É comummente aceite que a Inteligência Artificial (IA) representa uma das tecnologias de ponta mais difundidas nos nossos tempos, abrangendo uma vasta amplitude de setores e criando expectativas quase ilimitadas. Contudo, uma das questões que se colocam, na esfera do cidadão comum, é o desalinhamento entre o que a IA pode, efetivamente, fornecer e a amplitude, precisão e fiabilidade de resultados que muitos creem infalíveis.
No âmbito da rinoplastia, constitui, sem dúvida, uma excelente ferramenta de análise de imagem e simulação de resultados cirúrgicos e, assim, um auxílio de valor na comunicação pré-cirúrgica entre o cirurgião e o paciente, conducente à tomada de decisões.
O processo cirúrgico de uma rinoplastia envolve múltiplos fatores que não podem, atualmente, ser previstos pela IA, desde logo porque trabalhar em diferentes componentes materiais de um organismo vivo e complexo vai muito além de agir de acordo com objetivação pretensamente facultada pelo “comportamento de uma máquina”.
Na prática do cirurgião, esta distinção torna-se cada vez mais importante, porquanto a IA permite aos pacientes gerar imagens que querem ver reproduzidas nos seus casos pessoais, independentemente de questões anatómicas ou mesmo de proporcionalidade e equilíbrio.
Na verdade, a estrutura de um rosto depende de diferentes camadas interdependentes, como a estrutura óssea, a cartilagem nasal, os músculos e ligamentos faciais, o tecido subcutâneo, a elasticidade e a espessura da pele e a vascularização, entre outros.
Variáveis são também o estilo de vida, a saúde, o processo de cicatrização e a existência de cirurgias anteriores ou mesmo de processos traumáticos, pelo que pacientes submetidos a cirurgias semelhantes podem viver processos de recuperação diferentes e obter resultados diversos.
Porque a rinoplastia é um ato médico, a prudência de um cirurgião experiente deve sempre ter em conta resultados realistas e analisar com o paciente a adequação das suas expectativas às características do seu rosto em particular, nunca esquecendo a vertente funcional, numa estrutura tão importante como o nariz.
Na verdade, outra questão levantada com a IA é a crescente uniformização facial, já que os algoritmos promovem repetidamente características semelhantes, como, por exemplo, linhas mandibulares muito definidas, narizes muito pequenos, ou lábios de volume exagerado. Aqui deve entrar a vertente pedagógica do médico: explicar conceitos anatómicos e demonstrar regras de equilíbrio facial, apontando caminhos realistas que aproximem as expectativas do paciente a um processo de mudança harmonioso.
Apetece aqui referir a célebre frase de George Box: “Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis”, que contém uma filosofia que rejeita a busca de um modelo perfeito em favor de uma representação que seja suficientemente próxima da realidade para permitir a tomada de decisões. Não querendo limitar a IA a um modelo, já que se trata de um conceito mais vasto, ficamos confortáveis com esta aproximação: referência para apoio em decisões, sim; criação de alvos cirúrgicos precisos, definitivamente, não!
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Dr. Filipe Magalhães Ramos
Otorrinolaringologista
Diretor das Clínicas de Cirurgia Plástica FMR






