Carla Filipe | Hóspede

Carla Filipe analisa memória e identidade europeia na instalação “Hóspede” em Nice

Cultura

 

 

Uma instalação que aborda a identidade dividida dos países europeus, que partilham uma identificação comum e uma memória e referências históricas nacionais, vai ser inaugurada pela artista portuguesa Carla Filipe em Nice, a 14 de maio.

“Carla Filipe: Hóspede” é o título da exposição, que ficará patente na Galerie Carrée, na Villa Arson, organizadora, em colaboração com a Fundação de Serralves, e curadoria de Marta Moreira de Almeida, segundo o sítio online do museu.

Em “Hóspede”, a artista volta a retrabalhar o grafismo e o design de iconografias provenientes de cartazes políticos, de sindicatos e de causas cooperativas, transportando-os para o suporte de 28 bandeiras – dedicadas a cada um dos 28 estados-membro da União Europeia até ao ano de 2019 -, e representando o peso de fatores económicos na sua relação com esta entidade e referências históricas de cada país.

O objetivo de Carla Filipe, nascida em 1973, em Vila Nova da Barquinha, é evidenciar “o modo como cada um se insere nesta identidade comum e no plano de uma dupla memória tal como a enunciou o filósofo francês Jacques Derrida” (1930-2004), indica um texto sobre a exposição, que dá continuidade ao processo criativo de Carla Filipe, comprometido com o contexto social, político e histórico atual.

Hóspede é uma palavra que, na sua etimologia, indica aquele que está em relação de compensação por ocupação de um determinado lugar ou espaço. “No debate central sobre a questão da hospitalidade que tem atravessado o universo da filosofia e das teorias e práticas artísticas contemporâneas, a proposta de Carla Filipe equipara cada estado-membro a uma entidade de permanência incerta (veja-se o caso recente do Brexit) e de relação equívoca com a união, no delicado balanço entre desígnios comuns e interesses particulares de pendor nacionalista e sujeitos a constantes e conjunturais mutações políticas”, acrescenta a curadoria.

A “iconografia desviante” das obras de Carla Filipe “não aponta soluções morais, antes questiona o presente nas suas tensões e contradições”, aponta ainda, sobre um trabalho de reflexão que a artista tem desenvolvido sobre o desvio das sociedades contemporâneas, nomeadamente a europeia, relativamente a valores como a ideia de solidariedade internacional.

Num arco que vai “da hostilidade à hospitalidade”, a proposta – concebida pela artista para o espaço da Galerie Carrée na Villa de Arson, em 2021/2022 – revela que “a atualidade veio por o dedo na ferida relativamente à fragilidade da noção de Europa”.

“Vivemos momentos em que disputas territoriais e ideológicas põem em causa os alicerces da chamada construção europeia e o modo como coletivamente se defendem valores que são dados por adquiridos”, acrescenta ainda, a propósito deste trabalho que ficará em Nice até 28 de agosto.

Desenhos e colagens à base de texto, intervenções espaciais, performances e edição, são alguns dos meios e abordagens usados por Carla Filipe na criação de uma forma própria de retrato social e autorretrato que abarca as transformações políticas, económicas e sociais de um dado local e tempo.

No seu processo de trabalho usa metodologias próximas da antropologia, observando, recolhendo, entrevistando e documentando vestígios de narrativas individuais e coletivas integradas na cultura visual de um passado recente e da atualidade.

Viagens, deslocações e trabalho no local, como a construção e plantação de hortas, são também processos que utiliza tanto na investigação como na criação artística.

 

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