Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

É funcionária da Sucursal de França da Caixa Geral de Depósitos e até é delegada sindical da CFDT, mas todos os dias, ao fim da tarde e aos fins de semana, troca as finanças pelos ateliers de pintura. Gosta de pintura desde que se lembra, mas foi no ano 2000 que decidiu enveredar mais profundamente pela arte.

Carmen Camp nasceu em Santo Tirso, em agosto de 1959, mas chegou a França em 1965 com a mãe e os irmãos. “O meu pai emigrou um ano antes, mas já estava cansado de estar sozinho e fez vir toda a família” conta numa entrevista ao LusoJornal.

Carmen Camp fez toda a escolaridade em França e terminou com um Mestrado em Literatura que concluiu na Sorbonne, em Paris. “A literatura também me ajuda na pintura, porque há muitas referências literárias ligadas à pintura” conta.

A paixão pela pintura chega-lhe através “do meu amor pela natureza, pelas flores, pelas paisagens, pelo mar, pelos passarinhos, pelo jardim,… esta ideia de me isolar de tudo, esta vontade de liberdade de pensar e de estar frente a mim própria. É como uma análise pessoal” conta.

O jardim da casa onde mora, bastantes quilómetros a sul de Paris, comprova precisamente dessa dedicação à natureza.

Mas em 2000, um momento difícil da vida, quando lhe faleceu o pai, fez com que essa vontade de ficar sozinha fosse ainda maior. Queria mostrar que “a vida continua a ser bela” e transformou uma parte da casa num atelier de pintura,… no seu atelier de pintura. “Este é o meu espaço. Aqui estou segura, estou livre” conta ao LusoJornal.

É neste espaço que passa horas sem fim, ao fim da tarde, à noite, aos fins de semana,… todos os pretextos são bons para pintar. “A pintura é uma paixão, é uma respiração para sair precisamente das finanças. É muito agradável. Faz-me muito bem”. E acrescenta que “para mim, a pintura é uma vontade de exprimir uma realidade pictural de forma diferente. Uma vontade de liberdade, de expressão única, que é a minha, que eu transcrevo na minha pintura e uma vontade de viver um pouco isolada e fora do mundo”.

Mas garante que não é uma pessoa fechada, nem introvertida. “Gosto muito de dançar, de cantar, dou-me bem com as pessoas, mas é verdade que também gosto muito de estar um bocadinho na calma, sozinha, sem ninguém,… é bonito”.

Trabalhou cerca de 10 anos num atelier do Mestre René Ricaille, um “artista livre” como ele próprio se definia. Era ilustrador, fazia pintura, desenho, gravura, litografia,… com ele aprendeu várias técnicas. “Depois continuei com vários pintores e atualmente estou num atelier com o Mestre Marc Kapko, que é um filósofo muito interessante, que tem um método de estudo da pintura relacionada com a filosofia e as grandes ideias filosóficas contemporâneas, o que me permite abordar temas mais intelectuais, que não poderia talvez abordar sozinha”. Marc Kapko é francês de origem ucraniana e Carmen Camp explica que “a técnica está muito ligada com os temas que se vai pintar”.

A pintora explica que “da figuração enigmática, vou entrando devagarinho na metáfora, na alienação da narrativa. Da simples figuração vou passar para a emoção, a sensibilização, vou encenar elementos exteriores à figuração que vêm chocar, sugerir ou provocar a abordagem diferente do que estou a pintar. Isso é o que me está a interessar atualmente. Vou partir para um espaço desconhecido, até onde… nunca sei…”

Evocando o trabalho pictural de Carmen Camp, o professor Marc Kapko diz que “trata-se efetivamente de uma relação com a metáfora na teatralização da qual, a encenação intervém como enigma da história silenciosa”. É uma pintura num estilo semi-figurativo, e até surrealista.

