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Os “Brocantes” são uma marca da cultura francesa. No primeiro fim de semana que passei na minha casa parisiense, ainda totalmente vazia (as máquinas da cozinha e um banco, um colchão no chão e alguns livros ao lado) as primeiras compras que fiz para mobilar a casa foram numa dessas feiras realizada, exatamente debaixo das minhas janelas. O homem era magro, era louro, juntava o cabelo num rabo de cavalo e tinha os olhos azuis. Logo nas primeiras frases percebeu que eu era português – ele era de Fátima, fazia viagens entre Portugal e França trazendo e levando móveis. Mas o que ali tinha eram 3 sofás de bar, dizia ele que do Hotel Lutécia, na altura em curso de renovação. A minha filha, que passava uns dias em Paris, e uma amiga encontrada por acaso na mesma feira, aprovaram a escolha e essa foi a minha primeira compra (com desconto de compatriota) nos “Brocantes” de Paris.

Uma vez ou outra, aqui na rua ou no acaso de outros percursos, encontrei uma ou outra destas feiras e comprei outras coisas, mas o que era uma novidade entrou na normalidade e o espanto e encanto iniciais perderam-se um pouco, e confesso que nunca encontrei tempo ou especial desejo de percorrer os locais do calendário anual.

No último ano, entre confinamentos e crise, estes encontros rarearam aqui no bairro. Mas este fim de semana, uma nova feira teve lugar sob a nossa janela. Comprei três coisas, todas sem especial valor monetário: um pequeno modelo de veleiro, um livro e um prato. Liga-as uma referência forte a Portugal e o facto de conseguir tirar cada uma delas uma “moralidade” para esta crónica.

O barquinho é uma tosca cópia da “Sagres” (cujo nome vem escrito na base). Mas, o que importa é ter o seu proprietário escrito no casco “Honfleur” e ter substituído a possível bandeira nacional do mastro principal por uma bandeira francesa.

O livro, “Le Portugal”, de Louis Papy e Marie-Thérèse Gadala, integra uma vasta coleção de obras turísticas (“Les Beaux Pays”) e foi editado em 1935. Tem excelentes fotografias, que nos remetem para cenários muitas vezes alterados pelas intervenções quer do Estado-Novo, quer da contemporaneidade, e um texto que se extasia com um país maravilhoso onde um tempo parado no tempo convivia com súbitos momentos do que então se entendia ser o Progresso.

O prato, nº 4 de uma coleção sobre Exposições Universais parisienses, tem como legenda “Annexe du Portugal” e mostra um pavilhão eclético (entre neogótico e mourisco) da Exposição de 1867.

Ora, se barco mostra como se podem cruzar, ainda que naïvement, duas culturas e duas histórias; o livro, resultante de uma viagem apoiada pelos departamentos de Turismo e Propaganda de António Ferro e Salazar, apresenta-nos o nascimento de todos os clichés sobre o nosso país, que importa ultrapassar. Finalmente, o pratinho comemorativo fala de um conceito de Exposição (apresentação concentrada no espaço e no tempo das maravilhas de cada país) que não devemos também continuar a cultivar.

A oportunidade da já aqui falada Saison Croisée France-Portugal a ter lugar em 2022 é exatamente essa: ocupar um tempo largo (9 meses); poder estender-se e penetrar no território francês e nas Comunidades lusodescendentes com a mesma ligeireza e eficácia com que o anterior dono da “Sagres” dela se apropriou; poder vir a romper os clichés antigos (um país parado entre dois tempos, um povo manso) e os novos (praia quase todo o ano e preços baixos; estrelato em França de recorrentes personalidades da cultura) e poder mostrar, ao lado dessas marcas de exceção, quer o Portugal científico e tecnológico quer os nomes novos da nossa cultura. Ou seja, poder constituir-se como uma imagem de Portugal e o Futuro.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão às 02h30, 05h45, 06h45, 10h30, 13h15, 16h15 e 20h00.

 

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