Na era digital, o luto assumiu uma nova dimensão. As redes sociais, omnipresentes nas nossas vidas, transformaram a forma como vivemos e expressamos a nossa dor.
Se por um lado, oferecem um espaço para nos sentirmos acompanhados e partilharmos memórias, por outro, podem complicar o processo de luto, tornando a dor mais difícil de gerir.
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Uma caixa de Pandora emocional
Cada publicação, cada foto, cada comentário, feitos por terceiros, podem trazer de volta memórias dolorosas.
As redes sociais tornam-se, assim, uma caixa de Pandora onde os dramas, outrora vividos na intimidade, chegam agora em tempo real aos nossos ecrãs.
Uma avalanche de informações, imagens e comentários impõe-se a nós, muitas vezes sem filtro nem pudor. O luto outrora íntimo, tornou-se público.
Pense numa pessoa enlutada que decide olhar para o seu telemóvel com o intuito de distrair-se quando se depara com uma foto do seu ente querido partilhada por alguém.
O facto de não estar preparada pode ser extremamente doloroso.
Estes gestos bem-intencionados, são muitas vezes percebidos como invasivos e podem tornar o processo de luto mais complexo.
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O luto mediático: entre homenagens e invasão
Seja para uma morte inevitavelmente mediática (tsunami, morte violenta) ou uma morte anónima, as redes sociais tornam o luto público.
Pode acontecer que famílias sejam informadas do falecimento de um ente querido através dos media antes mesmo de serem avisadas oficialmente. Recordo-me o caso de um avô que perdeu o neto num acidente de viação. A família ainda ponderava como lhe dar a triste notícia quando ele próprio ligou, perplexo, a perguntar por que razão a foto do neto estava a passar na televisão.
Tragédias como os ataques do Bataclan, o assassinato da pequena Lola e, mais recentemente de Louise, mostram como o luto pode ser exposto de forma pública e avassaladora.
Seguem-se as datas aniversário onde Governos e jornalistas relembram estes casos sem o conhecimento ou consentimento das famílias.
A história do ente querido e dos seus familiares deixa de lhes pertencer, pois foge ao seu controlo.
Esta exposição intensa, amplificada pelas redes sociais e pelos media, acaba por infligir uma dor adicional aos familiares, que se veem bombardeados com imagens, comentários num momento de extrema vulnerabilidade e sem poder ter algum controlo nesta exposição de imagens.
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Como enfrentar a dor num mundo onde a intimidade é posta em causa?
O luto merece respeito, escuta e apoio. Num mundo onde tudo é partilhado, como preservar esta intimidade?
Aqui ficam alguns conselhos:
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1. Peça autorização aos familiares antes de publicar
Antes de partilhar uma foto, uma história ou uma homenagem, certifique-se de que tem o consentimento dos familiares do falecido. Este gesto simples mostra que respeita o seu espaço emocional e o seu processo de luto~.
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2. Prefira mensagens privadas
Se não for próximo da família, evite partilhar publicamente.
Uma mensagem privada para expressar as suas condolências pode ser muito mais reconfortante e menos intrusiva.
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3. Evite publicações impulsivas
Pense no impacto da sua publicação. Uma foto ou uma memória partilhada sem cuidado pode reavivar a dor naqueles que não a esperam. Pergunte-se: «Esta publicação poderá magoar alguém?»
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4. Seja discreto e respeitoso
Evite partilhar detalhes demasiado pessoais ou imagens íntimas do falecido. Prefira memórias leves e positivas que honrem a sua memória sem invadir a intimidade dos familiares.
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5. Proponha um espaço de partilha controlado
Se quiser criar um espaço para honrar a memória do falecido, considere um grupo privado ou uma página dedicada onde os familiares possam participar, se assim o desejarem. Isto permite limitar a exposição pública e respeitar a intimidade de cada um.
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Em resumo:
Homenagear online é um gesto que pode ter um impacto profundo nas pessoas enlutadas.
Antes de publicar, questione-se: «Esta partilha ajudará ou magoará aqueles que já estão a sofrer?»
O respeito pela dor alheia deve sempre guiar as nossas ações.
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Recordar a pessoa falecida é importante, mas manter o contacto após o funeral com a(s) pessoa(s) enlutada(s) é fundamental: uma mensagem privada, um telefonema ou até um abraço trazem muito conforto.
O luto é uma experiência profundamente pessoal.
Na era digital, é mais necessário do que nunca preservar a intimidade e o respeito daqueles que atravessam esta provação.
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Dra. Elisabeth Oliveira
Psychologie
Spécialiste en consultations cognitivo-comportementales