“Rua das Pretas” apresenta “Povo Brasileiro” em Paris: um concerto-manifesto sobre as memórias atlânticas


O coletivo “Rua das Pretas”, dirigido pelo compositor e guitarrista brasileiro Pierre Aderne, apresenta no próximo dia 12 de maio, no Studio de l’Ermitage, em Paris 20, o concerto de lançamento do seu novo álbum, “Povo Brasileiro” – o 12º disco assinado por Pierre Aderne e um dos projetos mais ambiciosos da sua carreira. O espetáculo incluirá também a antestreia da curta-metragem homónima, reforçando a dimensão visual e narrativa desta obra que atravessa geografias, memórias e identidades.

O álbum, lançado digitalmente a 10 de abril de 2026 pela Harmonia / The Orchard (com edição em vinil prevista para mais tarde), confirma Pierre Aderne como uma das vozes mais singulares das músicas do mundo contemporâneas. Ao longo da sua trajetória, o músico tem colaborado com nomes como Seu Jorge, Melody Gardot, Tito Paris, Sara Tavares ou Madeleine Peyroux, construindo pontes entre tradições e modernidades, entre continentes e diásporas.

Um projeto gravado na Casa-Museu Darcy Ribeiro

“Povo Brasileiro” nasce de um texto fundamental do antropólogo Darcy Ribeiro, que descreve o Brasil como um país forjado na violência colonial, na mistura forçada, na resistência e na reinvenção permanente. Em vez de nostalgia, o disco propõe fricção: o Atlântico como espaço de choque, mas também de criação.

O álbum foi gravado na Casa-Museu Darcy Ribeiro, em Maricá (Rio de Janeiro), uma casa concebida por Oscar Niemeyer e inspirada nos aldeamentos Tupinambá. O local, carregado de simbolismo, tornou-se o cenário ideal para um projeto que reúne músicos do Brasil, Cabo Verde e Portugal, refletindo a pluralidade das culturas atlânticas.

O coletivo “Rua das Pretas” funciona como um laboratório vivo de encontros musicais. Nesta formação, destacam-se: Pierre Aderne (voz, guitarra, percussões), Nilson Dourado (voz, guitarra, viola caipira, percussões), Ana Margarida Prado (fadista portuguesa), Jenifer Soledad (substituindo Zulu, cantora cabo-verdiana), Felipe Bastos (percussões), Letícia Malvares (flauta) e Ruben da Luz (trombone).

Pierre Aderne recusa o exotismo fácil. Em vez de “representar o Brasil”, o disco faz ouvir tensões: samba, fado, música afro-brasileira, choro e canção não aparecem como ornamentos, mas como argumentos que se contradizem, se confrontam e, por fim, se costuram. É uma travessia musical que pensa a identidade como movimento, não como vitrine.

Um dos grandes momentos da temporada musical lusófona em Paris

O concerto de lançamento terá lugar no Studio de l’Ermitage, uma das salas mais emblemáticas da música do mundo em Paris. As portas abrem às 20h00 e o espetáculo começa às 20h30.

A receção da imprensa especializada tem sido particularmente elogiosa: Le Monde sublinha a “saudade” como síntese entre spleen e alegria; Zicazic considera o disco “uma declaração de amor ao Brasil e às identidades múltiplas”; Sounds & Colours descreve-o como “uma celebração das duas margens do Atlântico, rica e surpreendente” e Musicologie destaca “a capacidade de dizer o Brasil através das suas tensões e criações”.

Com “Povo Brasileiro”, Pierre Aderne e o coletivo “Rua das Pretas” oferecem mais do que um concerto: propõem uma reflexão musical sobre o que o Atlântico criou – povos, línguas, feridas, encontros – e sobre a forma como essas memórias continuam a ressoar no presente.

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