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A historiadora brasileira Natália Guerellus acaba de lançar “Le vestibule de l’impossible” (Editora le Poisson Volant), uma obra que pretende analisar o percurso político e literário da escritora açoriana Natália Correia (1923/1993), cuja carreira teve um forte impacto ao longo do regime fascista português, principalmente no pós-guerra, e durante a primeira década da Democracia, tendo sido eleita à Assembleia da República pelo PSD, primeiro, e pelo PRD, depois.

Depois de se instalar em França em 2015, Guerellus, leitora de português na Universidade de Nanterre, cruzou-se com a figura de Natália Correia em 2016, nela encontrando um objeto de estudo que poderia vir no seguimento do trabalho já efetuado por si no Brasil, onde estudou o percurso de Rachel de Queiroz, escritora e primeira mulher – que se dizia “antifeminista”, chavão que, aos olhos modernos de hoje, que consideram o feminismo uma simples luta pela absoluta igualdade entre o homem e a mulher, se aproxima de um absurdo contrassenso – a entrar na Academia de Letras Brasileira.

Guerellus encontrou em Natália Correia uma “veia libertária apaixonante” que, tal como Rachel Queiroz, “não era feminista nem comunista”.

Analisada sobre os prismas do género, da literatura e da política, a vida de Natália foi, como se pode constatar ao longo da obra, complexa e, por vezes, algo contraditória.

Se, por um lado, ela não se considerava feminista, são claras na sua obra e na sua ação política (e até nos “escândalos” da vida privada: ela casou quatro vezes e circulava pelo meio homossexual da elite lisboeta da época) “as justas aspirações da emancipação do universo feminino”, segundo as palavras de José Eduardo Franco que prefaciou a obra.

Ficou célebre o seu poema de 1982 – “Ficou capado o Morgado” -, dito em pleno Parlamento durante uma discussão sobre a IVG, como resposta a um Deputado do CDS, João Morgado, que afirmara que “o ato sexual é para ter filhos”. Ora esta atitude, ao escrever um poema amplamente político, contraria a sua posição contra o neorrealismo (ela foi bastante influenciada pelo surrealismo e o misticismo) e toda a literatura implicada politicamente.

Mais estranha é esta sua posição quando sabemos que Natália Correia foi várias vezes vítima da censura fascista.

Esta tripla abordagem da vida de Natália Correia, nas suas aparentes contradições, confirma o importante papel da escritora e poetisa tanto na transformação da literatura portuguesa da segunda metade do século XX, nomeadamente na importância dada ao “feminino”, como na luta (muito diferente da luta de outro tipo de opositores) contra o salazarismo. Uma bela e muito bem-vinda obra em língua francesa que ajudará a desvendar o trabalho e a vida de uma artista complexa.

 

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