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António Caetano: Poeta popular e militante anti-fascista homenageado em Paris

LusoJornal / Dominique Stoenesco LusoJornal / Dominique Stoenesco LusoJornal / Dominique Stoenesco LusoJornal / Dominique Stoenesco Memória Viva

O Círculo Cultural Álvaro Cunhal organizou este domingo, no Consulado Geral de Portugal em Paris, uma homenagem ao poeta popular e militante anti-fascista António da Silva Caetano, natural de Baleizão, durante muitos anos emigrado em França, e que faleceu em setembro de 2015.

O público encheu o Salão Eça de Queirós do Consulado português, primeiro para uma evocação da vida do homenageado, depois para um recital de poesia. Foram ainda projetadas algumas imagens de uma entrevista filmada pela associação Memória Viva, e tudo acabou com um concerto do cantautor Pedro Fidalgo.

A iniciativa deve-se a Raul Lopes, o Presidente do Círculo Cultural Álvaro Cunhal, que teve alguns problemas de saúde e não conseguiu inaugurar na mesma data uma exposição com os principais eventos da vida do poeta e sobretudo do militante anti-fascista. «Lamento imenso, sobretudo para a família que veio de longe, mas fica aqui a promessa solene que a exposição vai ter lugar noutra data» disse na sua intervenção.

«Ele era filho de camponeses sem terra e começou a trabalhar cedo» diz Raul Lopes. «Depressa adquiriu uma consciência social e política. Reconheceu que ele e os seus companheiros estavam a ser miseravelmente explorados pelos agrários que viviam em Lisboa e que só vinham ali de tempos em tempos».

«Com 21 anos participou nas movimentações camponesas, que era uma reivindicação do Partido Comunista Português e do MUD Juvenil» explica o organizador do evento ao LusoJornal. «O PCP editava na época um jornal que se chamava ‘O Camponês’, que reivindicava um aumento salarial significativo para os homens e um outro aumento para as mulheres. Infelizmente era um tempo em que havia uma diferenciação salarial entre homens e mulheres».

António Caetano era de Baleizão, colega de Catarina Eufémia. Estava aliás com ela quando foi barbaramente assassinada pelo Tenente Carrajola, em abril de 1954, que alegou um tiro acidental. «Mas não foi. Matou-a friamente à queima-roupa» disse Raul Lopes ao LusoJornal. «Lutavam por melhores condições de vida. António Caetano foi um lutador pela liberdade».

Catarina Eufémia era «quatro ou cinco anos» mais velha do que António Caetano, mas quem também lá estava foi Mariana Caetano, a irmã mais nova do homenageado, também presente no Consulado de Paris. «Eu estava lá quando mataram a Catarina, claro. Só não estava mais à frente porque só deixaram passar umas tantas pessoas e eu não passei, mas se deixassem passar, estava lá na frente, claro» conta.

Três meses depois do assassinato de Catarina Eufémia, António Caetano foi preso pela GNR de Baleizão e entregue à PIDE. Foi para a cadeia de Aljube, onde ficou num autêntico cubículo. «António Caetano ficou lá durante três meses, no mais completo isolamento. E durante esses três meses, submetido a brutais interrogatórios, nunca falou, nunca denunciou ninguém» diz Raul Lopes. «Foi nessas condições, que começou a ganhar as qualidades que fizeram com que ele decorasse os poemas. Muitas vezes ele nem os escrevia».

Quando o levaram, foram momentos tristes para a família. «Ele sempre foi um rapaz educado, um bom filho, um bom irmão, e as pessoas perguntavam, porque foi preso?» conta a irmã Mariana.

Na cadeia, António Caetano escreveu o poema «Não sou ladrão», frase que repetia várias vezes. Ricardo José leu aliás este poema.

«Eu sabia porque razão ele foi preso. Ele tinha-me dito uma vez que se fosse preso eu devia ir levar uns papeis que tinha em casa a uma outra pessoa, mas essa pessoa não os aceitou. Então decidi enterrá-los debaixo de uma laranjeira» conta Mariana Caetano. «A polícia revistou a casa toda e eu atrás deles, para ver. Eles disseram que sabiam que os papeis estavam enterrados e eu disse-lhes: ‘ai é? então se sabem, vão à procura deles. Mas não lhes disse nada».

Ao fim de 6 meses, António Caetano foi libertado. Mas rumou depois para Lisboa. Relatórios da GNR recentemente tornados públicos davam-no como «ativista» seis anos depois da morte de Catarina Eufémia.

Aproveitou a passagem do ano para passar a fronteira para França, com a mulher e com os dois filhos mais velhos.

«Eu conheci-o como pai, como avô das minhas filhas. Sei que ele era muito investido, participava em muitas reuniões, sempre lutou pela liberdade, militou no Partido Comunista Português, mas eu não sabia muito da vida dele. Quando estava em casa era o pai e depois o avô que brincava com as netas» comenta a filha ao LusoJornal, confirmando que dizia muita poesia em casa. «Por vezes coisas pequenas, fazia sempre versos, estava sempre a brincar com as netas, era muito alegre» disse com emoção.

A neta, Tânia, leu o primeiro poema da autoria do avô. «Ainda temos uns 15 poemas inéditos lá em casa» disse ao LusoJornal a filha.

Lurdes Loureiro, Cristina Semblano, Joaquim Alexandrino, Olga Diegues, Francisca Rufino (que leu poemas de António Topa), Agostinha Hilário e Alice Machado leram poemas. «Ele havia de gostar desta homenagem» disse a irmã. «Pena não ter sido mais cedo, enquanto ele fosse vivo. Assim não está cá para ver. Mas estou eu» disse entrevistada pelo LusoJornal.

Foi o jornalista Ricardo José, da Rádio Alfa, quem leu os poemas de António Caetano. Fê-lo com energia, lembrou a participação regular do homenageado no programa da Rádio Alfa, «Quimera da Noite», moderado por Ricardo Botas.

«Não se pode apenas homenagear o poeta popular. Temos de perceber também o contexto social e político que fez dele o poeta popular com aquela clarividência que sabemos» disse Raul Lopes.

O Círculo Cultural Álvaro Cunhal é uma associação política – «porque evoca o nome de um político», criada por 60 pessoas em 2013, intelectuais, operários, artistas, jornalistas, que quiseram, mesmo não sendo Comunistas, associar-se, para celebrar o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, para divulgar a vida e a obra do líder incontestável do PCP.

 

 

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