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Ainda não é conhecida, nem publicada, a estatística que revela os números dos Portugueses que acabaram por decidir não ir de férias a Portugal. Uma ausência que veio assim alterar o rosto de verão do país, rosto que não teve o belo sorriso de sempre, nem as conversas alegres da vida penosa no estrangeiro, nem as rezas tradicionais antes das romarias que o mundo inteiro nos inveja.

Faltaram os fogos de artifício, tarde, após a noitada nas aldeias mais pequeninas e poupadas, para não tentar agrupamentos espontâneos perigosos, nas quais as inúmeras Comissões de festas nem se atreveram a pedir dinheiros.

Nem sequer o Padre Gonçalves, que pensou bem a logística da proteção tanto da Senhora dos emigrantes como os emigrantes próprios, deixando a Santa na carrinha da Paróquia parar à porta de cada lar do lugar, abençoando os seus moradores intermitentes, bênção pesada de fé na mesma.

Na verdade, lançaram-se alguns foguetes, “para conjurar o mal” cochichava a vizinhança, mas pouco barulho… é que o saloio do vírus nem com o calor nos morre apesar das previsões dos melhores cientistas do planeta.

No entanto, os números quase a chegarem para contar que nem metade do “povo de fora” regressou à terra amada este verão, o mês de agosto não foi nada querido. Ficou pendurado à autoridade do respeito das regras sanitárias contra a Covid-19 cujo nome apetece mesmo esmagar de insultos.

Em Nespereira, tão pouco o café da Isabel recebeu o povo de costume, aplicando à letra as dicas da Direção Geral da Saúde. Felizmente, eu tive ainda a sorte de tomar o ritual cafezinho dourado que não pretende nenhuma publicidade de tão humilde que é, mas que não existe em lugar algum do mundo, remédio imparável contra aquele aperto aflito da alma que tenta vencer-nos.

Afinal, poucos se tinham atrevido a marcar as passagens áreas e outros tantos a fazerem a viagem de milhares de quilómetros nas suas viaturas para terminar a viagem fechados em suas casas de origem.

São muitas as razões de ter ficado por fora: os preços elevados dos voos, o medo de infetarem os familiares, nalguns casos, de sermos infetados nós próprios, noutras situações ainda por causa de rendimentos que se perderam durante o confinamento, ansiosos agora por recuperar parte das perdas.

Também se nota uma campanha lamentável, desanimadora, campanha berrada em vários municípios nos altifalantes rogando aos «emigrantes», ainda no estrangeiro, para ficarem por lá. Há ainda quem foi obrigado a ficar mesmo, como foi o caso dos emigrantes na Suíça, por exemplo, em que a legislação em vigor os obrigaria a cumprir uma quarentena no regresso, sem que esse tempo lhes seja pago. Pessoas sabendo serem «de risco» desistiram pura e simplesmente e são muitas da primeira geração cuja saúde apresenta perigos sérios devidos à idade (hipertensão, diabetes, doenças crónicas exigindo tratamentos excecionais ou ainda cuidados continuados, etc.).

‘Fakes news’ aos montes a circularem e a ordenarem quarentenas em Portugal para quem chegasse, com chefias de empresas a pressionarem, senão ameaçarem, os seus empregados quando declarassem tirar férias, fez com que este mês de agosto, para qual tantas gerações levam o ano inteiro a sonhar, fosse um agosto desfigurado, pouco e mal querido.

Porém, para quem teve mais sorte, conseguiu-se aproximar dos mais idosos, aprender a abraçar de forma engraçada sem beijos, nem apertos de mão, deixar a casa de lá mais mimada, beber umas bicas, entre outros cálices populares, provar mais umas novidades na culinária portuguesa em alta, até acreditar uns minutos que isso não podia ter acontecido ao nosso mundo e sonhar já com o genuíno mês de agosto que só pode ser o feliz querido mês de agosto português connosco.

Dizem que setembro ficou bem desinfetado para abrir as portas todas para quem se fecharam com brutalidade há meses, até para sempre. As portas das escolas também abriram novamente, todas, a fim de oferecer igualdade de oportunidades a uma geração jovem, calcada por desastres sucessivos com resiliência, doravante muito comum, ordena e zela a Senhora República. O riso das crianças não tem medo do vírus que anda por aí, até verificam que os adultos se atarefam com seriedade a encontrar uma vacina que nos livre do ‘piorio’: todas as crises a espancar as nossas vidas, quer económica, quer financeira, quer social, quer política e moral, apagando a nossa esperança no que diz respeito aos mais belos progressos e sonhos da humanidade.

Cuidado, muito cuidado convosco. Tudo é preciso. Todas e todos são precisos nesta luta constante contra a Covid-19, conscientes que anda tudo tédio neste mundo dominado por um vírus teimoso que transtornou todos os nossos dias, que nos mantém miseravelmente separados, sem certeza ou vaidade nos dias de amanhã.

Os próximos tempos apelam digna e inteiramente a nossa atenção, o nosso civismo, a nossa cidadania, como o nosso compromisso renovados para defender o que importa: o bem estar de cada um de nós, o bem da nossa casa comum que é o mundo.

O povo português e o Governo de Portugal têm sido exemplares nesta luta global inédita. Apenas se erguia a cabecinha da austeridade para avançar com decisões importantes de redistribuição de riquezas, nem que fossem frágeis, para fazer mais e melhor para o país, cai-nos esta praga de surto.

Querido mês de agosto? Nem por isso. Como sempre, em alturas críticas, os Portugueses sabem estar, sabem sentir e sofrer com o seu país, de longe, desde muito longe. Apesar do sofrimento profundo que esta decisão despertou, muitíssimos desistiram de ir a Portugal. Neste sentido, o filósofo francês Albert Camus confirma-nos o caminho: «O nosso mundo não precisa de almas tédias. Precisa é de corações em chamas». O nosso continua a arder de paixão por Portugal onde quer que estejamos.

Até ao ano, isso com certeza, porque aqui fica já o encontro marcado com o nosso verdadeiro querido mês de agosto, sem a Covid-19 pelos ares e cheio de nós em cada um dos 308 municípios.

 

Opinião
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