“Eu vou sempre tentando, a partir da figuração, das imagens que encontro, incluir uma parte enigmática naquilo que pinto. Quer dizer que vou tentar confrontar a realidade, as imagens verdadeiras, vou tentar criar uma metáfora e dar a liberdade a quem estiver a ver os meus quadros, de ter uma interpretação livre e pessoal. Vou participar com a minha personalidade, com a minha pintura, numa representação, mas permitir quem está a ver de ter a sua própria interpretação” explica ao LusoJornal Carmen Camp.

A artista utiliza sobretudo o óleo e o acrílico, mas tem trabalhado também com carvão, pastel e até aguarela. “Gosto imenso da aguarela, mas a aguarela é difícil. É uma pintura imediata e eu preciso de um tempo para concretizar aquilo que eu tenho na cabeça e o óleo permite mais esta liberdade de estar, de esperar, de refletir e de pintar. O óleo convém-me melhor”.

Todos os anos, Carmen Camp participa em duas ou três exposições. Algumas individuais, outras em dueto com outra pintora, e por vezes participa em exposições coletivas. Mas diz que o objetivo primeiro não é o de expor nem o de vender. “A minha primeira ideia é de pintar. Pintar para mim. Quando é necessário, mostro, mas a minha vontade primeira é de pintar, não é propriamente para expor ou para vender. Aliás ofereço muitos quadros, sobretudo à minha família”.

Nem todos os quadros que tem são para mostrar. Alguns estão fechados. “Só quando eu sinto que está no momento de mostrar é que mostro. “Quando eu me consigo libertar dessa obra é que eu exponho, senão fica aqui comigo um certo tempo e depois só passando meses ou até anos, é que eu mostro. É como se fosse um filho, é meu. E quando apresento, fico com o sentimento que a obra já não me pertence, que já pertence a outros. Já não é só minha, é de todos. Enquanto que quando ela está aqui ao pé de mim, é só minha” conta numa entrevista ao LusoJornal. “É egoísta, não é?” pergunta a sorrir.

Durante uns anos, foi representada pela galeria de uma amiga que entretanto se mudou para fora da região parisiense. “Uma amiga tinha uma galeria e teve as minhas obras expostas. É complicado porque sentia a ausência daquelas obras. A uma dada altura senti a necessidade de lá ir retirar as pinturas e colocar lá outras. E não foi apenas para mudar – porque é necessário sempre mudar – mas foi também para sentir que elas não tinham fugido, que ainda estavam lá” e acrescenta que “quando vendo uma obra, fico com pena de já não a voltar a ver. É como uma perda, é como se fosse alguém que se fosse embora”. Será sensibilidade feminina? Pergunta a própria artista. “Além de não serem obras de arte excecionais, eu gosto muito daquilo que faço. E dou-me inteiramente àquilo que faço. É para criar uma certa harmonia na minha vida”.

Expôr em Portugal, e muito particularmente em Santo Tirso, é um sonho. “Tenho lá a família, os meus irmãos, sobrinhos, cunhadas, todos os anos vou a Portugal com o meu marido, que é francês, mas gosta muito de Portugal. Gosto imenso de ir lá, é a minha terra. E quando chego lá, chega-me sempre uma lágrima. Este ano não fui e já tenho saudades” diz a sorrir.

Carmen Camp nunca expôs em Portugal. “É um grande sonho meu” confessa. “Estive quase a ir lá um ano expor. Falámos, mas depois passou. Nunca saiu da minha ideia ir lá um dia expor, nem que fossem três ou quatro quadros. Talvez fosse bom para mim”.

Carmen Camp já começou uma coleção de paisagens de Portugal. “Já pintei Lisboa, o Alentejo, o Douro e outras coisas. Já com essa ideia de um dia levar lá os meus quadros. Quem sabe o que nos reserva o futuro?”

Por enquanto a artista vai continuar a frequentar ateliers com nomes conhecidos da pintura francesa, vai continuar a ler, a viajar e a sonhar com uma exposição na terra onde um dia viu a luz.

 

Gostou deste artigo? Vote, participe!
Votação do Leitor 9 Votos
6.1
X