Canção de Dan Inger em homenagem aos Soldados portugueses da Grande Guerra

O autor, compositor e intérprete Dan Inger dos Santos acaba de compôr uma nova canção em memória dos Soldados portugueses do Corpo Expedicionário Português que combateu em França durante a I Guerra Mundial.

«Ainda há bem pouco tempo eu desconhecia tudo sobre a particiação dos Portugueses na I Guerra Mundial. Fui tomando conhecimento através dos artigos publicados pelo LusoJornal» explica o cantor

Há duas semanas Dan Inger dos Santos foi assistir a um Colóquio sobre este assunto na Mairie de Paris 14, organizado pela Delegação de Paris da Liga dos Combatentes e «senti que todos nós podemos fazer qualquer coisa para lembrar que houve 55.000 Portugueses mobilizados para participarem na I Guerra Mundial. É pena que ninguém fale» conta ao LusoJornal. «Que a França esqueça, já me parece grave, mas que Portugal também esqueça, ainda é bem mais grave».

Marie-Hélène Euvrard, a Presidente da Coordenação das coletividades portuguesas de França (CCPF) sugeriu-lhe que escrevesse uma canção e o artista aceitou. Documentou-se e a canção «saiu em poucos dias».

Chama-se «Carte postale de la Lys» e é cantada em francês. «Fala de um soldado que espera uma carta de amor, mas esse amor tanto pode ser uma mulher, como a Pátria. E ele acaba por dizer ‘Nunca me esqueças’. E é essa a principal mensagem que eu quero fazer passar: nunca esquecermos aqueles que combateram durante esta Guerra, em França».

Dan Inger dos Santos foi militar no 153° Regimento de Infantaria, em Mutzig, na Alsácia. «Documentei-me muito para escrever esta canção, mas também me imaginei, com a minha farda e as minhas botas, mesmo se não participei na guerra. Mas imaginei o quanto foi difícil para os Soldados portugueses estarem na frente do conflito» contou ao LusoJornal.

 

O lusodescendente que canta “Fado Blues”

Daniel dos Santos é conhecido no meio musical como Dan Inger e tem levado o «Fado Blues» aos palcos franceses, nos últimos 15 anos, uma herança das suas raízes portuguesas cruzada com a paixão pelo Blues.

O músico, que vai cumprir 30 anos de carreira em 2018, nasceu em Champigny, nos arredores de Paris, há 50 anos, «uma cidade quase portuguesa», e sempre defendeu uma «portugalidade» na sua música.

«Muito antes de o fado estar na moda e de ser Património Mundial da Unesco, como eu não era fadista, explorei o Fado Blues, ou seja, um Blues com um lado cristalino da guitarra portuguesa. É uma ponte entre o que sempre gostei, entre os meus amores da música americana e as minhas raízes portuguesas», descreveu o cantor à Lusa.

A aposta no que também descreve como «Luso Blues» aconteceu ao terceiro disco, «Atlânticoblues» (2002), em que as músicas cantadas em português convidavam a «uma viagem em torno do Atlântico – do blues americano, à morna caboverdiana, passando, um pouco, pelo fado com a guitarra portuguesa».

O sotaque francês, «criticado por algum público franco-português», acabou por ser uma mais-valia junto do público francês atraído pela pronúncia melódica e «hesitante» de um português nascido em França: «No fundo, é o que me distingue dos outros artistas», considerou.

Ainda que só em 2002 tenha editado um disco quase todo em português, no qual se destacavam temas originais como «Casaria», «Solidão Ela e Eu» e «Fado Gaivota», Dan Inger já tinha incluído as suas raízes portuguesas no primeiro e no segundo álbuns.

Em 1996, no disco «Vivre avec Amour», com canções em francês, o tema «Je suis resté» falava «das raízes e da cultura francesa e de uma certa portugalidade franco-lusófona».

Em 1998, em «Au Belvédère (live)», Dan Inger incluiu um tema de Rui Veloso, «Morena de Azul», para mostrar o seu «desejo de ir para algo mais português, não só pelo idioma, mas também pelo modo de ser que corre no sangue».

