Escrever um romance inspirado nos acontecimentos marcantes de uma vida, nas pessoas extraordinárias que nos acompanharam ou nos fizeram parar para apreciar um momento especial, é muito mais do que um simples exercício de memória. É um trabalho de reconstrução emocional, de respeito pelas pessoas e pelos lugares que deixaram uma marca profunda na nossa existência.
Em cada palavra, em cada expressão, é necessário encontrar o tom justo para transmitir ao leitor a verdadeira dimensão daqueles que nos inspiraram: a sua personalidade, as suas qualidades, as suas fragilidades e toda a riqueza humana que, aos nossos olhos, transportavam.
Hoje gostaria de prestar homenagem a uma das heroínas do meu romance “D’Amarante a Valparaíso”. Chama-se Conceição Abreu.
Foi a minha professora da última classe do ensino primário, ainda em Portugal. Teria pouco mais de vinte e três anos naquela época. Apesar da passagem do tempo, conservei sempre a sua imagem num lugar especial da minha memória e do meu coração.
Quando comecei a esboçar o romance “D’Amarante a Valparaíso”, não tive qualquer dúvida: ela merecia um capítulo inteiro e um lugar de destaque entre as personagens que marcaram a minha vida.
Há alguns anos, uma prima que vive perto dela falou-me da sua situação:
– Sabes, ela continua viva, muito ativa e sempre elegante.
– Dizem até que utiliza as redes sociais!
Não foi preciso mais nada para despertar a minha curiosidade. Decidi procurá-la e encontrei-a.
No início, ela pensou tratar-se de uma brincadeira ou de um engano. Mas, pouco a pouco, compreendeu a minha necessidade de reencontrar uma pessoa que tinha desempenhado um papel tão importante na minha infância.
Começámos a trocar mensagens. Enviei-lhe alguns textos escritos em francês. Apesar de não dominar totalmente a língua, fez o esforço de os compreender para me encorajar.
Um dia disse-me:
– Escreve um livro… e escreve-o em português.
Sorri. Antes de o escrever em português, tinha primeiro de o escrever em francês.

À medida que o projeto avançava, fui partilhando com ela sobre o progresso do meu trabakhitrabalho.
Graças aos seus conhecimentos da língua francesa e à ajuda das ferramentas de tradução, acompanhou cada etapa, incentivando-me constantemente a continuar.
Em junho de 2025, tivemos finalmente a oportunidade de nos reencontrar.
Pouco tempo antes, tinha sofrido uma queda grave que a obrigara a uma hospitalização prolongada. Recuperara admiravelmente, mas ambos tínhamos sentido um mesmo medo. Ela pela sua saúde; eu pela possibilidade de não a voltar a ver antes da publicação do romance.
Quando nos encontrámos, abraçámo-nos com uma emoção difícil de descrever. A minha esposa, testemunha desse momento, compreendeu perfeitamente o significado daquele reencontro, sem qualquer ciúme.
A professora Conceição tinha-se preparado cuidadosamente para a visita. Mantinha a sua elegância de sempre e o mesmo sorriso acolhedor que eu guardava na memória.
Conversámos durante horas. Falámos do passado, do presente e dos sonhos ainda por concretizar.
Antes de partir, fiz-lhe uma promessa:
– Dentro de um ano, o romance estará terminado.
Cumpri essa promessa. Fi-lo por mim, mas também por ela.
Porque a vida é imprevisível. Um acidente, uma doença ou um simples acaso podem interromper os projetos mais desejados. Não queria correr o risco de deixar esta história por concluir.
Há cerca de um mês, telefonei-lhe para lhe dar a notícia que ambos esperávamos:
– Está feito. O nosso bebé acabou de nascer.
Do outro lado da linha, respondeu com ternura:
– Como o bebé do capítulo dois… mas desta vez é de verdade?
Nos últimos dias, um casal de amigos anunciou-me que iria passar férias em Portugal. Vi imediatamente uma oportunidade maravilhosa.

Como estava ocupado com as primeiras sessões de autógrafos na região da Bourgogne, pedi-lhes que levassem um exemplar do meu livro à professora Conceição, acompanhado de uma dedicatória especial e de um abraço em meu nome.
Os meus amigos puderam testemunhar por si próprios a força dos laços que continuam a unir uma professora e um antigo aluno, décadas depois de se terem conhecido.
Hoje, quero deixar-lhe publicamente um abraço cheio de gratidão e carinho.
Obrigado, querida professora Conceição Abreu, por tudo o que me ensinou, por tudo o que representou e por continuar a fazer parte desta aventura humana e literária.
Desejo-lhe muitos e felizes anos de vida.
Um abraço muito forte para a minha querida professora Conceição Abreu.
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Manuel Maia Teixeira
Autor do romance “D’Amarante a Valparaíso”






