Opinião: Israel – da ambiguidade de 1948 ao radicalismo punitivo do presente

Se a criação do Estado de Israel, em 1948, já surgiu envolta em interpretações no mínimo controversas, o estatuto de 2018 não fez senão aprofundar a complexidade e a gravidade da questão. O que era, na origem, uma tensão entre memória histórica e soberania transformou-se, nos últimos anos, em um projeto político cada vez mais marcado pela exclusão, pela hierarquização jurídica das vidas e pelo empoderamento aberto dos setores coloniais mais violentos.

A Lei Básica de 2018, ao definir Israel como Estado-nação do povo judeu, não apenas elevou uma memória histórica ao nível constitucional: ela forneceu base simbólica e política para o fortalecimento de uma visão exclusivista do Estado. A partir daí, o avanço dos colonos na Cisjordânia ocupada passou a encontrar um ambiente ainda mais permissivo, no qual assentamentos antes contestados ganharam respaldo político crescente, enquanto comunidades palestinas foram submetidas à desapropriação, à intimidação e, não raro, à morte. A recente escalada da violência dos colonos, já denunciada por organizações israelenses de direitos humanos, tornou-se parte de uma rotina de quase impunidade.

É impossível ignorar a contradição moral que se impõe: se o Estado e seus ministros qualificam como “terrorismo” toda violência palestina contra civis, como nomear os colonos armados que avançam sobre terras palestinas, expulsam famílias, queimam casas e matam habitantes sob a proteção tácita, e às vezes material, do aparato estatal? Diversos setores da própria sociedade israelense já utilizam sem hesitação a expressão “terrorismo judaico” para designar tais práticas.

A nova lei da pena de morte torna essa assimetria ainda mais brutal. Aprovada há poucos dias, ela estabelece, na prática, a execução de palestinos condenados por atos classificados como terroristas, enquanto extremistas judeus dificilmente seriam alcançados pelo mesmo dispositivo legal. O caráter moralmente perturbador dessa deriva revelou-se de modo quase alegórico quando o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, celebrou sua aprovação abrindo uma garrafa de champanhe no Parlamento, como se a institucionalização da morte pudesse ser recebida como troféu político. A imagem é de uma violência simbólica devastadora: não se festejava apenas uma votação parlamentar, mas a transformação da pena capital em espetáculo de triunfo ideológico. A pergunta ética torna-se inevitável: por que a morte jurídica vale para um terror e não para outro?

Persiste, contudo, um dado que o discurso nacionalista tende a empurrar para as margens: uma parcela significativa da cidadania israelense não é judaica. Aproximadamente 20% da população é formada por árabes israelenses, entre os quais muitos se reconhecem também na identidade palestina. Quando o Estado se define constitucionalmente em termos étnico-nacionais tão exclusivos, esses cidadãos passam a ocupar uma posição simbolicamente diminuída dentro da própria casa política. Tornam-se cidadãos civis, mas não plenamente participantes do imaginário soberano.

É justamente aí que a crítica se torna mais severa. Um pequeno núcleo de extrema direita, hoje com peso desproporcional no Governo, vem impondo ao conjunto do país uma deriva autoritária, etnonacionalista e punitiva que muitos judeus, em Israel e na diáspora, rejeitam abertamente. O dissenso cresce em sinagogas, universidades, jornais e movimentos cívicos judaicos, que denunciam nessa política ecos perigosos de uma lógica supremacista e, em alguns casos, chegam a qualificá-la como uma deformação moral de traços abertamente fascizantes.

O drama contemporâneo de Israel talvez resida justamente aqui: um Estado nascido do trauma máximo do século XX corre o risco de permitir que o medo histórico se converta em doutrina permanente de exceção. E toda vez que a exceção se normaliza, a democracia começa a perder sua substância ética.

No fundo, o que está em jogo já não é apenas a questão palestina, mas a própria alma política de Israel: será ainda possível conciliar memória judaica, democracia real e igualdade de cidadania sob o peso crescente do colonialismo armado e da extrema direita religiosa?

Resta a esperança de que os eleitores, nas próximas eleições, em Israel, no Brasil e em outros países, saibam reconhecer as extremas direitas, muitas vezes disfarçadas de direita respeitável, e escolham candidatos capazes de resistir a esses nacionalismos de ocasião.

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Marco Guimarães

Escritor e jornalista

Autor de romances e crônicas com edições publicadas em Angola, no Brasil, na Croácia, na França e na Itália

Membro fundador da UEELP (União Europeia dos Escritores de Língua Portuguesa)

Marco Guimarães

Marco Guimarães

Écrivain et journaliste.
Cofondateur et Vice-Président de l’Union européenne des écrivains de langue portugaise (UEELP)

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