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António de Morais Cardoso, um dos fundadores da rádio Alfa em Paris, acaba de editar um livro intitulado “Meutres en modulation de fréquence” que assina com o nome Albert de Morais, nas edições Douro.

Trata-se de um romance policial com um enredo que implica mortes, um bispo que violou menores, comissários de polícia franceses e agentes do KGB,… mas também se trata de um documento criptado sobre a história da emigração portuguesa em França e em particular sobre a legalização das rádios livres nos anos 80. Criptado porque no livro, o personagem principal, cria uma rádio da Bretanha em Paris.

António Cardoso não se considera escritor. “Digamos que sou um autor que gosta de escrever, que gosta de literatura, e escrevi dois livros, mas daqui até aos 70 anos – e não estou muito longe – quem sabe se me poderão chamar escritor. Por enquanto sou apenas um mero e modesto autor que escreveu dois livros” diz numa entrevista ao LusoJornal.

O primeiro livro “Soif de Liberté” foi lançado em 2016 e o segundo, “Meutres en modulation de fréquence”, saiu neste dia 1 de setembro.

 

A restauração foi o primeiro emprego em França

António Cardoso é natural de Alijó mas foi para Lisboa ainda pequeno. “A partir dos meus 15/16 anos, havia grupos que começavam a falar de política e eu tive várias vezes problemas com a Guarda Republicana e a determinada altura, os meus pais e eu, considerámos que a melhor solução era eu fazer como outros da minha idade e ir procurar outras aventuras fora de Portugal”. Chegou a Paris com 18 anos e foi trabalhar na restauração, trabalhou em estabelecimentos de prestígio, tirou uma formação numa escola hoteleira e depois abriu alguns restaurantes. “Abri alguns para uma empresa de hotelaria e restauração conhecida” e criou o seu próprio restaurante, o Petit Cardoso, que foi bastante conhecido nos anos 80, na praça de Paris. Por ali passaram grandes nomes do fado e da música ligeira portuguesa, como por exemplo Carlos do Carmo, Ilda de Castro ou Tony de Matos.

O personagem principal do livro, Alban, também é restaurador. “Digamos que é o olhar do narrador sobre alguém que conhece bem” diz a sorrir. “Não posso negar, claro, que se trata de uma parte da minha vida, que foi romanceada em função das circunstâncias que quero ou não divulgar. Não posso negar que se baseia na minha própria história” confessa numa entrevista “live” ao LusoJornal.

 

Cofundador da rádio Alfa

Nos anos 80, havia muitas “rádios livres” em França. Eram rádios também chamadas “piratas” porque não estavam legalizadas.

Nessa altura, António Cardoso acedeu instalar uma antena de rádio no prédio onde tinha o restaurante com o cabo a passar pelos tubos de extração de fumo. “Foi um drama porque ali ao lado havia uma espécie de congregação religiosa e evidentemente as pessoas deixaram de poder ver a televisão porque havia interferências” conta ao LusoJornal. “Veio a polícia, foi uma grande chatice. A experiência durou 3 ou 4 meses, mas eu achei aquilo muito engraçado e fiquei à espera de uma oportunidade”.

A oportunidade não tardou a aparecer. Uma amiga a quem confessou que queria montar uma rádio apresentou-o a Rogério do Carmo, que depois lhe apresentou Fernando Silva, Jaime Mendes, Artur Silva e Helena Machado, todos cofundadores da rádio. “Reunimo-nos no meu restaurante durante meses e foi assim que foi criada a rádio Alfa”.

 

Uma promessa de Mittérand

Na altura emitiam na região parisiense três rádios portuguesas. O Rádio Clube Português, a Rádio Eglantine e a Rádio Portugal no Mundo. François Mittérand tinha prometido durante a campanha eleitoral, em 1981, que legalizaria as “rádios livres” mas “Mitérrand demorou 6 anos para cumprir a promessa” afirma António Cardoso. “Foi decidido que as rádios que estavam a emitir deveriam apresentar projetos para serem autorizadas a partir de 1987. Aparentemente, a Rádio Eglantine e o Rádio Clube Português apresentaram projetos, mas a Rádio Portugal no Mundo não apresentou projeto”. António Cardoso acha mesmo que estes dois projetos não passaram sequer à fase de análise “porque estavam incompletos”, mas diz que, no total, havia 6 projetos de rádio para a Comunidade portuguesa, entre os quais o da Rádio Alfa.

