Lusa / Filipe Farinha

Opinião: Sem valores, a escola perde a sua missão


O que se passa hoje em escolas em França, deveria levar-nos a uma reflexão séria. A violência contra professores, a contestação da autoridade escolar e a crescente influência de movimentos ideológicos radicais não podem ser vistos apenas como episódios de indisciplina ou consequências de dificuldades sociais.

Estamos perante uma crise mais profunda: a perda de referências comuns e o enfraquecimento da autoridade moral da escola.

As recentes manifestações em França, marcadas em alguns locais por confrontos, destruição de património e incêndios de liceus, levantam uma questão que não pode ser ignorada. É importante distinguir os jovens que se manifestam legitimamente daqueles que, aproveitando-se da mobilização estudantil, procuram instrumentalizar o descontentamento, provocar a violência e criar o caos. Não se trata necessariamente dos alunos dos liceus, mas de indivíduos e grupos que encontram nestas manifestações uma oportunidade para impor uma agenda de confronto e desestabilização.

Manifestar-se é um direito democrático. Reivindicar, contestar e discordar fazem parte de uma sociedade livre. Mas a violência, a intimidação e a destruição de estabelecimentos de ensino nada têm a ver com o exercício da liberdade.

A defesa da laicidade é indispensável, mas não basta. Separar a religião do Estado e garantir a liberdade de consciência são princípios fundamentais. Contudo, uma escola não pode limitar-se a ensinar o que não deve ser imposto. Tem também de transmitir valores que permitam viver em sociedade: respeito, responsabilidade, solidariedade, sentido do dever e igualdade perante a lei.

Durante décadas, em nome de uma liberdade frequentemente confundida com ausência de limites, fomos desvalorizando a transmissão de referências morais e cívicas. A autoridade passou a ser suspeita, a disciplina confundida com autoritarismo e o relativismo acabou por ocupar o espaço dos princípios comuns.

Neste vazio, encontram terreno fértil os radicalismos, os discursos identitários fechados e a instrumentalização política da revolta juvenil. Quando a escola perde a capacidade de transmitir valores comuns, torna-se mais vulnerável à influência daqueles que pretendem substituir a cidadania pela divisão e o debate pela confrontação.

É urgente recuperar a dimensão cívica da educação. Não para impor uma moral religiosa ou uma doutrina partidária, mas para reafirmar valores universais, válidos para todos, independentemente da origem, da cultura ou da religião. A escola deve voltar a ser um lugar de conhecimento, exigência e formação de cidadãos.

Isso implica devolver aos professores a autoridade e o reconhecimento que merecem, estabelecer regras claras e recuperar uma educação cívica que associe direitos a deveres e liberdade a responsabilidade.

Um liceu não é um território de combate ideológico, muito menos um instrumento de desestabilização política. É um património coletivo, um espaço de formação e uma oportunidade de futuro para milhares de jovens. Quando os liceus são atacados e incendiados, não são apenas edifícios que se perdem: é também o respeito pela escola, pelo conhecimento que fica ameaçado.

Uma sociedade que deixa de transmitir os seus valores comuns acaba por abrir espaço aos extremismos e aos discursos de divisão.

A crise da escola não se resolve apenas com mais meios. Resolve-se também recuperando a sua missão fundamental: ensinar a pensar, aprender a respeitar e preparar cidadãos livres e responsáveis.

Porque a liberdade sem responsabilidade transforma-se em arbitrariedade. E uma República sem valores partilhados arrisca-se a deixar de ser uma verdadeira comunidade de cidadãos.

Mas há uma outra dimensão que não podemos ignorar: a escola nunca deve funcionar como um mecanismo de reprodução das desigualdades sociais e de perpetuação das classes, mas sim como um instrumento de emancipação, mobilidade social e igualdade de oportunidades. O futuro de um jovem não pode estar condenado pela sua origem, pela condição económica da família ou pelo meio social em que nasceu.

Cabe também ao Governo e às instituições públicas fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que os jovens voltem a acreditar no futuro, no valor do conhecimento, no mérito e na possibilidade de construir uma sociedade verdadeiramente justa, onde ninguém seja marginalizado, discriminado ou ostracizado. Uma sociedade que não exclua, que não abandone e que ofereça a cada jovem a oportunidade de encontrar o seu lugar e realizar as suas aspirações.

A escola deve ser um lugar de equidade e de exigência, mas também de esperança; de autoridade, mas também de justiça; de transmissão de valores, mas sobretudo de construção de um futuro comum. É essa a sua missão e é essa a responsabilidade que não podemos deixar de assumir.

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Olímpio Sobral

Professor

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