Quando António Ramos de Pinho chegou a França, em 1976, tinha apenas alguns anos e nenhuma ideia de que, décadas mais tarde, o seu nome estaria ligado a uma das redes de restauração mais dinâmicas da região de Hauts-de-France. Natural de César, no concelho de Oliveira de Azeméis e distrito de Aveiro, cresceu entre a memória da terra natal e a realidade da emigração portuguesa, que marcava então o quotidiano de milhares de famílias. É cofundador e Presidente do grupo Lusitália, uma cadeia de 16 pizzarias que continua a crescer e que se tornou um caso de estudo sobre empreendedorismo, identidade e família.
“Nada”, responde António Ramos de Pinho quando lhe perguntam se tinha experiência na área gastronómica antes de abrir o primeiro restaurante. O percurso era outro: a área comercial, o quotidiano de filho de emigrantes, a vida construída passo a passo… Até que, em 1997, um encontro com Constantino Mascaro mudou tudo. “Encontrei um sócio italiano e decidimos montar uma pizzaria. Naquela época, o setor estava em grande expansão e parecia lógico avançar”.
A primeira pizzaria abriu em Liancourt e rapidamente se tornou um ponto de encontro. Antes disso, os dois sócios tinham feito formação com um mestre pizzaiolo – “fomos aprender do zero”, recorda António Ramos de Pinho – e lançaram-se numa aventura que, na altura, parecia apenas um projeto promissor. Hoje, é uma marca consolidada.
Passados quase 30 anos, a fotografia do grupo é impressionante: 16 restaurantes, praticamente todos no Oise (95), mas também dois em Amiens e um em Cambrai, cerca de 130 a 150 colaboradores, e dois novos restaurantes previstos para 2026.
Mas António Ramos de Pinho insiste que o segredo não está nos números. “A genética da empresa é artesanal”, explica. “Cada restaurante tem autonomia, mas todos seguem um processo de formação e acompanhamento muito próximo. Há uma identidade comum, uma proximidade familiar que nunca quisemos perder.”
Essa proximidade não é apenas metafórica. A Lusitália é, literalmente, um negócio de família. António Ramos de Pinho fala dos filhos com orgulho. A filha, Andréa, foi comercial no ramo automóvel até há pouco mais de um ano, antes de integrar a estrutura de desenvolvimento da Lusitália e acompanha agora a qualidade dos restaurantes. O filho, Marco, trabalha no maior restaurante do grupo e prepara-se para assumir funções de gerência num outro estabelecimento. “Tenho cunhados, primos, sobrinhos a trabalhar connosco e a gerir pizzarias… costumo dizer que nasceram todos na farinha”, brinca.
Andréa Ramos confirma essa dimensão familiar: “Para mim, a Lusitália é um universo familiar. Cresci a ouvir falar disto e agora trabalho com o meu pai. A minha missão é garantir que a imagem do grupo brilha através da qualidade dos pratos e da limpeza dos restaurantes”.
É ela quem acompanha as equipas, visita as lojas, gere fornecedores e assegura que a marca mantém coerência – especialmente no modelo de franchising, que se tornou uma das forças do grupo. “Acompanhamos cada abertura durante um mês inteiro. Depois, voltamos várias vezes por ano. Sozinho, um gerente não tem a mesma força que quando faz parte de um grupo de 16”.
A Lusitália nasceu de uma parceria luso-italiana, e essa mistura continua a marcar a identidade da marca. “Somos dois povos muito semelhantes”, confessa António Ramos de Pinho. “A família, o trabalho, a coragem, a lealdade… partilhamos muitos valores”.
Mas havia um desafio: como conciliar a cozinha italiana com as raízes portuguesas do fundador? A resposta veio naturalmente. Há duas semanas, António Ramos de Pinho e a equipa participaram num campeonato mundial de pizzaiolos em Itália. Um dos concorrentes era o filho, Marco, que apresentou uma pizza com salpicão português, queijo da serra e marmelada – uma espécie de “Romeu e Julieta” reinventado. “Teve muito sucesso”, conta António Ramos de Pinho, orgulhoso.
E nas sobremesas, o toque português é obrigatório: “Temos sempre o nosso pastel de nata, que é embaixador de Portugal”.
António Ramos de Pinho assume trabalhar com produtores locais. Tem uma farinha com a sua própria marca, comprada a produtores locais, a quem também compra mel e até a cerveja vendida nas pizzarias vêm de um “brasseur” local, com personalização especial para a Lusitália.
A relação com Portugal também permanece central. “Tenho muito orgulho de ser português”, afirma António Ramos de Pinho. “Costumo dizer que, em França, somos embaixadores de Portugal, e em Portugal somos um pouco embaixadores da França”.
Andréa Ramos partilha esse sentimento: “Temos muitos portugueses no grupo e isso deixa-me muito orgulhosa. É uma forma de mostrar Portugal, mesmo que seja em pequena escala”.
Durante grandes eventos, como o Mundial de Futebol, a Lusitália cria receitas especiais para homenagear a Seleção portuguesa. “É sempre uma honra mostrar o nosso país”, diz Andréa Ramos ao LusoJornal.
A rotina de António Ramos de Pinho é intensa: “É levantar cedo e deitar tarde” diz a sorrir. Entre o escritório – onde se concentram marketing, contabilidade, finanças e até um atelier de produção de sobremesas – e os vários restaurantes, o fundador continua presente em todas as frentes, percorrendo milhares de quilómetros por ano. “É uma função de acompanhamento constante. E ainda tenho um restaurante que estou a gerir diretamente”.
Ambicioso, mas realista, António Ramos de Pinho não esconde que o grupo pode chegar aos 25 ou 30 restaurantes. Mas recusa crescer a qualquer preço. “A parte humana conta mais do que a financeira. Só abrimos com pessoas que partilham os nossos valores”.
Num setor cada vez mais competitivo, a Lusitália aposta na autenticidade, na formação e na força da família – no sentido literal e figurado. Alguns dos restaurantes já têm um dispositivo de confeção automática das pizzas “para quem queira uma pizza fora de horas. Chega aqui, escolhe a pizza que quer, compra e leva para casa”.
Mais de 20.000 Pizzas são vendidas, por ano, nos distribuidores automáticos, mas nos restaurantes vendem-se mais de um milhão. Os números falam por si próprios: 200 toneladas de farinha por ano, 150 toneladas de mozarela e… 800 mil quilómetros percorridos anualmente para entregas a domicílio.
A Lusitália é mais do que uma rede de pizzarias. É a história de um português que chegou criança a França e que, com trabalho, visão e espírito comunitário, construiu uma marca que hoje emprega dezenas de pessoas e mantém viva a ligação entre culturas.
É também a história de uma segunda geração – representada por Andréa e por Marco – que dá continuidade ao projeto, mantendo o ADN familiar e reforçando a presença portuguesa no norte de França.
E é, sobretudo, um exemplo de como a emigração portuguesa continua a escrever capítulos de sucesso, muitas vezes silenciosos, mas profundamente marcantes, no tecido económico e social francês.