Nesse concurso, a Rádio Alfa apenas ganhou “meia frequência” porque apenas podia emitir 12 horas por dia, entre as 5h00 da manhã e as 17h00 da tarde, partilhando a frequência com uma rádio africana, a Tabala FM.

 

Afastado pela Extrema Direita

Quando a Rádio Alfa começou a emitir, no dia 5 de outubro de 1987, António Cardoso não estava na rádio. “Estive ausente entre julho e início de outubro” confirma o próprio. “Foi uma ausência forçada durante 3 meses”.

A história é contada no livro, pondo em cena personagens da Bretanha em Paris, mas ao LusoJornal, António Cardoso afirma que a Extrema Direita francesa tentou recuperar o controlo da estação de rádio.

“Há um grupo de pessoas vindas do exterior que soube que a rádio ia ser autorizada. Souberam por informações vindas do interior da entidade de tutela. Então convenceram os meus colegas fundadores, entre os quais, evidentemente, o Presidente Jaime Mendes, que talvez eu não fosse a pessoa mais adaptada para continuar a aventura. Fizeram uma espécie de Conselho de Administração e acederam afastar-me em finais de junho” conta ao LusoJornal. “Eu só soube mais tarde que a rádio ia ser autorizada, então fui ter com essa gente toda, com quem entretanto tive algumas reuniões – estou a falar dos patifes, não tenho nenhum problema em dizer isso hoje – pessoas que estavam ligadas ao Front National, que estavam ligadas a uma pessoa da CNCL que lhes dava todas as informações”.

A história está clara no livro agora editado, embora de forma criptada por se tratar de uma rádio bretã em Paris, mas António Cardoso confirma que, no início da Rádio Alfa, o Front National tentou controlar a rádio. “A notícia veio também no Le Monde, no Libération… eu tenho todos os arquivos, tenho documentos sobre tudo o que afirmo”.

Finalmente António Cardoso reagiu e conseguiu recuperar o lugar que tinha no Conselho de Administração da rádio.

 

Uma rádio associativa

No seu início, a Rádio Alfa era uma rádio com estatuto associativo. Isto quer dizer que apenas podia vender 20% do seu orçamento em publicidade. Era pouco, na opinião dos dirigentes da rádio. Decidiram então montar um “esquema paralelo”: criar uma empresa que vendesse a publicidade e pagasse diretamente aos assalariados, para que o dinheiro não passasse pela rádio.

“Eu devo confessar que não sou o autor do esquema” disse António Cardoso ao LusoJornal, explicando que aprendeu com a Rádio Oriente e com outras rádios parisienses. “A Rádio Oriente e outras rádios do mesmo género iriam funcionar assim, tendo em conta esta dificuldades de um orçamento com apenas 20% de publicidade, sendo que os 80% tinham que ser ou subsídios ou donativos. Isso era totalmente impossível. Aliás, o próprio Governo francês apercebeu-se muito rapidamente que aquilo não tinha pernas para andar e portanto fechou os olhos a este tipo de funcionamento e foi autorizando essa prática”.

Ainda hoje as três rádios que emitem praticamente 24 horas por dia em português, são rádios associativas e obedecem a esta regra de terem apenas 20% das receitas em publicidade – Rádio Arc en Ciel de Orléans, Rádio Antena Portuguesa de Tours e Rádio Altitude de Clermont Ferrand. “Mas não se adaptava àquelas rádios que pretendiam ter uma projeção maior e ter ambições de outra natureza que não fossem tão associativas” confessa António Cardoso.

 

Uma rádio “quase” comercial

António Cardoso tinha pensado no modelo, mas antes da Rádio Alfa começar a emitir, diz que “as tais pessoas que tomaram conta da Rádio Alfa” criaram a empresa Alfa Production. “O início da rádio foi evidentemente financiado por essa empresa. A associação não tinha meios para comprar todo o material. Apenas teve um empréstimo associativo que permitiu comprar algum material de estúdio, mas não chegava para o que era necessário. É preciso emissores… isso são custos importantes e foi essa empresa que financiou”.

