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“I must have been almost crazy

to start out alone like my bicycle

pedalling into the tropics carrying

a medicine for which no one had found

the disease and hoping

I would make it in time…”

Richard Shelton, ‘The Tattooed Desert’

 

Tenho deveres que não posso adiar, também queria ficar em casa, na segurança do confinamento, mas tenho que atravessar Paris, quase vazia de gente e de carros, o cenário é inabitual e digno dos mais estranhos pesadelos.

As noites são povoadas por sonhos confusos e os meus dias por rostos de gente cansada.

Mas à minha volta, alguns continuam a vida como se este interlúdio fosse: férias em casa! Quando uns partem para a “frente de batalha” com os filhos pela mão, outros mostram fotos e vídeos, nas redes sociais, partilham o conforto e a segurança das casas com o mundo, inconscientes da falta de pudor dessas partilhas num tempo em que para que isso lhes seja possível, há pessoas que se encontram na “primeira trincheira” face a um inimigo invisível que podem trazer para casa e estraçalhar o que lhes sobra de estrutura familiar.

Cada um tem o direito de encontrar uma válvula de escape face à situação estranha que o ocidente vive hoje.

Poderia dizer como muita gente, cujo olhar não vai além do seu quintal: fazer face a esta situação estranha que o mundo vive hoje. Mas o mundo não para na fronteira do nosso quintal, nem do nosso país e esta situação não é inédita no mundo. Muitos outros vivem hoje e desde há muitos anos: escondidos entre os escombros, escondidos do inimigo, a protegerem-se de ataques: químicos, nucleares, bélicos… Também eles têm filhos e temem pelo futuro dos filhos, também eles sonham que “após tudo isto vai ficar tudo bem”. Mas o inimigo deles é bem visível e não é um inimigo comum a todos, não entra, invisível, pela calada, nas casas deles: entra em pompa e circunstância, sem vergonha, de cara destapada, tantas vezes com pretextos mentirosos e desculpas falaciosas, vemo-los na TV a debitar discursos barrocos no conforto dos ministérios, a decidir sobre quem vive e quem morre.

Os mesmos que hoje cortaram as armas de batalha da saúde e aumentaram ao armazenamento bélico de cada nação.

Mas este inimigo comum não se mata com armas, nenhuma das armas do armazenamento fabuloso no qual eles gastaram o que deveriam ter investido na saúde e na educação pode salvar da doença que pode tocar a todos, a eles inclusive.

Somente o investimento na saúde e na educação pode travar a sangria.

Mas, a área da educação anda pelas ruas da amargura e da saúde combate com os meios que lhes sobram, as migalhas que caíram do orçamento investido em áreas inúteis face a “esta guerra”.

“Estamos em guerra!”, diz o Presidente, e o povo treme de pavor diante do inimigo comum. Hoje já não podem apontar o dedo à Esquerda nem à Direita, hoje o inimigo não se bombardeia, para dar mais uns milhões a uns amigalhaços que investem na indústria bélica, hoje o povo das terras bombardeadas já não se enxota como quem enxota cães com sarna para longe das nossas terras, dos nossos filhos, não se pode afogar os danos colaterais das guerras nos mares, e desligar a TV para não os ver morrer.

Hoje, o inimigo é comum, entrou por todas as portas, em todas as nações, parou a engrenagem desenfreada do mundo.

Pela primeira vez: o mundo tem um inimigo comum que se ataca a todos sem distinção de credos, “raças”…

 

Observo o mundo, na segunda trincheira antes da linha da frente na qual se encontram curiosamente: os invisíveis, os desprezados, os iletrados, aqueles de quem se diz por mofa: “Quem escreveu esta nota? Foi a senhora da limpeza??”… hoje são as senhoras da limpeza, as iletradas, o pessoal que é tratado com um certo desdém pelos intelectuais mofentos (talvez os que hoje foram a correr com os filhos nos braços para a casa de campo refugiar-se junto dos pais ou sogros, trabalhar em teletrabalho e queixar-se de que é difícil fazer em casa com a presença da mulher, do homem, dos filhos…) mas na primeira linha de batalha encontram-se empregados de limpeza, forças de ordem, pessoal da área de saúde, cuidadores, pessoal da recolha de lixo, porteiros, operadoras de caixa, pessoal dos transportes de bens essenciais.

Os mesmos que, em tempos de crise, se despreza porque pedem melhores condições de trabalho, que se descredibiliza para justificar o fraco salário que recebem. Hoje bate-se palmas à janela, são os nossos heróis!

 

A solidariedade à janela é bonita!

Mas a realidade dos que estão nas primeiras trincheiras é outra: ir à guerra com os filhos pela mão ou deixá-los entregues a quem ainda aceita guardar os filhos dos que contactaram de perto com o perigo da doença.

Os colegas, parentes, amigos, prodigam conselhos de boa vontade, mas completamente inúteis e sem aplicação prática na vida de quem mora em apartamentos pequenos.

Os que fazem face à situação, em primeira linha de mira, abrem a mão da prudência e lançam estoicos: “que seja o que Deus quiser”.

Os não crentes, lançarão que de alguma coisa haveremos de morrer, que se não for da doença haverá de ser da estupidez humana.

Ninguém sairá ileso desta “guerra”.

 

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