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O mercado francês tornou-se no segundo mercado a importar o têxtil e o vestuário portugueses segundo os dados de 2018. Espanha é o primeiro destino das exportações portuguesas, no entanto a França foi um dos mercados que cresceu no ano passado.

O LusoJornal falou com Paulo Vaz, Diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), que abordou os intercâmbios entre franceses e portugueses, e também falou do estado atual do setor em território luso.

 

O que podemos dizer do mercado do têxtil em Portugal?

A indústria Têxtil e Vestuário portuguesa é, hoje, uma das mais modernas e sofisticadas do mundo. Reputada pela excelência da sua produção, pela rapidez do seu tempo de resposta, pela engenharia de produto, pela inovação tecnológica e pelo design aplicado. O seu serviço ao cliente garante ainda uma adicional vantagem competitiva, especialmente junto de clientes que procuram o valor e não o preço. Enquanto mercado para a moda têxtil, Portugal é igualmente interessante, não tanto pela sua escala, mas pelo grau de sofisticação e exigência da procura. Mercado aberto, onde há ampla oferta de todo o mundo, incluindo cada vez mais marcas portuguesas, Portugal tem sido o laboratório de grandes marcas globais antes de expandirem as suas redes em todo o mundo, como foi o caso da Zara.

 

No que diz respeito às exportações, Espanha ainda continua no primeiro lugar? Como tem sido o intercâmbio de têxtil com esse país-vizinho?

A Espanha é o primeiro mercado de exportação da indústria Têxtil e Vestuário portuguesa, comprando cerca de 32% de tudo que Portugal vende ao exterior, demonstrando também aqui a grande integração que existe entre as duas economias ibéricas em quase todos os setores de atividade. A Espanha é igualmente o maior fornecedor de têxteis e vestuário a Portugal com cerca de 40% de tudo o que Portugal importa do exterior, pontuando sobretudo o vestuário das mais conhecidas marcas espanholas com presença global.

 

No segundo lugar das exportações temos a França?

Sim a França é o segundo mercado das exportações têxteis portuguesas, com uma quota de cerca de 12%, contudo muito distante da Espanha. Não foi o único mercado que cresceu recentemente em termos de exportações, pois a Holanda e a China são casos de crescimento, já para não falar da Itália que, neste ano de 2018, aumentou mais de 30% as compras a Portugal.

 

Como tem sido o intercâmbio com a França? Também há têxtil francês importado para Portugal?

A França é um mercado tradicional do nosso têxtil e vestuário desde há décadas, mantendo-se sempre no top 3 das exportações. De igual modo, a França é um dos nossos principais fornecedores de têxteis, vestuário e moda, assegurando igualmente o segundo lugar no “ranking”. A França exporta para Portugal diversos produtos têxteis, além de vestuário e luxo, como tecidos e têxteis técnicos.

 

Nos últimos anos com tem sido a relação com a França?

A França tem sido um mercado estável em termos de relacionamento comercial, mantendo um lugar cimeiro, quer nas exportações quer nas importações, ao contrário de outros que tiveram grandes oscilações, negativas e positivas, como a Espanha, a Alemanha ou a Itália.

 

A França dirigiu-se muitas vezes para o Norte de África, ou ainda para a Ásia, mas tem sempre um pé em Portugal. É a qualidade portuguesa que faz com a França fique sempre com um pé em Portugal?

A indústria Têxtil e Vestuário portuguesa não compete pelo preço, mas pelo valor. O Norte de África, nomeadamente a Tunísia e Marrocos não são nossos concorrentes, mas também fornecedores. Há dezenas ou centenas de empresas têxteis portuguesas igualmente instaladas nestes países ou aí operando, buscando uma competitividade em certas gamas de produto em que o preço faz a única diferença e que já não é possível obter em Portugal. O que a França procura no têxtil português é a alta qualidade, o “savoir-faire”, a capacidade de interpretar e realizar a exigência e o luxo, a credibilidade nos processos e a sustentabilidade nos mesmos, que, obviamente o Norte de África e o Oriente não conseguem assegurar.

 

De uma forma geral, o que caracteriza o têxtil português nos últimos anos?

