etapa energética europeia.

A inflação que continua a fazer-se sentir, é uma das principais ameaças ao nosso bem-estar. E salvaguardar o poder de compra das pessoas, no nosso país como em toda a União Europeia, é uma condição essencial para um futuro de oportunidades e de paz. Também nesta matéria, as políticas públicas portuguesas têm sido exemplares!

Todos desejamos e ambicionamos a paz na Europa. Mas a paz não pode ser conseguida à custa do povo ucraniano. Nem a paz pode ser imposta pelo invasor. Temos, como sempre, se quisermos a paz, de recorrer à dimensão multilateral e aos compromissos de todas as partes, respeitando, evidentemente, a integridade da Ucrânia e a soberania do povo ucraniano.

E esta não é apenas uma questão, não é, de todo, uma questão menor. É a questão crucial.

A paz na Europa, com o respeito pela Ucrânia, significa a estabilidade do nosso continente, agora perturbada, e o respeito por todos os Estados europeus.

E concluo retomando o meu mote inicial: a mudança. Se sofremos de mudanças a mais, a esperança por ser a última morrer, não deve morrer.

Como tão lindamente cantou José Mário Branco: “todo o mundo é composto de mudança”, e a mudança que hoje se impõe é a da paz.

Os tempos podem ser sombrios, difíceis, adversos, mas compete-nos a nós lutar e não deixar de ser solidários com o povo ucraniano e comprometidos, como sempre, com o projeto europeu.

O tal projeto que há pouco mais de meio século surgiu na Europa para travar as guerras e batalhar pela liberdade como concretizar a emancipação dos povos, tanto na Europa como no mundo porque a paz nem só é um ideal ou uma promessa, é uma causa e a sua afirmação é a maior luta que temos pela frente, nestes próximos meses, tremidos, mas com a esperança à espreita.

 

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