O que cabe no conceito de naturalidade quando falamos de um dos padrões omnipresentes na sociedade atual: a beleza feminina?
Se viajarmos ao passado, facilmente constataremos que a naturalidade é um conceito em mutação e se conseguiu através das mais inusitadas formas, como, por exemplo, o uso de espartilhos que mais se assemelhavam a armaduras de tortura ou o recurso a produtos hoje considerados letais, para branquear o rosto ou dar brilho febril aos olhos.
O que se entende por beleza natural depende das tendências da moda, mas também acompanha a evolução da tecnologia.
Então, o que pode definir a naturalidade feminina, em 2026? Talvez consista no resultado de uma combinação entre o que a natureza criou, ou, opostamente, falhou em providenciar, e o recurso a procedimentos estéticos altamente avançados.
A parte mais fascinante reside no mistério que subjaz à pergunta muitas vezes formulada: “Submeteu-se a intervenção estética ou não?” Em caso afirmativo, o questionamento implica o ótimo resultado do trabalho realizado.
O rosto denominado por pillow face, devido ao aspeto demasiado inchado e artificial causado por excesso de preenchimento, ou os lábios extremamente volumosos não se inserem nos traços distintivos das tendências atuais. As pacientes procuram a melhor versão de si próprias e não a criação de uma pessoa diferente. Por isso, manter a forma natural do rosto, é cada vez mais importante.
Como as imagens geradas através de IA são omnipresentes nos meios de comunicação social e noutras indústrias que moldam as normas culturais, um jornal americano reconhecido, com o objetivo de perceber como a tecnologia define os padrões de beleza feminina, usou dezenas de prompts em três das ferramentas de imagem mais conceituadas e concluiu que uma mulher bonita é magra, tem tez clara e, apenas em 2% de casos, evidencia sinais de envelhecimento, ou seja, mulheres bonitas têm de aparentar serem jovens.
Não nos aproximamos desse paradigma de homogeneização da beleza da mulher. Graças às novas possibilidades que se vão abrindo com a evolução de técnicas e tecnologias, trabalhamos a partir das estruturas que determinam a forma do rosto de cada paciente e as suas características específicas, propondo procedimentos combinados, que aliam intervenção cirúrgica a técnicas não invasivas, a diferentes níveis.
A recuperação estrutural distancia-se da simples preocupação de alisar, ou esticar a pele, apenas num plano superficial. Buscamos o equilíbrio, trabalhamos para resultados indetetáveis, prevenindo a aparência distorcida.
A célebre afirmação atribuída a Simone de Beauvoir, naturalmente situada no contexto social e político em que viveu, sobre a essência da face e do corpo, considerando-os o nosso ponto de ancoragem no mundo, a partir do qual agimos, pensamos, e construímos projetos, afigura-se bastante pertinente, porquanto nos remete para esse direito à individualidade, para lá de convenções ou preconceitos de ordem vária.
O mote será, então, “naturalidade em movimento”, porquanto não se advogam intervenções padronizadas nem modelos estáticos.
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Dr. Filipe Magalhães Ramos
Otorrinolaringologista
Diretor das clínicas de cirurgia plástica FMR em Lisboa e Porto






