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David Leite, que durante 25 anos foi o Adido cultural da Embaixada de Cabo Verde em França, aposentou-se, mas está retido em Paris por falta de voos de regresso ao país. Numa entrevista “live” ao LusoJornal, disse que lhe faltaram meios para poder fazer a promoção cultural de Cabo Verde, mas conseguiu, apesar de tudo, tirar Cabo Verde do anonimato.

A entrevista foi feita antes da nomeação de Elisabeth Moreno para o cargo de Ministra da Igualdade no Governo francês.

“O Cabo Verde de hoje, em França, não é o mesmo que era há 25 anos, quando cá cheguei. Nessa altura o conhecimento de Cabo Verde era muito rudimentar, limitando-se a Cesária Évora de quem já se falava como uma estrela montante e que continuou a afirmar-se no universo da Word Music” disse David Leite, explicando que “a música foi, sem dúvida nenhuma, o fator primordial para tirar Cabo Verde da penumbra, para tirar Cabo Verde do anonimato”.

David Leite chegou a Paris em 1995, depois de uma reconhecida carreira de jornalista em Cabo Verde. “Antes da música e sobretudo antes da Cesária Évora, os Cabo-verdianos eram muito laboriosos, mas muito discretos, quase não se faziam notar em França até por serem oriundos de um país não francófono, não estavam em pé de igualdade com um Senegalês ou um Maliano, um Tunisino ou um Marroquino, que chegando a França, já tinham uma certa familiaridade com a língua francesa, o que lhes facilitava a integração”.

Logo que chegou à capital francesa, David Leite queria “quebrar esse anonimato, tirar a nossa cultura da penumbra”. Com a Comunidade cabo-verdiana, diz que conseguiu organizar “grandes feitos, grandes eventos”. Explicou ao LusoJornal que há cerca de 50 associações cabo-verdianas em França, mas “andavam muito divididas, cada um no seu canto, mas conseguimos pôr uma Comunidade cabo-verdiana a realizar grandes feitos, grandes eventos” lembrando, por exemplo as “Passeatas” de bicicleta nas ruas de Paris.

 

As Passeatas de bicicleta

As Passeatas de bicicleta levaram as cores de Cabo Verde para as ruas da capital francesa, por ocasião das festividades da independência, “por serem momentos congregadores, momentos federadores da Comunidade, de grande convívio patriótico”.

David Leite conseguiu implicar outras comunidades lusófonas porque considera que “a própria lusofonia anda por aqui muito dispersa”.

A candidatura da Morna a património imaterial da Unesco foi assunto que David Leite também acompanhou, porque a Embaixada de Cabo Verde em Paris é também a representação de Cabo Verde junto da Unesco. “Do ponto de vista puramente administrativo, não me implicou muito, mas eu impliquei-me muito na parte cultural, da promoção e divulgação da candidatura, inclusive com estudos sobre a Morna”.

Porque David Leite considera que a diplomacia cultural é “uma vertente incontornável da diplomacia tout court, sobretudo para países como Cabo Verde com recursos muito limitados, pouco conhecido e que não tem nem guerra civil, nem conflitos que possam fazer falar dele”.

“Cabo Verde não tem petróleo, nem diamantes, nem guerra. O que nos sobra?” questiona o ex-Adido cultural. “Sobra-nos essa cultura que é a nossa para mostrar um país dentro do quadro geopolítico, geocultural que é o nosso, numa África diversa, que vai do norte ao sul, dos Magrebinos até aos Sulafricanos, com diferentes culturas. Eu sou contra essa ideia de mostrar uma África monolítica, como se toda a África fosse igual”.

 

A importância da francofonia

“Desde a primeira hora, a França posicionou-se como um parceiro estratégico para o nosso país, para já do ponto de vista cultural, a França foi um dos primeiros países a oferecer bolsas de estudo em concertação com a Unesco para estudantes cabo-verdianos” diz David Leite ao LusoJornal. “Do ponto de vista da cooperação económica, Cabo Verde foi um parceiro comercial para a França, adquiriu em França os primeiros aviões ATR’s que entraram para a frota da TACV. A França cooperou com Cabo Verde em termos de telecomunicações, a França instalou os primeiros estúdios de rádiodifusão em S. Vicente, a França construiu as famosas galerias subterrâneas que irrigam quase toda a ilha de S. Nicolau,…”.

A relação com a França vem de longa data “porque as primeiras relações são as relações humanas, entre pessoas” diz David Leite ao LusoJornal. A emigração para França começa nos anos 30, “através dos Cabo-verdianos que imigravam para Dacar e do Senegal chegaram até Paris. Com a independência de Dacar em 1960, os Cabo-verdianos continuaram a imigrar para a França e já de maneira mais independente”.