Com o regresso de Tony Cardoso à Alfa e depois da rutura com as pessoas que António Cardoso diz pertencerem à Extrema Direita, foi criada a empresa Alfa Promotions que passou a comercializar, em exclusividade, a publicidade da estação portuguesa de rádio.

Durante este período, as três rádios associativas que não tinham tido autorização para emitir, manifestaram-se, criaram uma federação à qual chamaram Portugal FM e passaram a partilhar a antena com a Rádio Alfa, substituindo o tempo horário que inicialmente tinha sido atribuído à Rádio Tabala FM. Passou então a haver uma frequência totalmente em português.

No concurso seguinte, a Rádio Alfa passou a emitir 24 horas por dia, passou a ser uma rádio comercial, sem limitação de venda de publicidade e a proprietária do projeto passou a ser a empresa Alfa Difussion. “Isso foi quase uma imposição da autoridade de tutela, mesmo se não há nada escrito” diz António Cardoso. “Com o Presidente da associação Alfa, que na altura era o Vítor Esteves, resolvemos que tínhamos que ir à procura de investidores para garantir que a rádio fosse autorizada. Era a única hipótese, não havia outra hipótese. Tínhamos de construir um novo modelo de rádio”.

 

Uma rádio comercial

O Comendador Armando Lopes surge como principal investidor, entrou no capital e, pouco a pouco comprou as ações dos outros acionistas. “Eu vendi as minhas partes na Alfa Difussion, não de livre vontade, porque eu tinha vontade de continuar a desenvolver o projeto” disse António Cardoso ao LusoJornal. “Vendi porque de repente eu fui confrontado com a perda da maioria, fui confrontado com a venda das ações dos meus colegas. Há pessoas da Rádio Alfa que receberam ações gratuitamente o que as venderam depois ao senhor Armando Lopes. Não conheço os montantes, mas venderam. A partir daí eu fiquei em minoria”.

“O senhor Armando Lopes fez-me uma proposta, eu refleti e aceitei vender. Correu tudo bem e somos os melhores amigos do mundo. Não vamos aos mesmos casamentos e aos mesmos batizados, mas são negócios. Aliás, não é segredo nenhum, ainda recentemente eu dei uma ajuda no projeto de alargamento da Rádio Alfa a várias regiões de França, a pedido do senhor Armando Lopes e do Fernando Lopes. Não tenho qualquer problema, passou-se tudo muito bem”.

Mas a empresa Alfa Promotion guardou a exclusividade da venda de publicidade até 1996 “depois fui dar uma volta para os Estados Unidos, para passear”.

 

A editora Douro

António de Morais Cardoso dirigiu também o Jornal Encontro das Comunidades, que tinha sido fundado por Jaime Ribeiro e mais tarde fundou o canal de televisão CLP TV – que será provavelmente assunto para o próximo livro.

Em 2016 criou as Editions Douro, em homenagem à região que o viu nascer.

Tendo em conta as dificuldades para editar livros, quando António Cardoso escreveu “Soif de liberté” decidiu recorrer ao financiamento participativo “e como fiquei com dinheiro a mais, esse dinheiro serviu para criar este projeto de editora e como eu estou na reforma, necessito de uma ocupação” diz a sorrir.

“Meurtres en modulation de fréquence” é o nono livro da editora que entretanto estabeleceu uma parceria com a Hachette para a distribuição. Aliás as próximas obras a editar serão poesias.

“Não tem só a ver com Portugal, são também autores franceses, suíços, belgas, mas já agora eu gostaria de criar uma coleção a que chamaria ‘D’ici et d’ailleurs’ para publicar obras de pessoas que vieram de outros horizontes e para enriquecer este país. Estou a falar, claro, dos Portugueses, que são aqueles que me interessam mais, porque sou um apaixonado por Portugal, mas também os Polacos, os Italianos, os Espanhóis depois da guerra civil… gente que tem estas duas experiências, esta quase dupla cidadania para alguns, como é o meu caso, que falem das suas raízes”.

O apelo fica lançado.

 

 

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