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Em França estamos habituados a isto: mais ou menos longas filas de espera para entrar num local cultural e patrimonial, seguidas da passagem por um pórtico eletrónico e uma cuidada revista, a Raio X, das nossas malas de mão e mochilas urbanas.

Pois em Lisboa, mas apenas porque o local é especialmente sensível, isto acontecerá todos os domingos deste ano de 2020, desde o passado fim de semana, nas visitas à Residência Oficial do Primeiro Ministro, casa popularmente conhecida por Palácio de S. Bento.

Motivo? A abertura de uma nova exposição. Desde há três anos que António Costa abriu as paredes dos dois pisos visitáveis da sua casa de trabalho e representação institucional, encostada à Calçada da Estrela e sobranceira à Assembleia Nacional, à atualidade artística e à descentralização.

Três coleções não estatais (a de Serralves, do Porto, em 2017, a de António Cachola, de Elvas, no ano seguinte e, atualmente, a de Norlinda e José Lima, sediada em S. João da Madeira), sucederam-se, decorando as salas do Palácio.

A novidade é que esta última coleção de pinturas e fotografias se encontra agora em diálogo com mobiliário e objetos decorativos contemporâneos, modernos mas também históricos, eruditos e populares, todos unificados no genérico conceito de design e daquilo que em França se conhece e prestigia como métiers d’art: de uma cópia fac-similada do Apocalipse do Lorvão, documento do século XII, preciosamente decorado e considerado Tesouro da Humanidade, até às mais recentes criações dos Tapetes de Beriz ou ao candeeiro de mármores de Pedro Sottomayor (uma peça já de 2020).

Recorrendo a peças do Museu que dirige, o MUDE, em Lisboa, ou de colecionadores institucionais e particulares, produtores da indústria do mobiliário e de objetos decorativos (que tão forte presença têm anualmente em Paris na Maison & Objet e noutras feiras francesas e europeias) a Comissária desta remodelação, Bárbara Coutinho, finalizou o trabalho iniciado pelos anteriores Comissários e a Casa pode finalmente respirar um ar de contemporaneidade completa.

Recorde-se que a última profunda remodelação do local datava da instalação de Marcello Caetano nesta casa simbólica do Poder! Remodelou-se o Regime político… mas apenas depois de quatro décadas de Democracia, a realidade política termina o seu lentíssimo processo de se fazer coincidir com a realidade visual contemporânea.

Passado o ritual da entrada, o clima de constrangimento termina também: os visitantes têm à sua disposição um vasto e interessante jardim para percorrer, já com algumas obras de arte contemporânea instaladas em diálogo com a natureza; as portas da Casa estarão abertas e as salas podem percorrer-se sem que nos impeçam de nos sentarmos nos sofás, cadeiras e cadeirões que revelam o melhor da criatividade portuguesa. Sintam-se por favor como se fossem Embaixadores, Ministros, delegados sindicais, empresários, apresentado projetos, ideias, reivindicações, empenhados todos nos diálogos plurais da Democracia.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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