A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) manifesta-se sobretudo em duas grandes áreas de sintomas: a desatenção e a hiperatividade/impulsividade. Podem predominar sintomas de uma destas áreas ou existir uma combinação das duas.
Os sintomas de desatenção tornam-se particularmente evidentes em tarefas prolongadas, repetitivas ou pouco estimulantes. A pessoa pode começar uma tarefa, interrompê-la porque surgiu outra coisa, distrair-se com um estímulo à sua volta e, entretanto, deixar a primeira tarefa por acabar. Curiosamente, isto pode acontecer muito menos quando está a fazer algo de que gosta ou que considera muito estimulante. Por isso, estas pessoas são muitas vezes injustamente vistas como “preguiçosas” ou pouco empenhadas: o problema não é propriamente não conseguirem prestar atenção, mas terem maior dificuldade em regular e manter a atenção.
A hiperatividade no adulto nem sempre significa estar constantemente a correr de um lado para o outro. Pode manifestar-se como inquietação física ou mental, dificuldade em estar parado, necessidade de estar sempre ocupado ou a sensação de ter “um motor ligado”.
A impulsividade pode traduzir-se em interromper os outros, agir antes de pensar, fazer compras ou tomar decisões precipitadas. Em alguns casos associa-se também a maior risco de consumo problemático de substâncias, acidentes ou comportamentos de risco.
Todos nós nos distraímos, adiamos tarefas ou fazemos coisas impulsivamente de vez em quando. Ter alguns destes comportamentos não significa ter PHDA. Falamos de PHDA quando existe um padrão persistente, que começou na infância e que interfere significativamente com a vida da pessoa.
Diagnóstico
Quando falamos de adultos falamos de uma faixa etária muito abrangente que inclui várias gerações. Nas gerações mais velhas foi falta de informação da população e até de avanço científico (o diagnóstico de Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade apenas surge com esta terminologia no DSM-III-R em 1987).
Também houve muita ausência de diagnóstico por preconceito, de muitas vezes serem classificados como sendo distraídos, irrequietos ou maus alunos. Por fim, não podemos ignorar o facto de a doença mental estar carregada de estigma e de alguma moralidade associada, quando na verdade estamos perante uma perturbação do neurodesenvolvimento, e não uma falha de carácter, educação ou força de vontade.
Há ainda pessoas que passaram despercebidas porque desenvolveram estratégias para compensar as dificuldades, ou porque tinham sobretudo sintomas de desatenção, menos visíveis do que a hiperatividade.
Isto é mais visível no caso das mulheres, o que muitas vezes leva a que recebam o diagnóstico apenas na idade adulta.
Falar do tema quer dizer que há mais informação menos preconceito e que começamos a encarar a coisa como ela é: uma condição clínica real e tratável.
Não quer necessariamente dizer que a PHDA tenha aparecido agora ou que todas as pessoas que se distraem tenham PHDA. Significa que hoje reconhecemos melhor uma perturbação que durante muitos anos passou despercebida em muitos adultos.
O diagnóstico é sobretudo clínico e exige uma avaliação cuidada. Não existe uma análise ao sangue, um exame de imagem ou um teste psicológico que, sozinho, diga “esta pessoa tem PHDA”.
É necessário perceber que sintomas existem, desde quando estão presentes e de que forma interferem na vida pessoal, profissional, académica ou familiar. Como a PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento, procuramos também evidência de que já existiam sintomas durante a infância, mesmo que nessa altura nunca tenha sido feito o diagnóstico.
Podem ser utilizadas escalas e entrevistas específicas e, sempre que possível, informação de familiares ou outras pessoas que conheçam bem o doente. Em determinadas situações podem ser necessárias análises, avaliação neuropsicológica ou outros exames para excluir doenças que possam causar sintomas semelhantes, mas estes exames não são necessários em todas as pessoas.
Por fim, testes de rede social não contam como meio diagnóstico…
Distinguir PHDA de ansiedade, depressão, stresse ou outras condições
Distingue-se com uma avaliação clínica cuidada. E de facto são doenças diferentes, por vezes com sintomas comuns. Às vezes as pessoas com PHDA podem passar por períodos de ansiedade, ou ter um episódio depressivo. Por outro lado, um dos sintomas da depressão são as queixas cognitivas, em que há maior dificuldade em manter o foco e o rendimento cognitivo é menor.
