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“Souvenir”, de Tiago Cadete, estreia em Lisboa e leva ao palco a memória da emigração portuguesa em França


O novo espetáculo de Tiago Cadete, “Souvenir”, estreia-se em Lisboa nos dias 28 e 29 de maio, no Teatro Ibérico, no âmbito do festival Temps d’Images. Embora apresentado em Portugal, trata-se de uma criação profundamente ligada à emigração portuguesa em França – um tema que atravessa a história familiar do artista e que continua a marcar milhares de vidas na diáspora.

O espetáculo teve estreia absoluta no Teatro Cine de Torres Vedras, nos dias 27 e 28 de março, e apresentações no Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, na Moita, nos dias 15 e 16 de maio.

Partindo dos movimentos migratórios da segunda metade do século XX, Tiago Cadete mergulha na história do seu próprio pai e da família paterna, que se fixou entre a região da Moselle e a grande Paris. O espetáculo nasce desse reencontro com uma herança migrante que, durante décadas, se manifestou sobretudo nos verões algarvios, quando os familiares regressavam temporariamente “de França”, trazendo sotaques, hábitos e um imaginário que misturava distância e pertença. Só mais tarde, já ele próprio migrante, o artista percebeu que essa história não era apenas um pano de fundo familiar, mas um eixo central da sua identidade.

“Souvenir” assume-se como um objeto autobiográfico e transdisciplinar, cruzando três linguagens: um podcast construído a partir de 25 testemunhos de portugueses emigrados em França, recolhidos de norte a sul do país; um vídeo que oscila entre o documentário e a ficção; e uma performance em palco que convoca memória, arquivo e corpo. O objetivo é claro: criar um espaço de reflexão sobre as experiências migratórias e despertar empatia – uma ferramenta essencial num tempo em que a xenofobia, o populismo e a desinformação ameaçam a coesão social.

O podcast-arquivo, disponível no Spotify, YouTube e Instagram, é um dos pilares do projeto. Lançado a 10 de março, publica dois episódios por semana até 29 de maio, dando voz a homens e mulheres que construíram vida em França, muitos deles em contextos de grande adversidade. Mais do que registar histórias, o arquivo procura ativar a memória migrante e devolvê-la ao espaço público, num gesto de reconhecimento e valorização.

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A criação contou com residências artísticas em várias cidades portuguesas e com a colaboração de uma vasta equipa de intérpretes, técnicos e participantes, incluindo familiares do próprio artista. A dramaturgia tem apoio de Leonor Cabral e David Marques, e o projeto é produzido pela estrutura Co-pacabana, com coproduções do Teatro-Cine de Torres Vedras, do Fórum Cultural José Manuel Figueiredo (Moita) e do Temps d’Images.

Com “Souvenir”, Tiago Cadete acrescenta uma nova peça ao crescente movimento artístico que revisita a história da emigração portuguesa, não como um capítulo fechado, mas como uma realidade viva que continua a moldar identidades, famílias e geografias. Um espetáculo que, embora nasça em Portugal, fala diretamente à vasta Comunidade portuguesa em França – e à necessidade de preservar, compreender e transmitir esta memória coletiva.

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