Em 2007, no quarto disco, chamado «Le Quatrième», o músico também tentou explicar, por exemplo, o que era «o sentimento português de saudade» na canção «La Saudade».

 

20 anos de carreira

Para celebrar os 20 anos do lançamento do primeiro disco, o cantor autoproduziu, no ano passado, o quinto álbum, «20 Ans», que está disponível em plataformas de ‘streaming’ na internet, sendo uma compilação de várias músicas dos discos precedentes, com dois temas inéditos «I’ve never been an Angel» e «Azul (Ainda O Céu)».

O álbum – que assinou como Dan Inger dos Santos para sublinhar o apelido português – conta com um dueto com Rui Veloso, intitulado «Rei do Blues», que foi gravado em 2002, mas só em 2016 Dan Inger teve autorização para o usar, graças à mudança de editora do autor de «Chico Fininho». «Foram muitos anos à espera. No princípio, eu gostava mais de toadas de rock, ouvia os franceses Bill Deraime, Eddy Mitchell, Johnny Hallyday e Paul Personne e o americano Tony Joe White, e quando ouvi, pela primeira vez, o Rui Veloso fiquei logo conquistado pelas letras do Carlos Tê. Fiquei fã», revelou, acrescentando que um dos momentos mais marcantes da sua carreira foi ter cantado ‘Não Há Estrelas no Céu’ com Rui Veloso, em agosto passado, em Cascais.

Na compilação «20 Ans», há também o tema «Noite e Ressaca», em dueto com a artista luso-belga Lio, que foi cantado, nomeadamente, na inauguração de um monumento dedicado à emigração portuguesa em Champigny-sur-Marne, a 11 de junho do ano passado, nas cerimónias comemorativas do Dia de Portugal e na presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do Primeiro-Ministro, António Costa.

Filho de pais emigrantes de Ourém, Dan Inger herdou a paixão materna pela música, teve a primeira guitarra aos 16 anos e aprendeu a tocar «no terreno», ainda que o pai não considerasse a música como «um bom ofício» e preferisse que ele enveredasse pela carpintaria.

Aos 21 anos, depois da tropa, Daniel dos Santos recebeu o primeiro «cachê» e, desde então, tem sido «uma luta dia-a-dia para poder viver da música», uma luta que descreveu no livro «Trois Notes de Blues pour un Fado», lançado no ano passado pela Chiado Editeur e escrito com a escritora Altina Ribeiro.

Para «sobreviver» no mundo da música, Dan Inger é autor, compositor, cantor, produtor, guitarrista, baterista, harmonicista e também criou quatro espetáculos musicais infantis.

O músico alterna a subida aos palcos com dois grupos: o «Atlântico Tour», mais virado para «o fado blues, músicas do mundo e folk», e o «Dan Inger Gang», uma formação «mais mexida e mais pop» composta por metais, participando, ainda, como cantor e baterista noutras bandas de jazz.

 

 

Carte postale de la Lys

Paroles & musique: Daniel dos Santos

(Ozoir-la Ferrière, le jeudi 30 novembre 2017)

 

J’aimerai te faire parvenir

Une carte enflammée

De mots que je ne peux écrire

Car mon sort a censuré

 

Je revois nos nuits d’été

A Lisbonne et Coimbra

Entre amis attablés

Ta douceur dans mes bras

 

Le président Machado

Voit «ses enfants» défiler

Sous cet arc des héros

Aux côtés des Alliés

 

Dans les Flandres et tranchées

Dans nos anglaises tenues

Bombardés et gazés

La relève n’est pas venue.

 

Ne m’oublie pas mon amour

Surtout ne m’oublie pas

Notre départ de Cherbourg

Hélas se fera sans moi

 

Au jardin de la Lys

Je pourrais me reposer

Après l’ultime sacrifice

Mon corps retrouvé.

 

 

A la mémoire des soldats du Corps Expéditionnaire Portugais de la Bataille de La Lys

 

(*) Carlos Pereira, com Lusa

 

 

LusoJornal