Sou ateu…
Digo-o sem provocação, mas como ponto de partida: não procuro na religião uma verdade revelada, mas observo nela um fenómeno humano, histórico e social. É nesse plano que me interessa pensar o lugar das grandes tradições religiosas:
– Judaísmo,
– Cristianismo
– Islão
e a forma como, em certos momentos da história, se aproximaram do poder político.
Há um traço comum entre estas três religiões monoteístas: todas, em diferentes épocas, desenvolveram uma vocação de organização do mundo. Não apenas da vida espiritual, mas também da vida social, jurídica e política. Essa ambição nasce da própria essência de religiões que procuram dar sentido a:
– uma visão total da existência (do nascimento à morte),
– uma ética (finalidade da vida),
– uma lei (organização da sociedade),
– uma comunidade (estrutura coletiva).
Mas há também uma diferença importante na forma como se expandem. O cristianismo e o Islão desenvolveram, desde cedo, uma vocação universalista, baseada na adesão de novos fiéis, através da pregação, da conversão e, em certos momentos da história, também da expansão política e territorial: religiões de conquista?

O judaísmo, por sua vez, seguiu um caminho distinto. Estruturado durante séculos como religião de diáspora, privilegiou a continuidade interna, assente sobretudo na transmissão familiar, tradicionalmente pela linhagem materna, mais do que na procura ativa de novos membros, ainda que a conversão exista: uma certa forma de ostracismo?
Estas diferenças ajudam a compreender relações distintas com o poder.
– Em certos contextos contemporâneos do Islão, a ligação entre religião e Estado mantém-se visível.
– O cristianismo conheceu durante séculos uma forte imbricação com o poder político, sobretudo através da Igreja de Roma e da sua expansão missionária.
– O judaísmo desenvolveu uma relação mais complexa com o poder, marcada pela ausência prolongada de soberania territorial e pela centralidade da Comunidade.
Ainda assim, reduzir qualquer destas tradições a uma “religião política” seria simplificador. Todas elas contêm uma pluralidade de práticas e interpretações, (espirituais, culturais e filosóficas), que evoluíram ao longo do tempo.
Talvez a questão mais relevante não seja saber qual religião é mais política, mas compreender por que razão os seres humanos tendem a transformar sistemas de crença em sistemas de poder. A religião, nesse sentido, não é exceção: é um espelho.
Hoje, num mundo globalizado e plural, o desafio é outro: como conciliar identidade, crença e convivência? Como garantir que nenhuma visão do mundo, religiosa ou não, se imponha sobre a dignidade fundamental do indivíduo?
Para mim, a resposta é simples, ainda que exigente: o respeito pelo ser humano deve estar acima de qualquer pertença religiosa ou outra. Nem religião, nem ideologia, nem tradição poderão justificar a negação da liberdade ou da igualdade.
No fim, talvez seja isso que verdadeiramente nos une… não a crença, mas a condição humana: HUMANISMO.
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José Robalo
Sinergias da Diáspora






