Cinema: As vozes esquecidas da guerra que “Damas” traz à luz: entrevista à realizadora Cláudia Alves

O cinema tem vindo a desempenhar um papel fundamental na recuperação de memórias históricas esquecidas, trazendo para o presente narrativas que durante décadas permaneceram à margem. É nesse contexto que surge “Damas” (ler AQUI), o mais recente projeto da realizadora Cláudia Alves, que dá visibilidade à participação das mulheres portuguesas na I Guerra mundial, filme em projeção no City Alvalade, em Lisboa, até ao dia 13 de maio. Seguirá, depois, para Coimbra e outras cidades do país.

Partindo de investigações anteriores e de um profundo trabalho de pesquisa, o filme propõe uma abordagem sensível e inovadora, cruzando arquivo e recriação para contar histórias que raramente chegaram ao grande público. Para melhor compreendermos esta obra cinematográfica interrogamos, para o LusoJornal, a realizadora Cláudia Alves.

.

Cláudia Alves, em que medida os seus filmes anteriores para televisão, como “A Vida nas Trincheiras”, influenciaram o projeto de Damas?

A Vida nas Trincheiras foi, de certa forma, o ponto de partida. Quando estava a trabalhar sobre a Primeira Guerra, para um documentário intitulado “A Vida nas Trincheiras” (para a RTP), senti necessidade de incluir um capítulo dedicado à mulher portuguesa. Foi aí que descobri a história das enfermeiras voluntárias e percebi que havia um universo pouco explorado que merecia um filme próprio.

O seu filme aborda um tema raramente destacado: a participação das mulheres portuguesas na I Guerra mundial. Foi uma escolha consciente?

Sim, completamente. Normalmente fala-se das trincheiras e dos soldados, mas pouco das mulheres. E, no caso português, essa ausência é ainda mais evidente. Eu não sou historiadora, mas procurei apoio em estudos existentes e junto de investigadoras como Helena da Silva ou Natividade Monteiro, que já tinham trabalhado este tema.

Como foi o processo de pesquisa para construir essa narrativa?

Foi um trabalho intenso. Consultei bibliografia, como o livro “Das Trincheiras, com Saudade” de Isabel Pestana Marques, e também procurei descendentes das enfermeiras. Entrei em contacto com alguns familiares, visitei casas, recolhi testemunhos e tentei aproximar-me o mais possível dessas histórias pessoais. Nem sempre foi fácil, mas foi muito enriquecedor.

O filme mistura arquivo e encenação. Foi difícil equilibrar esses dois elementos?

Foi um desafio interessante. Usei imagens de arquivo sempre que possível, mas houve momentos em que precisei de recriar situações com base no que li. Tentei ser transparente nesse processo, usando o cinema como forma de aproximar o público de uma realidade que não está totalmente documentada.

Houve algo que a surpreendeu particularmente durante a pesquisa?

Sim, especialmente os objetos pessoais, como um álbum fotográfico de uma das enfermeiras. Era um registo íntimo, com fotografias tiradas por ela própria. Isso trouxe uma dimensão muito humana à história.

Sente uma responsabilidade especial ao dar visibilidade a esta memória histórica?

Sim, sinto que, de certa forma, me tornei guardiã destas histórias. Não fiz isto sozinha, claro, houve uma equipa e muitos apoios. Mas sinto um orgulho em contribuir para que estas mulheres não sejam esquecidas.

Como vê o tratamento do Corpo Expedicionário Português na história e na cultura portuguesa?

Acho que ainda há muito desconhecimento. Aprende-se na escola, mas não se transmite a dureza real da experiência nas trincheiras. O cinema pode ajudar a criar essa ponte entre o conhecimento académico e o público.

Considera que o cinema pode combater a desinformação histórica?

Pode ajudar, sim. Mesmo que haja limitações de orçamento ou algumas liberdades criativas, o importante é despertar interesse e dar a conhecer essas histórias.

Que mensagem gostaria que o público levasse após ver Damas?

Gostava que refletissem sobre o esforço e as conquistas destas mulheres e sobre a importância de continuar a lutar pelos direitos, mesmo os adquiridos. A história delas é também uma metáfora para a luta pela igualdade.

Houve algum momento marcante durante as filmagens?

Sim, uma cena em particular emocionou-me muito: quando as enfermeiras cantam juntas. Foi um momento muito forte, quase espontâneo, e senti ali uma ligação profunda com aquelas personagens.

Este filme marcou-a enquanto realizadora e pessoa?

Sem dúvida. Cada projeto permite-me entrar em contacto com realidades diferentes e crescer com isso. ‘Damas’ foi especialmente transformador nesse sentido.

Penso que este seu filme deveria ser projetado em todas as escolas. Em Portugal existe este tipo de possibilidade?

Esse esforço já está a ser feito, o Ministério de Educação manifestou interesse em adquirir os direitos do filme. Se isso se concretizar será uma excelente novidade para nós, vai permitir dar ainda mais visibilidade ao filme e ao tema.

Existe a possibilidade de o filme ser exibido na França?

Sim, é algo que gostaria muito. Já temos versão em inglês, e o próximo passo será traduzir para francês. Acho importante que estas histórias cheguem a um público mais vasto.

.

Damas afirma-se como uma obra essencial para repensar o lugar das mulheres na história portuguesa, sobretudo num contexto tão marcante como a I Guerra mundial. Ao dar voz às enfermeiras e resgatar as suas vivências, o filme não só enriquece o panorama cinematográfico nacional, como também contribui para um debate mais amplo sobre memória, igualdade e reconhecimento. Mais do que um exercício artístico, trata-se de um gesto de justiça histórica, que reforça a importância de continuar a revisitar o passado para melhor compreender o presente.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Não perca