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É já com saudade, para lembrar o título do seu ensaio mais célebre (“O Labirinto da Saudade”) que recordamos o Professor Eduardo Lourenço de Faria falecido a 1 de dezembro de 2020.

Grande filósofo da cultura europeia, ele também conseguiu pensar a construção da identidade portuguesa contemporânea. A carreira extraordinária deste universitário deve a sua celebridade a um raciocínio independente e sem concessões, a uma lucidez intelectual fora do comum, mas também à sua profunda humanidade e sentido do humor que todos os seus leitores e amigos consideram como essencial na divulgação do saber. Foi um livre pensador que sempre recusou os entraves ideológicos que observou e descosturou durante a sua longa vida de escritor.

Nasceu em 1923 na aldeia de São Pedro do Rio Seco (Beira Baixa), numa modesta e solidária família rural, origem que alimentou não somente o seu imaginário ao longo da vida mais também a sua simplicidade visceral.

Na Universidade de Coimbra, estudou História e Filosofia. Licenciado em 1946, pode lecionar alguns anos na dita universidade, antes que o totalitarismo da época Salazarista o levasse a decidir de se tornar cidadão do Mundo. Começou a sua carreira lecionando a língua e cultura portuguesas na Alemanha (Universidades de Hamburgo e Heidelberg) antes de viajar para o Brasil (Universidade da Bahia). A partir de 1959, sempre como leitor, ou professor convidado, instalou-se em França, a sua segunda pátria cultural. Trabalhou nas universidades de Grenoble e Montpellier, antes de se fixar definitivamente em Nice onde decorreu o essencial da sua carreira académica (1960-1989). A sua ligação com a Provença foi muito mais profunda que um simples vínculo académico. Ele contava que o Mistral era o irmão do vento da sua infância.

Grande teoricista do pensamento europeu ao qual consagrou várias obras, publicou em 1949 o primeiro volume de um ensaio intitulado Heterodoxia, o qual afirmava já a sua independência intelectual. Defendeu desde então a ideia de uma Europa fundada sobre a reinvidicação de seu património clássico e o universalismo das suas ideias democráticas. Foi também um amador de arte e um leitor apaixonado que dedicou uma parte dos seus últimos anos a entender a ligação entre a Europa e a cultura muçulmana. As literaturas clássicas e contemporâneas, entre Camões, Antero e Pessoa, foram, como ele o escreveu muitas vezes, a sua vida secreta, sua verdadeira vida, o fio condutor do seu pensamento.

A modesta carreira académica que a Universidade francesa lhe permitiu concretizar, foi inversamente proporcional ao extraordinário reconhecimento internacional pela sua produção literária e filosófica, ao longo dos últimos trinta anos. Com humor, citava a sua proverbial incapacidade para preparar qualquer tipo de candidatura a uma promoção, um concurso, um prémio. Os seus leitores encarregaram-se da tarefa. Perdemos hoje a conta dos prémios nacionais e internacionais que tem vindo a receber ao longo das últimas décadas. Recebeu-os todos com a mesma humildade, sempre reconhecido pela honra que lhe era concedida. Citaremos apenas o que mais o marcou: o prémio de ensaio europeu Charles Veillon em 1988. O mundo académico seguiu neste reconhecimento pelo conjunto da sua obra: foi doutor Honoris Causa pelas Universidades de Coimbra, Lisboa, Rio de Janeiro e Bolonha. As Universidades de Bolonha e Aix-Marseille deram o seu nome às suas cátedras de Estudos portugueses (Camões IP). Também os políticos reconheceram nele um mestre. Em França, foi nomeado Cavaleiro das Artes e das Letras (2000) e oficial da Legião de Honra (2002). Em Portugal foi Conselheiro de Estado.

Seu grande orgulho foi também, nos últimos anos, a sua nomeação como Administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa. A Fundação disponibilizou para ele um escritório onde acolheu artistas, jornalistas, universitários e estudantes do mundo inteiro. Recebia-os todos igualmente, com o mesmo generoso respeito.

Por trás do celebérrimo intelectual, o pedagogo nunca se afastava. Passou os seus anos de aposentadoria a transmitir a sua cultura, a sua leitura da História cultural e de seu impacto sobre o mundo contemporâneo. Até aos 96 anos, redigiu mais de 800 artigos e crónicas para a imprensa, prefácios de obras de jovens pesquisadores… Com o mesmo dinamismo apresentou inúmeras conferências e protagonizou reportagens e debates. Os jornalistas valorizaram esta figura luminosa cujo olhar lúcido e humorístico sobre o mundo contrastava maravilhosamente com a elegância clássica do seu terno. A sua última entrevista, aos 96 anos, sobre as relações entre a França e o Islão, e sobre o destino da nação francesa, representa um modelo de antologia.

A Universidade de Aix-Marseille acolheu o Professor Eduardo Lourenço em 2018 para a inauguração da Cátedra que foi batizada com o seu nome. Esta cátedra concretizou 50 anos de colaboração entre o Instituto Camões IP e a nossa Universidade.

Mandámos ao Professor Lourenço um convite para vir presidir a cerimónia de inauguração. Mais por cortesia do que por esperança que pudesse vir, dada a sua notoriedade e as prestigiosas solicitações internacionais que recebia. Mas ele surpreendeu-nos. Aceitou viajar e vir compartilhar esse momento connosco. Conscientes dos seus 95 anos, esperávamos um simpático discurso inaugural. Mas ele ofertou-nos uma conferência magistral sobre a importância da cultura francesa na sua formação e no seu pensamento. O Embaixador, o Presidente do Instituto Camões, o Cônsul Geral, os Deputados de Portugal, assim como os estudantes e os pesquisadores das 17 universidades francesas e lusófonas presentes, todos tivemos consciência de estar a viver um momento absolutamente excecional. A emoção era palpável em muitos dos presentes.

Por sua vez, o Professor Eduardo Lourenço comoveu-se mais particularmente com as jovens gerações presentes, em particular com as leituras públicas de seus textos, pelos estudantes, em várias línguas. Até aprovou a apresentação pouco académica da sua biografia, onde pudemos descobri-lo em fotografias da sua época professoral, dançando o Flamenco com os seus estudantes de Nice.

Eduardo Lourenço deixa um legado monumental, mais de quarenta obras, para as próximas gerações de Europeus e Lusófonos.

Até a partida é simbólica de sua vida de Pensador livre. Despediu-se de nós a 1 de dezembro, festa da Restauração e da Independência de Portugal.

Como escreveu o mestre Lourenço: É a minha contribuição simbólica para uma comunidade que um dia venha a ser mais do que um nome.

 

Ernestina Carreira

Camões IP/Universidade de Aix-Marseille

Cátedra Eduardo Lourenço

 

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