Rádio Alfa

Rádio Alfa tem 39 anos mas Fernando Lopes diz que “nunca será uma rádio 100% em francês”

A Rádio Alfa acaba de celebrar 39 anos de existência e prepara-se para uma nova etapa da sua história. Entre novos programas, uma aposta cada vez maior no vídeo e a vontade de chegar às novas gerações, a rádio continua a fazer evoluir a sua grelha sem deixar de lado a língua portuguesa.

Em entrevista ao LusoJornal, Fernando Lopes fala das mudanças na estação, das novidades na programação, da presença cada vez mais local em diferentes regiões de França e dos principais projetos para os próximos anos.

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A Rádio Alfa acaba de celebrar 39 anos. Olhando para estas quase quatro décadas, como é que a rádio evoluiu ao longo deste tempo?

A nossa vontade sempre foi equiparar-nos às rádios francesas que existiam e deixar de ser unicamente uma rádio associativa que passava música. Queríamos ter também uma redação e dar informação não só sobre o país onde vivemos, que é a França, mas também sobre a Comunidade portuguesa que vive aqui. Na informação sobre Portugal, temos desde a primeira hora um acordo com a RDP. Partilhamos alguns jornais e existe também uma colaboração entre os nossos jornalistas. Quando a RDP vem a França e precisa dos nossos estúdios, estes estão também à disposição. Essa parte da informação nunca mudou. O que mudou foi a Rádio Alfa, que deixou de ter apenas um papel de rádio FM e acompanhou a evolução das tecnologias.

Precisamente, a Rádio Alfa também está hoje muito mais presente no digital. Como se fez essa transformação?

Começámos pelo site e pelos players que permitem ouvir a rádio através da internet. Depois criámos outras rádios dentro desses players, além da Rádio Alfa que existe em FM, com conteúdos dirigidos, por exemplo, às pessoas que querem ouvir apenas fado ou música pop. Também tivemos de acompanhar a evolução das redes sociais. Estamos presentes no TikTok, Instagram, X e Facebook. Agora queremos dar mais um passo: depois do som, queremos desenvolver a imagem. Dois dos nossos estúdios foram transformados para poderem funcionar também como estúdios de televisão. Muitas das emissões já existiam, mas agora, além do som e da internet, vão poder ter vídeo. A nossa vontade é ter conteúdos que possam ser vistos em direto, mas também em replay, porque percebemos que existe hoje um consumo muito importante através do vídeo.

A grelha também está a integrar cada vez mais programas em francês. Porquê esta escolha?

Há 39 anos, a Rádio Alfa era praticamente 100% em português. Hoje estamos a introduzir cada vez mais francês na nossa grelha porque a nossa Comunidade também mudou. Os mais jovens, mesmo quando entendem perfeitamente a língua portuguesa, estão muitas vezes mais à vontade em francês. Não podemos fechar-nos a essa evolução. Temos de permitir que esta nova geração encontre na Rádio Alfa alguma coisa que continue a ligá-la a Portugal. Também temos muitos casamentos mistos. Quando o marido ou a mulher não fala português, isso podia ser um travão para ouvir a rádio em conjunto. Hoje podemos ter um programa que fala de Portugal, que passa música portuguesa ou que aborda a Comunidade portuguesa em França, mas que é feito em francês.

Esta evolução não coloca em causa a presença da língua portuguesa na Rádio Alfa?

Não. Acho fundamental continuarmos a ter a língua portuguesa. A Rádio Alfa nunca será uma rádio 100% em francês. Acho que isso seria um erro. Mas, se falamos português, também temos de o falar corretamente, sem erros. Se transmitimos a língua de Camões, temos de a transmitir corretamente. Mais do que falar português, é importante falá-lo bem. Temos também alguns acordos com o Instituto Camões. Recentemente, por ocasião do aniversário da Rádio Alfa, tivemos aulas de português em direto nos nossos estúdios, com duas turmas que vieram fazer o seu dia de estudo aqui. A língua portuguesa é falada em muitas partes do mundo e pode também representar uma mais-valia profissional. Quem estudou em França fala francês, muitas vezes inglês e eventualmente outras línguas. Se uma dessas línguas for também o português, é uma vantagem no mercado de trabalho e permite igualmente movimentar-se por vários países.

Entre as novidades da grelha está Mike de Sá. O que pretendem trazer com estes novos programas?

Queremos trazer novidades, juventude e boa disposição. A Rádio Alfa tem o papel de informar, mas a informação nem sempre é alegre. Por isso, também temos de trazer boa disposição. Foi nesse sentido que fizemos esta aposta com o Mike de Sá, que aceitou imediatamente a proposta. A ideia é fazer uma emissão de boa disposição, onde podemos partilhar coisas do dia a dia, mas a sorrir. Já tivemos várias emissões e está a correr bem. Haverá outras emissões que vão entrar seguindo também esta lógica.

Outra das prioridades é reforçar a informação local fora da região parisiense?

Sim. Existe uma vontade da Comunidade de ter informação mais local. Temos algumas rádios em digital, através do DAB, e estamos a tentar encontrar animadores que possam estar diretamente nessas regiões. Pode ser no sul da França ou em Lyon, por exemplo. A ideia é que uma pessoa que faça um programa em Lyon, Nice ou no Mónaco possa falar diretamente sobre aquilo que está a acontecer nessa região. É importante que a nossa Comunidade em França saiba que existe uma realidade portuguesa e lusófona fora de Paris. Queremos também adaptar informações práticas, como o trânsito, às diferentes regiões. Uma pessoa que está em Lyon não está necessariamente interessada nos engarrafamentos de Paris, da mesma forma que uma pessoa em Paris não precisa da informação de trânsito de Lyon. Estamos a trabalhar em soluções para termos uma realidade muito mais presente e local.

Onde é possível ouvir atualmente a Rádio Alfa através das diferentes frequências?

Em FM, estamos apenas em Paris. Depois, através do digital, estamos presentes em Lyon, Mónaco e Nice. Também tínhamos Lille. Neste momento, estamos a tentar perceber se podemos encontrar uma solução para essa frequência. Não está completamente abandonada, mas é necessário encontrar uma solução viável, não só financeiramente, mas também em termos de envolvimento do movimento associativo da região.

Quais são agora os principais desafios e projetos da Rádio Alfa para os próximos anos?

Um dos objetivos é manter um equilíbrio financeiro, porque não podemos continuar permanentemente a ter custos sem existir uma resposta do lado dos clientes. É uma realidade que não diz respeito apenas à Rádio Alfa, mas também a outros órgãos de comunicação social em França. Ao mesmo tempo, queremos continuar a dar mais espaço aos jovens. Isso é fundamental. Queremos também que a língua de Camões continue presente através de uma rádio em França. A outra grande aposta é continuar a desenvolver o vídeo. Sabemos que, daqui a algum tempo, não vamos apenas ouvir rádio, vamos também vê-la. Esse é um dos grandes desafios para o futuro: sermos, de alguma forma, pequenos concorrentes da televisão. Não existe uma televisão portuguesa da Comunidade portuguesa em França e a Rádio Alfa pode propor um produto híbrido, juntando a rádio à imagem. É essa a nossa aposta.

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