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O novo Presidente da Academia do Bacalhau de Paris (ABP) é Luís Gonçalves e aderiu àquela estrutura de solidariedade há 23 anos, praticamente desde o início da instituição em França. Substituiu o empresário Manuel Soares.

“Integrei a Academia do Bacalhau em 1999, pelas mãos de Joaquim Santos, na época do restaurante Les Jardins de Florence” confirma ao LusoJornal. O Presidente da ABP, na altura era José Jesus Pereira, Chanceler da Embaixada de Portugal em Paris. “Éramos muito pouquinhos, éramos uns 20 ou 30 e só os Compadres eram autorizados a usufruir da Academia. As mulheres não podiam participar. Não havia nada de ilegal, nem de imoral, nada disso, mas os estatutos da Academia-mãe diziam que as Comadres só podiam participar na Academia nos jantares de gala”. Entretanto esta regra mudou e a instituição é aberta a todos.

Depois de José Jesus Pereira, já foram Presidentes da Academia do Bacalhau de Paris Luís Malta, David Monteiro, António Fernandes, Carlos Ferreira, Fernando Lopes, Manuel Soares e agora Luís Gonçalves.

“Eu sempre fui um Compadre muito ativo. Muitos até diziam que eu era muito rigoroso, porque era rigoroso com tudo” confessa Luís Gonçalves, reconhecendo, no entanto, que cada Presidente “acrescentou uma pedrinha, que faz com que a Academia chegue ao que é hoje, uma instituição reconhecida, não só em França, mas também em Portugal. Inclusivamente, o Presidente da República reconheceu a nossa Academia como uma instituição de utilidade pública. Como vê, nós não somos uma associação qualquer, sem desprezar as outras associações”.

Numa entrevista ao LusoJornal, Luís Gonçalves lembrou que esteve na iniciativa da “legalização” da Academia do Bacalhau de Paris, na Presidência de Luís Malta. Até 2006 era um grupo informal. “Quando eu ouvi a capacidade que a Academia tinha de distribuir o que nós angariávamos com os nossos jantares, pedi que a Academia fosse legalizada sobre a forma de associação sem fins lucrativos, regida pela Lei de 1901. O acolhimento feito à minha proposta não foi lá muito bom, muitos diziam que isto devia ficar entre nós e não queriam coisas muito oficiais”.

Mas a associação acabou mesmo por ser oficializada, os estatutos foram escritos por David Monteiro, que depois assumiu a Presidência. “Em 2008 foi então legalizada a estrutura e eu fiz parte da primeira Direção”. Na altura integraram também a Direção, para além de David Monteiro e Luís Gonçalves, José Roxo Bemposta e António Amorim.

 

Uma rede mundial

As Academias do Bacalhau nasceram na ‘Africa do Sul, inicialmente também com um grupo informal e tem hoje 59 delegação espalhadas pelo mundo com três pilares essenciais: a solidariedade, a amizade e a portugalidade. Todas as Academias recolhem fundos durante um jantar, essencialmente à volta de um prato de bacalhau e depois distribuem os fundos por causas sociais e humanitárias.

Luís Gonçalves destacou o trabalho de Durval Marques, recentemente falecido, para promover a rede internacional das Academias do Bacalhau, e salientou o facto da Academia organizar todos os anos um Congresso mundial das Academias do Bacalhau, que também já teve lugar em Paris, em 2010, durante a Presidência de David Monteiro. O próximo Congresso vai ter lugar nos Açores, em finais de outubro.

Para além da Academia do Bacalhau de Paris, existem também mais três Academias em França: em Rouen, Bordeaux e Lyon.

