Sugestão de leitura: Quando Fernão de Magalhães deu uma volta ao mundo sem querer

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O historiador português Luís Filipe Thomaz escreveu “O Drama de Magalhães e a volta ao mundo sem querer” – vencedor do Prémio PEN Club Português de 2019 para a categoria de Ensaio – com o objetivo de desmontar um dos grandes mitos sobre as explorações portuguesas e europeias dos séculos XV e XVI. E é logo no primeiro parágrafo que Thomaz apresenta a sua tese: “É evidente que Magalhães nunca pensou em dar a volta ao mundo”.

 

Ora num momento em que a humanidade celebra os 500 anos da primeira viagem de circum-navegação do globo (1519-1522) realizada pelo mais famoso navegador de todos os tempos (e que em França acaba de começar a célebre Vendée Globe, a volta ao mundo solitária em veleiro) a editora francesa Le Poisson Volant faz chegar às livrarias do Hexágono, em versão aumentada e revista, a tradução desse pequeno, mas precioso ensaio.

«Le Drame de Magellan ou le tour du monde involontaire» é então um destruidor de mitos muito necessário. O principal objetivo da viagem que Fernão de Magalhães realizou ao serviço de Espanha foi geopolítico e destinava-se a provar que as ilhas Molucas – na atual Indonésia – se encontravam do lado espanhol do Tratado de Tordesilhas (1494). Como em tantos outros momentos históricos, a ciência submeteu-se aos caprichos da política.

E por que razão era tão importante saber de que lado, se do português, se do espanhol, ficavam as Molucas? A resposta é simples: o cravinho, a mais rara e valiosa das especiarias asiáticas. Mesmo que, como diz Thomaz, seja um exagero afirmar que o cravinho valesse o seu peso em ouro, esta exótica especiaria era capaz de construir fortunas.

Profundo conhecer da astronomia e da arte da navegação da sua época, Fernão de Magalhães, um português de mal com o seu rei, Manuel I, atravessou a raia e pôs-se ao serviço do rei espanhol, o célebre Carlos Quinto, o mais poderoso dos monarcas europeus, prometendo-lhe que conseguiria, caso lhe desse o rei os meios necessários, provar que as Molucas se situavam na esfera de influência espanhola.

Carlos Quinto, porém, mesmo certo do seu poder, não quis arriscar uma guerra com Portugal – a paz entre os dois países ibéricos fora selada com um matrimónio real em 1518 – e aceitou essa proposta com uma condição: Magalhães não poderia penetrar em águas portuguesas. O que não se adivinhava fácil, visto que o papa de Roma, a ONU daqueles tempos, oferecera a Portugal metade do planeta. E é essa interdição que vai levar indiretamente a uma das mais impressionantes descobertas geográficas da história da humanidade. Magalhães será forçado a encontrar a passagem entre o oceano Atlântico e o oceano Pacífico. Passagem que hoje tem o seu nome: o Estreito de Magalhães.

O grande mérito de Magalhães não foi o de realizar a primeira viagem de circum-navegação ou o de descobrir que a terra era redonda (isso – apesar dos risíveis terraplanistas dos nossos dias – já se sabia há dois mil anos, desde o tempo de Pitágoras). O enorme engenho de Magalhães permitiu, sim, a navegação europeia de um oceano ainda inexplorado, o Pacífico, e permitiu à Espanha aceder ao Oriente (às Filipinas, a sua colónia asiática) e à recém-descoberta América pela rota ocidental, evitando-se assim o confronto direto com o Império Marítimo Português que fizera do Índico um lago lusitano.

Este pequeno grande livro não deixa pedra por virar e o autor deixa bem claro não só os objetivos políticos da viagem de Magalhães, mas também explica com clareza os conhecimentos científicos da época aplicados à navegação geográfica.

Fernão de Magalhães não terminou a sua viagem, morrendo nas Filipinas durante uma escaramuça guerreira. Mas o seu legado transformou o mundo… para o bem e para o mal. Por um lado, conduziu a um inacreditável salto em frente para a ciência, mas, por outro, permitiu a Portugal e a Espanha (e, mais tarde, a outras várias nações europeias entre as quais a França) levarem avante os seus projetos imperiais e coloniais responsáveis por séculos e séculos de genocídios e escravização de povos inteiros.

 

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