David Leite lembrou também que foi nas indústrias siderúrgicas da Mosele, da região Alsace-Loraine, que foram recrutados vários Cabo-verdianos para a luta armada, no tempo em que Amilcar Cabral quis implicar mais os Cabo-verdianos nesse combate. “Esses Cabo-verdianos da Mosele, que trabalhavam essencialmente nas indústrias siderúrgicas foram mobilizados para a luta armada na Guiné-Bissau”.

Cabo Verde é membro de pleno direito da francofonia desde 1996, até essa data era país com estatuto de membro observador. “Não se trata aí de uma simples questão de posicionamento linguístico, trata-se de uma questão geoestratégica para Cabo Verde. Porque a maior parte dos países que nós temos como vizinhos são países de língua oficial francesa” disse ao LusoJornal. “Nós estamos na CEDEAO [ndr: Comunidade económica dos Estados da África do Oeste] e não nos podemos permitir estar fora, do ponto de vista da língua. Então releva da própria sobrevivência político-diplomática de Cabo Verde na região, adotar o francês como língua de comunicação com o mundo através da CEDEAO”.

Além disso, o francês é, em Cabo Verde, uma língua que vem ganhando novos espaços com o tempo. “A língua de Molière vem se afirmando como uma língua ativa e da qual nós necessitamos como pão para a boca para podermos comunicar com uma boa parte do mundo”.

 

Sem caderno de encargos

Durante os 25 anos que esteve em Paris, David Leite participou em muitas conferências e debates no país. “Entrava nos meus objetivos a título pessoal. Ninguém me pagou, nem ninguém me pediu para dar conferências e animar debates, escrever sobre história ou falar na comunicação social. Eu não vim com um caderno de encargos. Vim para fazer diplomacia cultural, mas dentro dos meus projetos de diplomacia cultural achei que era necessário introduzir essa vertente intelectual, essa vertente literária, de comunicação intelectual, para mostrar um Cabo Verde que não se limitava às danças folclóricas, que não se limitava às músicas do Mundo, que não se limitava a um país com praias para os turistas virem espairecer e apreciar as nossas lindas crioulas, mesmo se faz bem à saúde, mas para mostrar que temos um país com alma e com cultura e a cultura é tanto mais vasta, quanto mais formos capazes de mostrar que ela não se esgota no mero folclore ou seja na cultura popular. Temos uma história rica, uma história em conexão direta com o mundo, temos e tivemos intelectuais de alto gabarito que fizeram com que Cabo Verde seja o país que é hoje, que mexe nas letras, nas artes, em todos os ramos da cultura e era necessário mostrar isso e eu investi então da minha pessoa”.

David Leite diz que “fez dom” da sua pessoa, “para além dos parcos meios que foram postos à minha disposição”.

“Eu estudei todos estes 25 anos para poder apresentar esse Cabo Verde rico da sua história, rico da sua cultura, rico da sua gente e rico das suas realizações, daí as minhas conferências e debate que acabaram por virar uma rotina na minha agenda” disse na entrevista “live” do LusoJornal. “Recebi convites de muitas universidades, de muitas cidades, de eventos associativos, desdobrei-me por toda a França para levar a palavra de Cabo Verde. Eu não quero usar o nome de profeta da sua cultura para não parecer pretensioso, mas é verdade que eu senti-me bem em levar a palavra de Cabo Verde. Foi uma vertente que eu introduzi na minha agenda para poder fazer omeletes sem ovos. Juntamente com a Comunidade cabo-verdiana, nós fizemos grandes omeletes sem ovos, com a boa vontade das pessoas, com um espírito patriota dos Cabo-verdianos, com a boa vontade dos Cabo-verdianos em cooperarem com a Embaixada e com os meios que eles próprios acabaram por pôr à nossa disposição para juntamente com os meios que a Embaixada tinha, podemos fazer esse trabalho de promoção cultural”.

David Leite diz que lhe faltaram meios. “Mas faltou também orientação. Quando eu fui aqui colocado, ninguém me orientou, ninguém me disse o que devia fazer, mas deram-me toda a latitude, toda a confiança e estímulo para eu fazer o meu trabalho. Eu não poderia desdobrar-me por toda a França se não tivesse tido o apoio da minha hierarquia”.

David Leite vai agora regressar a Cabo Verde, quando conseguir voo, e espera continuar ligado a projetos culturais ou de comunicação em Cabo Verde. Mas diz que leva Paris “no coração”.

 

 

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