 

Uma Academia com regras

Nos jantares da Academia do Bacalhau de Paris pode-se falar de tudo, salvo de política, de clubes e de religião. “Isto não é ditadura nenhuma em que se proíbe de falar, mas você sabe que na política, quando se começa a falar de opiniões de um partido ou do outro… pode haver zangas, assim como no futebol, e para evitar essas coisas, é por isso que nós dissemos que não se fala nem de política, nem de religião, nem de futebol” explica Luís Gonçalves, mesmo se o novo Presidente foi confrontado com o facto de participarem regularmente nos jantares da Academia, alguns políticos. “Eles não falam de política. Eles tentam sempre falar, tentam sempre dizer uma coisinha que lhes agrada, mas a verdade é que muitos políticos fazem parte da Academia, são Compadres e quando estão connosco, não é o Senhor Secretário de Estado, não é o Senhor Deputado, mas é o Compadre”.

“Uma vez, o então Secretário de Estado José Luís Carneiro [agora Ministro da Administração Interna] veio a um jantar e eu tratei-o por tu, chamei-lhe Compadre e apliquei lhe uma multa de 5 euros por ele ter chegado atrasado” conta Luís Gonçalves.

Os jantares da Academia do Bacalhau têm as suas regras e os seus rituais. E um deles é o “Carrasco”, que tanto pode pôr multas a quem chegar atraso, como a quem não tiver gravata ou a quem não falar português.

Todos os participantes pagam 50 euros pelo jantar, geralmente com um prato de bacalhau. Luís Gonçalves contraria a ideia de que os jantares da ABP “são apenas para quem tenha dinheiro”. Mas acrescenta que “o nosso objetivo é angariar fundos. Se vamos convidar pessoas de uma classe social que já conta o dinheiro no princípio do mês, não são esses que vão poder contribuir para depois darmos apoio àqueles que precisam. É por isso que nós solicitamos políticos, entidades bancárias… temos que ter patrocínios… Nós não vendemos produtos, os nossos rendimentos são a participação dos nossos jantares e as doações dos patrocinadores”.

 

Milhares de euros de apoio

A Academia do Bacalhau de Paris já deu milhares de euros de apoio para causas sociais. “Nós temos uma Comissão que se reúne para atribuir os apoios. Não damos a toda a gente que nos solicita, temos de ter regras” explica.

“Ainda em dezembro atribuímos mais de 50.000 euros a diferentes instituições”. A ABP apoiou uma instituição em São Tomé, e ofereceu um carro adaptado à jovem Joana, de Viana do Castelo, que já antes tinha recebido uma cadeira de rodas, também adaptada à sua deficiência, graças ao apoio da empresa Les Dauphins, de Mapril Batista, fabricante de ambulâncias.

Luís Gonçalves quer que cada jantar tenha uma causa “para que as pessoas saibam logo no jantar, porque razão estão ali” diz o novo Presidente. E também queria que a associação voltasse a atribuir uma Bolsa de Estudo, em colaboração com a Embaixada de Portugal em França, como já fez pelo passado.

Os projetos habituais da Academia vão continuar, como por exemplo a recolha anual de roupa para dar a instituições, tanto em Portugal como em França. “Eu não quero deixar marcas enquanto Luís Gonçalves. Eu gostava que a Academia deixasse marcas no futuro. E que outros venham depois de mim, continuar o que eu estou a fazer”.

O próximo jantar-tertúlia da Academia do Bacalhau de Paris vai ter lugar no dia 19 de maio, em Pierrelay, no restaurante Chique.

A Academia inaugurou recentemente a sua sede social, nas antigas instalações da Associação Portuguesa de Paris 12, na rue François Truffaut, junto ao Village Bercy. “Abrir uma sede era algo que todos os Presidentes sonhavam” confirma Luís Gonçalves. A inauguração teve lugar no dia 19 de março, na presença do Embaixador de Portugal em Paris, Jorge Torres Pereira, e ainda na presidência de Manuel Soares.

“Serve para fazemos as nossas reuniões, podemos fazer eventos mais pequenos, porque a capacidade da sala não vai além de 30 a 40 pessoas. Mas é um orgulho para nós, Compadres e Comadres, termos a nossa própria sede”.

Ver a entrevista AQUI.

 

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