A indústria Têxtil e Vestuário portuguesa é hoje um “case study” de sucesso à escala internacional, pois é a demonstração viva de que um país desenvolvido pode reindustrializar-se com base numa atividade tradicional, caso esta aposte na tecnologia, inovação, criatividade e serviço, sem perder o “savoir-faire” criado por gerações de profissionais. Depois de ter vivido a primeira década deste século sofrendo uma sucessão de choques competitivos dramáticos – liberalização do comércio têxtil mundial, entrada da China na OMC, adesão de Portugal ao euro, alargamento da União Europeia a Leste e, finalmente, a crise económica e financeira global -, que obrigou a uma profunda depuração e reestruturação do setor, desde 2009 até esta data, o setor revelou uma enorme capacidade de resiliência, adaptação e reinvenção, tendo crescido constantemente, especialmente nas exportações, recuperando quotas de mercado e batendo recordes nas vendas ao exterior e no valor acrescentado bruto gerado, tudo isto com metade das empresas e metade dos trabalhadores que tinha no início do século.

 

Como tem evoluído o mercado do trabalho neste domínio?

O mercado de trabalho tem acompanhado esta evolução. A indústria Têxtil e Vestuário portuguesa tinha mais de 350 mil trabalhadores diretos no início da década de 90 e foi perdendo efetivos de forma constante e continuada desde então, até 2014, ano em que fechou com cerca de 127 mil trabalhadores. Em 2015 começou novamente a criar emprego, tendo gerado mais de 10 mil novos postos de trabalho nestes últimos anos. Emprego diferente daquele que foi desaparecendo: mais serviços, mais qualificado e mais tecnológico, adaptando-se à nova realidade do setor. Neste momento, as empresas enfrentam uma escassez neste domínio, algo que é transversal à indústria transformadora em geral: não há pessoal qualificado ou indiferenciado para trabalhar nas atividades industriais, o que está a fazer disparar os salários para reter os talentos e a incrementar a subcontratação no exterior, especialmente no Norte de África, como já referi.

 

As marcas de vestuário portuguesas têm conseguido ultrapassar as dificuldades dos outros anos. A exportação tem sido a solução para a melhoria dos resultados dessas marcas?

As marcas de vestuário portuguesas que conseguiram aguentar os anos difíceis têm tido um desempenho bastante satisfatório no mercado doméstico e até no exterior, conseguindo expandir-se para outros países, por via de investimento próprio em pontos de venda ou redes de retalho, ou por via de franquias. Há que ter sempre em conta que o mercado interno português é pequeno e que já está saturado de oferta, sendo a competição especialmente árdua. Além disso para desenvolver redes de lojas e expandir para outras geografias exige grandes recursos financeiros e humanos, que, infelizmente, Portugal não dispõe, sobretudo se compararmos com países como a Espanha, a Itália, a França, a Alemanha e o Reino Unido. Seja como for, há que dizer, que, mesmo enfrentando esses constrangimentos, há marcas nacionais que estão a realizar um excelente trabalho, nacional e internacionalmente, como a Parfois, a Salsa, a Zippy, a Tiffosi ou a Lion of Porches.

 

O que dizer da chegada de várias marcas francesas ao mercado português?

Como já referi, Portugal é um mercado pequeno, mas sofisticado. Aberto à novidade, à inovação e à moda, com segmentos para todas as ofertas, desde o luxo à “fast fashion”, pelo que, apesar da dimensão, as marcas internacionais não o enjeitam, servindo mesmo para aferir da qualidade do seu modelo de negócio. As marcas francesas não são exceção, apesar de terem tido uma forte concorrência no passado pelas marcas espanholas: Zara, Mango, Massimo Dutti ou Desigual, que lhes tiraram quota de mercado. Está na altura de voltarem a apostar, desde que tenham propostas e conceitos diferenciadores e fortemente atrativos, pois o consumidor português é informado, exigente e tem muito por onde optar.

 

 

Paulo Vaz

Nascido em Bragança, licenciado em Direito pela Universidade Católica do Porto e com uma pós-graduação em Administração de Empresas e Negócios (PDE), pela AESE, é doutorando na Universidade do Minho.

É auditor de Defesa Nacional.

Diretor-Geral da ATP (Associação Têxtil e Vestuário de Portugal) e Vice-Presidente da ASM (Associação Seletiva Moda), é igualmente Administrador da Fundação AEP, da AGAVI e da Felxdeal-SIMFE, SA.

É Coordenador de cursos de pós-graduação em negócios de moda na PBS – Porto Business School. É o editor do “T” Jornal e do “T” Digital. Autor de diversas publicações especializadas no setor têxtil, vestuário e moda, além de cronista regular em jornais e revistas, em Portugal e no estrangeiro.

É Cônsul honorário da Roménia no Porto.

 

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