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Falo-vos hoje de Eduardo Lourenço e de Gonçalo Ribeiro Telles. Os dois, recentemente falecidos, trabalhando, felizmente, quase até ao final das suas vidas, na casa bem avançada dos noventa anos; criadores cuja influência irá perdurar muito para além de si mesmos – ou seja, as estradas que abriram não se fecharam.

O primeiro, do lado das letras, da história e da filosofia, muito próximo de França, pelas décadas que aqui viveu, ensinando nas suas Universidades ao mesmo tempo que pensava Portugal, fazendo a psicanálise mítica do país e dos seus habitantes. O segundo, sendo paisagista, pensou, através da paisagem e da terra, outras realidades do mesmo Portugal, lutando pela transformação de mentalidades e construção de novas realidades. Podemos dizer ter sido Ribeiro Telles mais feliz na sua missão. O seu modo de transformar a relação entre os seres humanos (citadinos) e a natureza venceu em inúmeros domínios particulares e públicos; e Lisboa, cidade onde viveu e morreu, foi, pela via privada da Fundação Calouste Gulbenkian e pela intervenção pública de sucessivos poderes municipais, a mais beneficiada: pensemos nos maravilhosos Jardins da Fundação (à avenida de Berna), que lhe são devidos, e na extensão do corredor verde ligando sem interrupção a cidade a Monsanto, uma ideia porque toda a vida lutou e venceu. Já as suas recomendações de preservação dos saberes tradicionais de pastoreio, do cultivo, da florestação, contra os poderes agroindustriais, a invasão de espécies de lucro rápido e rápido empobrecimento dos solos, exigindo coragem política, consensos nacionais, planos de longo prazo, confronto com poderes instalados a níveis mais profundos (ou elevados…) não encontraram ainda nem Ministérios, nem políticos, nem eleitores que os validassem e pusessem coerentemente em prática.

Alguns dos bloqueios com que as utopias de Ribeiro Telles se confrontaram pensou-os Eduardo Lourenço ao longo de toda a sua obra. Mas não sendo homem de intervenção, e sim intelectual, ficam sem remédio os males que nos apontou. Tendo começado como crítico da literatura foi a literatura que o levou a pensar a história e a história cultural, o labirinto em que nos enredámos e nos enredamos ainda: o da Saudade, o do Quinto Império (que por ser do Espírito parece desculpar-nos para sempre de agir…) ou, finalmente, o labirinto da permanente viagem para fora de nós mesmos (por necessidade de sobrevivência económica, por exílio político, por mero gosto de aventura).

Eduardo Lourenço percebeu tão bem o país por ter sido longamente emigrante, preso à geografia da sua origem (portuguesa e beirã), preso, como só os emigrantes e os exilados o estão, às suas origens – ou seja, de modo ambíguo e inquieto, de modo crítico e emocional, percebendo melhor o que deixaram para trás ao perceberem como lhes são afinal estranhas as realidades onde vivem as suas novas vidas.

Nunca tive o prazer de conhecer Ribeiro Telles, apenas o ter sido colega do filho, hoje celebrado diplomata, no curso de História da Universidade Clássica de Lisboa. Mas tive a alegria de conhecer Eduardo Lourenço em 1985, pela mão de um outro estrangeirado, Eduardo Prado Coelho. Éramos 3 ou 4 jovens recentemente chegados ao mundo da escrita através de Prado Coelho e no JL de Mega Ferreira e íamos jantar em restaurantes da moda do Bairro Alto. Tínhamo-lo todos lido, mas, basicamente, íamos ouvi-lo, achá-lo por vezes demasiadamente ligado a um país de que queríamos utopicamente libertar-nos; aprender e rir com a sua fina crítica e leve humor, com as suas distrações e dificuldades relativamente à banal realidade que o rodeava.

Nunca deixei de o rever e reler, percebendo como era ser humanamente bom e generoso, genuinamente interessado no que cada um de nós modestamente ia fazendo.

Tive a felicidade de o ver muitas vezes nestes últimos 5 anos: na morte da mulher em Lisboa, nos corredores da Gulbenkian, sempre carregado de livros; em Paris, na exposição de Amadeo e na delegação da Gulbenkian onde, no contexto da exposição de Graça Morais, contracenou brilhantemente com Edgar Morin; na Academia, por ocasião da sua receção “sous la Coupole”; na Embaixada de Portugal onde o convidei a falar, juntamente com o desenhador Plantu, por ocasião do Prémio europeu Maria Helena Vaz da Silva.

Se não leram, leiam; se leram releiam. Encontra-se, em edições portuguesas na Librairie Portugaise et Brésiliène. Em francês, destaque para “L’europe introuvable” e “Pessoa l’étranger absolu”, ambas das Editions Métalié.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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