Saúde: Quando as mulheres ganham mais do que os homens


Na minha prática clínica tenho encontrado níveis de tensão e conflito relacionais maiores quando a mulher se sente sobrecarregada no dia-a-dia, na gestão das tarefas domésticas e na conciliação das responsabilidades trabalho-família e ao nível do exercício da parentalidade mais do que propriamente a questão financeira. Ainda que esta tendência de rutura da relação possa surgir quando as mulheres ganham mais, não deve ser lida como uma regra universal.

Muitas vezes o que se observa é que a assimetria económica funciona como gatilho relacional quando já existem fragilidades: papéis rígidos, baixa flexibilidade do casal, dificuldades de comunicação, ressentimento ou uma divisão desequilibrada como anteriormente dizia do trabalho doméstico e parental. Em casais mais flexíveis e com uma boa capacidade de negociação e de expressão das necessidades, a diferença de rendimentos nem sempre tem um impacto negativo tão expressivo e relevante na relação.

Ainda existe muitas vezes um preconceito sobre a mulher ganhar mais do que o homem, porque ainda é atribuído ao homem em determinadas culturas como a nossa o estereótipo do homem ser o “ganha-pão”, o que sustenta, o provedor, isto é, o valor do homem ser associado ao que ganha e o sucesso da mulher ser visto como uma ameaça à identidade masculina ou à relação do casal… como se a masculinidade se associasse ao salário auferido.

Este preconceito também surge nas expectativas sociais: muitas mulheres continuam a assumir mais tarefas domésticas e muito trabalho “invisível” mesmo diariamente trabalhando as mesmas horas depois de terem sido mães, ou até mais, e ganhando mais, enquanto os homens podem sentir pressão por esta situação de desequilíbrio salarial o que os leva por vezes a compensar esta diferença por outras vias como através do controlo, da autoridade ou até do distanciamento.

Na clínica, quando as mulheres assumem um papel profissional de maior responsabilidade e isso se traduz no salário sentem-se frequentemente más mães, más companheiras ou até egoístas porque considerarem que estão a falhar ou que deveriam passar mais tempo com os filhos… surgem muitas vezes em consulta sentimentos de culpa, vergonha, comparação, hostilidade e diminuição da intimidade do casal.

Quando se equilibra a partilha de tarefas e de responsabilidades relativamente à gestão do dia-a-dia, das responsabilidades com os filhos e se respeita o tempo de trabalho individual, a carga mental diminui e há mais espaço para ambas as partes expressarem desacordos e divergências de perspetivas e para resolverem conflitos de forma saudável e adaptativa.

Efetivamente a implementação de medidas de conciliação trabalho-família como horários mais flexíveis, licenças parentais equilibradas, apoio à infância e divisão realista das tarefas reduzem a sobrecarga e os conflitos, o que faz todo o sentido clinicamente. Com efeito, na prática, quando o casal consegue reservar tempo de qualidade, repartir responsabilidades e renegociar papéis, a diferença salarial perde muito do seu poder destabilizador. Acredito que o problema raramente é só económico, a maioria das vezes é mais profundo, é sobretudo relacional e organizacional.

Para esta realidade mudar, é importante atuar a vários níveis. Ao nível cultural, laboral, relacional, individual…. Culturalmente, é preciso desconstruir a ideia de que o homem tem mais valor quando ganha mais e que o papel social das mulheres é a par do trabalho assumir a gestão da casa e dos filhos.

Precisa-se normalizar a liderança feminina; laboralmente, políticas de conciliação devem tornar-se mais acessíveis e simétricas; e, no plano do casal, é essencial promover a comunicação, a negociação, a equidade sem vergonha nem competição. Muitas vezes os casais parecem estar a competir um com o outro e não a fazer equipa! Individualmente também importa investir ao nível do autoconhecimento e da gestão emocional ressignificando padrões de pensamento e de crenças.

Em suma, acredito que não é o rendimento propriamente da mulher que faz o casal separar-se; antes a forma como a relação é vivida e a sociedade lida com esta mudança de poder e de papéis.

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Dra. Tatiana Louro da Bela

Psicóloga Clínica na Guarda / Celorico de Basto

Especialista e Mestre em Psiquiatria e Saúde Mental

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