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D. José Cordeiro, Bispo de Bragança e de Miranda, esteve no fim de semana em Paris, a convite do Reitor do Santuário de Nossa Senhora de Fátima de Paris, para participar nas cerimónias evocativas das aparições de 13 de outubro, em Fátima, e para a cerimónia de Crisma de 23 jovens daquele santuário parisiense.

“Uma vez, de visita à Comunidade portuguesa em Villiers-sur-Marne, tive a oportunidade de passar aqui neste Santuário, mas foram apenas uns 5 ou 10 minutos, agora há esta possibilidade de passar estes dias em torno da celebração do 13 de outubro e constato que é uma comunidade viva, é uma presença credível do passado e do presente” disse entrevistado pelo LusoJornal. E evocou o contributo dos Portugueses para a construção do futuro da Comunidade europeia e “desta cidade das luzes”.

D. José Cordeiro diz que aceitou o convite do Reitor Nuno Aurélio “com a maior alegria e gratidão” e aproveitou para “revisitar muitos conterrâneos, porque muitos são oriundos da Diocese de Bragança e Miranda e também da vasta região de Trás-os-Montes. Com todos, mas não em especial com estes, sentimos a alegria da fé, mas também a alegria de Portugal, a alegria do reencontro, da festa, da família, do trabalho juntos, à luz do Evangelho, sentirmo-nos mais pertença e responsáveis na construção do bem comum, na dignidade da pessoa humana, da justiça e da paz”.

Cada um dos 23 jovens que recebeu o Sacramento do Crisma, escreveu antecipadamente a D. José Cordeiro. “Tive a ocasião de ler as cartas que os 23 jovens me dirigiram a dar as razões para a celebração do Sacramento do Crisma e nelas refletem a sua vida, a relação com a família, aqui em Paris e também nos seus lugares em Portugal, onde passam férias e também os lugares de origem dos seus pais e dos seus avós. E isso é muito bonito, porque esta ‘interrelacionalidade’, esta ‘intergeracionalidade’, permite, como o Papa Francisco tem sublinhado tantas vezes, que os mais novos possam profetizar, a fim que os mais velhos consigam sonhar. Parece uma contradição mas não é. Só nesta relação dos mais velhos com os mais novos é que é possível construir uma nova sociedade assente nos valores humanos da família e a fé serve para iluminar este caminho e para dar sentido à vida”.

O Bispo de Bragança e Miranda diz que em grandes metrópoles como Paris, “a igreja é como que uma minoria. O Cristianismo permanece, mas já não existe a cristandade em que o Evangelho iluminava todas as realidades sociais e até inclusive a política, mas é neste sentido de humildade, de discrição, mas de coragem e de alegria, que a nossa presença tem de continuar a ser iluminadora neste mundo”.

D. José Cordeiro veio a Paris com a preocupação da desertificação do Interior do país. “Se nas grandes cidades a pobreza tem multi-facetas e muitas dimensões, sobretudo na variedade das culturas, das línguas, dos modos de ser, de estar,… nas nossas realidades, em Trás-os-Montes e mais concretamente na Diocese de Bragança e Miranda, ela é sobretudo um rosto de solidão, de isolamento daquele interior profundo. Oxalá os políticos e todos aqueles que têm responsabilidade em Portugal e no âmbito da União Europeia, possam estabelecer novas políticas para a fixação de pessoas no interior” disse ao LusoJornal. O território de Bragança é vasto, com 6.600 km2, “mas neste momento não chegamos a 120.000 pessoas e isso é que é alarmante”. O Bispo ilustra que em 2018 morreram na Diocese de Bragança e Miranda 2.070 pessoas “e não nasceram 400”.

“E aqueles que emigraram? É surpreendente porque agora vai o casal com um ou dois filhos. Vão à aventura. Muitos deles têm-me dito que não pensam em regressar, enquanto a anterior emigração estava sempre com um sentido em Portugal, nos terrenos, construíam a casa lá…”

D. José Cordeiro diz mesmo que até aquelas celebrações que se faziam em torno dos emigrantes, como os casamentos no mês de agosto, os batismos, festas, ir aos santuários marianos,… “ainda há muitos, mas há menos”. E completa que “o que se nota na maior parte dos emigrantes, é uma fé quase natural, mas não é uma fé que depois vá acompanhando as outras dimensões da vida. Os emigrantes, em todas as outras dimensões procuraram uma atualização, tentaram encontrar o melhor caminho e até o sentido da plenitude, no trabalho, na profissão, na qualidade de vida, no bem estar, mas a fé ficou aquela fé quase da primeira comunhão, uma fé infantil que depois quando confrontada com o Evangelho, sente algumas resistências e fica mais no âmbito da piedade popular e em alguns casos até da religiosidade natural…”

Mas em Portugal a situação também mudou. “Enquanto há uns anos atrás, ser Transmontano era sinónimo de ser cristão, ser católico, ser religioso, hoje, começa já a não ser assim porque a globalização atinge todos os lugares. O positivo chega, mas o negativo também chega” diz ao LusoJornal. No entanto, a região de Trás-os-Montes “tem ainda uma fé granítica, como no reino maravilhoso onde se situa, naquele mar de pedra, mas tem um coração humano onde as raízes do Evangelho ainda estão, se bem que com uma religiosidade muito superficial e em muitos casos já muito natural e não tanto aprofundada”.

Mesmo a vivência da Igreja católica em Trás os Montes se adaptou à realidade da emigração porque o ano litúrgico já não corre como é o curso oficial da Igreja “se bem que estamos a tentar restaurá-lo e adaptá-lo” mas D. José Cordeiro considera que “quase todas as festas dos Santos padroeiros convergem para o mês de agosto por causa dos emigrantes”.

“No fundo, a fé comunitária, a fé pública, em Trás-os-Montes ainda anda à volta dos irmãos emigrantes, daqueles que tiveram de deixar a sua terra à procura de melhores condições de vida e de realização para si e para os seus filhos” diz D. José Cordeiro. “Eu tenho ouvido testemunhos daqueles que há 30, 50 anos, fizeram essa experiência de emigrar, mas também os testemunhos daqueles de hoje, porque a emigração em Trás-os-Montes, neste momento, é tanta ou mais ainda, do que a dos anos 60, os anos conhecidos como sendo os de maior emigração”.

Numa entrevista mais completa à versão digital do LusoJornal, o Bispo de Bragança e Miranda fala também de outras questões ‘societais’ e diz-se “feliz e alegre” por ter vindo partilhar alguns dias com Portugueses radicados na região de Paris.

 

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