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Nem só de armas viviam os soldados portugueses na Primeira Guerra Mundial, houve quem tivesse levado o cavalete de pintura e travasse uma outra batalha: a de «salvar» as imagens dos homens das trincheiras e o lado menos heroico da guerra.

Adriano de Sousa Lopes (1879-1944) foi o pintor oficial do Corpo Expedicionário Português, depois de ter pedido ao Ministro da Guerra para o enviar para a frente da Flandres francesa, tendo realizado nas trincheiras desenhos, gravuras a água-forte e, aparentemente, telas.

«Não há dúvida que ele pintava nas trincheiras. Alguns relatos de combatentes indicam que Sousa Lopes montava o cavalete nas trincheiras e pintava com a maior das calmas com as bombas a explodirem por perto. Numa entrevista, ele conta um episódio em que estava com o Capitão Américo Olavo e ambos são detetados pelo inimigo e têm que fugir da artilharia», referiu Carlos Silveira, cuja tese de doutoramento se intitulou «Adriano de Sousa Lopes – Um Pintor na Grande Guerra».

Adriano de Sousa Lopes chegou ao setor português no norte de França em setembro de 1917 e, apesar de um período inicial de grande frustração por não estar na primeira linha, acabou por conseguir ir para as trincheiras e ser homenageado com um «bacalhau à Sousa Lopes», descrito em «Memórias da Grande Guerra» de Jaime Cortesão.

«Ele convivia com todos os oficiais que eram escritores e pessoas da cultura, como Jaime Cortesão, Augusto Casimiro, André Brun, Hernâni Cidade. Eles combinam fazer um almoço de homenagem àquele pintor que se tinha voluntariado para estar junto dos soldados – o que era uma coisa invulgar na época – e confecionam um bacalhau que denominam ‘Bacalhau à Sousa Lopes’, com ingredientes que encontraram na frente», contou Carlos Silveira.

No entanto, os primeiros tempos na frente não foram fáceis porque «os oficiais do Estado-Maior e os oficiais do quartel-general não percebiam muito bem a função dele e ele era arregimentado para outras funções que não a pintura oficial», acrescentou o investigador, lembrando que às vezes o pintor era confundido com o oficial do serviço postal e outras com o Capelão militar.

A vontade de ir para a batalha foi despertada logo no início da guerra porque o pintor vivia em Paris desde 1903 – chegando a expor com regularidade no «Salon de Paris» e no Grand Palais – e viu muitos dos companheiros do mundo da arte a alistarem-se no exército.

Nessa altura, Adriano de Sousa Lopes era desconhecido no meio artístico português, mas depois do sucesso da primeira exposição individual em Lisboa, em 1917, pediu ao Ministro da Guerra que o enviasse para a frente como oficial-artista, à imagem do que já tinha feito a França ao contratar artistas de guerra.

Depois da guerra, o Governo encomendou-lhe uma série de pinturas monumentais que hoje decoram as salas da Grande Guerra do Museu Militar de Lisboa, como «A Rendição» que «mostra bem a degradação humana que era aquela guerra».

«Vê-se um pelotão a sair das trincheiras, as figuras são pintadas ao tamanho natural, vê-se a exaustão e o abatimento psicológico que era estar uma semana ou mais quase sem dormir naquelas trincheiras», descreveu Carlos Silveira.

Ainda no Museu militar, pode ver-se «Remuniciamento de Artilharia» que foi apresentado apenas em 1932 e tem «uma visão diferente dos que ele tinha conseguido dez anos antes, sendo o mais sombrio, o mais apocalíptico, com uma visão mais distanciada e mais crítica do conflito».

Dividido entre França e Portugal, Adriano de Sousa Lopes regressou ao país-natal em 1927 para uma grande exposição e foi, depois, nomeado para suceder a Columbano Bordalo Pinheiro na direção do Museu Nacional de Arte Contemporânea.

A história portuguesa voltaria a estar nas suas mãos quando foi convidado para executar pinturas a fresco para o Salão Nobre do Palácio de São Bento, «mas só consegue terminar o primeiro painel relativo ao Infante D. Henrique» porque morre em 1944, precisou Carlos Silveira.

Entre julho e novembro de 2015, o Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado apresentou a primeira exposição monográfica do artista intitulada «Sousa Lopes 1879-1944. Efeitos de luz», com cerca de 100 obras, incluindo três quadros pertencentes ao Musée de l’Armée de Paris, numa exposição comissariada por Carlos Silveira e Maria de Aires Silveira.

 

 

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