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Depois de duas semanas de numerosos eventos temos, esta semana, apenas um grande destaque.

Mas é de valor histórico superlativo:

Trata-se de assinalar a inauguração de uma exposição de Vieira da Silva, uma das maiores referências do diálogo cruzado França / Portugal.

Constitui essa exposição na apresentação de um excecional conjunto de obras sobre papel recolhidas por colaboração entre a galeria que sempre a representou em Paris, a Galerie Jeanne Bucher / Jeager, e as galerias Waddington Custot, de Londres e Di Donna, de Nova Iorque.

Ocasião certa para recordar dois momentos recentes relacionados com a pintora.

A notícia de que duas das suas obras dos anos 50 e 60 tinham sido escolhidas para os salões públicos do Palácio presidencial do Eliseu e a recente atribuição, dia 31 de agosto, do seu nome a uma rua do 14ème arrondissement, não longe da casa onde viveu.

Tendo representado, por se encontrar ausente do país, o Embaixador de Portugal nessa cerimónia, redigi um pequeno texto. O protocolo da cerimónia não justificou a sua leitura, mas dele deixo-vos aqui um excerto traduzido para português:

“Se há alguém que mereça o seu nome numa rua, numa cidade, numa rua da cidade de Paris, é, sem dúvida, Vieira da Silva.

Ela amava as cidades, pintou-as infinitas e infinitamente, mais numerosas que todos os outros temas da sua pintura.

E ela amava Paris.

Atrevo-me a dizer que ela a amava mais do que todas as outras cidades que amou, que ela a amou (mesmo que inconscientemente) mais do que amou Lisboa.

Na sua cidade natal, Vieira formou o seu olhar de múltiplas perspetivas e aprendeu as cores múltiplas de uma luz espelhada.

E, de Lisboa, guardou a nostalgia do Passado.

Mas, em Paris ela aprendeu (e criou) um Futuro.

Sobretudo, ela encontrou aqui a Liberdade e o Amor.

A liberdade de criação e a liberdade política (que só encontraria em Portugal depois de 1974);

e o Amor do seu marido, Arpad Szénes, pintor de origem húngara que nunca podemos esquecer quando evocamos a figura e o trabalho de Vieira.

Permitam-me, ainda, evocar um traço de humanidade da sua personalidade, por vezes distante e fechada.

Para além das cidades que criou na sua imaginação, ela viveu também a cidade nos seus aspetos mais diretos e reais.

Por exemplo, ajudando os compatriotas que a ajudavam no seu quotidiano ou algum dos muitos jovens artistas que, chegados a Paris para um exílio tanto cultural como político, se abrigavam sob a sua proteção generosa, facilitando assim condições para que a arte portuguesa tenha podido integrar as linguagens contemporâneas dos anos de 1960 et 70.

De tudo isso (da arte e da vida) fez ela cidades que nos sobreviverão”.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

Linda de Suza 19/20
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