No entanto, devemos lembrar-nos de que a PHDA é uma doença do neurodesenvolvimento, e que os sintomas têm de estar presentes desde a infância, mesmo que só sejam reconhecidos muitos anos mais tarde. Também é diferente porque a PHDA é contínua (os sintomas costumam estar presentes ao longo da vida), e a depressão surge por episódios, por exemplo.
Opções de tratamento
Existem várias opções de tratamento. Nos adultos em que os sintomas provocam um impacto significativo no dia-a-dia, o tratamento farmacológico é geralmente a opção com maior eficácia e é recomendado como primeira linha pelas principais orientações internacionais e pelo recente posicionamento de peritos portugueses publicado na Acta Médica Portuguesa.
Existem diferentes medicamentos, estimulantes e não estimulantes, e a escolha deve ser individualizada.
As intervenções psicológicas também são importantes, sobretudo para desenvolver estratégias de organização, gestão do tempo, controlo da impulsividade e resolução de problemas. Em algumas pessoas podem ser utilizadas isoladamente; noutras complementam a medicação.
Os efeitos secundários mais frequentes dependem do medicamento utilizado. Nos medicamentos estimulantes, alguns dos efeitos mais frequentes são diminuição do apetite, dificuldade em adormecer, dores de cabeça, alguma irritabilidade e aumento ligeiro da frequência cardíaca ou da tensão arterial. Os medicamentos não estimulantes têm um perfil de efeitos secundários diferentes.
Por isso, o tratamento deve ser individualizado e acompanhado pelo médico, incluindo a vigilância do peso, tensão arterial, frequência cardíaca e qualidade do sono. Muitas vezes os efeitos secundários, quando existem, podem ser reduzidos ajustando a dose, o horário ou o próprio medicamento.
Alternativas aos medicamentos
Como meio de tratamento, não existem. No entanto, existem intervenções psicológicas estruturadas, particularmente abordagens cognitivo-comportamentais e treino de competências, que podem ajudar. Em média, a medicação tem um efeito maior sobre os sintomas nucleares da PHDA, mas nem todas as pessoas precisam ou querem seguir exatamente a mesma estratégia.
O exercício físico, uma boa rotina de sono e hábitos de vida saudáveis são também muito importantes, embora não substituam necessariamente o tratamento específico. Deve igualmente evitar-se o consumo de drogas, até porque existe uma associação importante entre PHDA e perturbações relacionadas com substâncias e alguns comportamentos aditivos, como o jogo.
Os doentes vão arranjando estratégias individualizadas. Talvez a primeira seja reconhecer a doença e aceitar a mesma, o que traz um grande alívio para quem tem PHDA. Depois há várias estratégias, como usar alarmes, calendários, rotinas previsíveis, ter um local de trabalho com menos estímulos e notificações, reservar períodos curtos exclusivamente para uma tarefa de cada vez, dividir tarefas complexas em partes mais simples, fazer mais pausas e dar instruções diretas. Isto são apenas algumas estratégias, e ao longo dos anos tenho visto doentes a encontrarem estratégias verdadeiramente criativas!
Melhorar o sono
No sono, a regularidade é particularmente importante: tentar deitar e levantar aproximadamente às mesmas horas, reduzir luz e estímulos ao final do dia, evitar cafeína demasiado tarde e criar uma rotina de desaceleração antes de dormir. Também é importante perceber se existe uma verdadeira perturbação do sono, porque estas são relativamente frequentes nas pessoas com PHDA.
O exercício físico regular ajuda tanto o sono como o bem-estar geral. Para gerir as tarefas do dia-a-dia, resulta geralmente melhor criar estrutura externa: horários, listas, alarmes, calendários e rotinas, em vez de confiar apenas na memória ou na motivação do momento.
Existem vários livros de autores portugueses sobre o tópico do sono e com muita qualidade.
Relações pessoais e a gestão das emoções
É difícil para quem partilha a vida com alguém com PHDA entender a doença. A desorganização e a impulsividade podem criar grande desgaste nas relações amorosas, familiares e laborais. E para o próprio doente há um sentimento de menos valia, de interiorizar muitas vezes as coisas que lhe vão sendo ditas, que é preguiçoso, distraído ou burro. Já tive uma doente em consulta que me disse a chorar, após ter começado tratamento, aos 42 anos “sempre pensei que era burra, que era menos capaz que os outros… que nunca conseguia acabar nada… afinal é só PHDA…”
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Dr. João Cardoso
Psiquiatra
Clínicas Leite






