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Enquanto em França se vai procedendo, pouco a pouco ao desconfinamento, há um setor de atividade que está a ser bastante afetado pela pandemia de Covid-19. Trata-se do setor da restauração, que engloba os cafés, restaurantes, discotecas e outros negócios noturnos.

Para já, fala-se de uma reabertura provável lá para a segunda metade de janeiro, e há casos de desespero. “Este momento está a ser muito difícil” confirma Manuel Moreira, o proprietário do restaurante A Ponte, em Suresnes (92). “O primeiro confinamento foi complicado porque foi brutal. Em termos de matéria prima, perdemos muito, agora já estávamos com alguma precaução e é verdade que não tínhamos tanta matéria-prima em stock. Mas para nós está a ser muito difícil”.

Depois do primeiro confinamento, os restaurantes foram obrigados a aumentar a distância entre as mesas e, por conseguinte, a reduzir o número de clientes. Mas, na verdade, nem tudo regressou à normalidade. “A clientela reduziu porque houve pessoas que continuaram confinadas, havia muita gente em teletrabalho, menos gente a trabalhar nos escritórios, mesmo se, pouco a pouco, a clientela foi aumentando” explica Manuel Moreira.

“Nós tivemos de reduzir em cerca de 30 a 35% a capacidade do restaurante. Ainda bem que eu tenho uma sala relativamente grande e, aplicando as regras sanitárias, ainda posso acolher 54 pessoas”.

 

Fazer comida para fora

A solução que Manuel Moreira encontrou nesta fase de confinamento, foi a de cozinhar pratos para fora.

Muito ocasionalmente, sempre foi vendendo pratos para levar para casa, respondendo a alguns pedidos de clientes, mas foi inspirado pelo exemplo de outros restaurantes que decidiu optar por esta possibilidade. “No primeiro sábado fiz um Cozido à portuguesa e consegui vender tudo. Foi muito bom e isso deu-me mais força” conta ao LusoJornal.

Cozinhar pratos para fora não permite “entrar” nas contas. “Eu tenho a sorte de ser o Chef, porque se tivesse que pagar a um Chef, não podia, seria impossível” explica Manuel Moreira. “Os meus assalariados estão no desemprego parcial e eu cozinho. A minha esposa vem ao meio-dia dar uma ajuda para atender os clientes. Se nós tivéssemos que pagar ao cozinheiro, não era viável para mim”.

“O Governo fez algumas promessas, por enquanto eu não tive ajudas praticamente nenhumas. Os empregados sempre tiveram direito ao desemprego parcial e recebem 84% do salário. Penso que já é uma boa ajuda”.

Mas cozinhar para fora tem outro objetivo: fazer com que Manuel Moreira tenha uma atividade. “Se estivesse fechado em casa, ia ser mais complicado. Antes quero vir trabalhar, venho de manhã, sirvo cafés mesmo se as pessoas não podem entrar no estabelecimento. Faço muitas viagens entre a máquina de café e a porta” diz a sorrir. “Ajuda-me a manter o meu estabelecimento com vida, e a atenuar os efeitos negativos da crise”.

 

Cozinha regional portuguesa

A Ponte é um café-restaurante franco-português que emprega cinco pessoas: Manuel Moreira, a esposa e três empregados.

Quando Manuel Moreira chegou a França, trabalhou na construção civil, até encontrar a oportunidade de comprar o restaurante, em 2005. Empregou um Chef com formação hoteleira, mas acabou por mandá-lo embora e substituiu-o na cozinha. “O trabalho do meu chefe não me agradava, eu aprendi as bases da cozinha com a minha mãe. Já fazia alguns almoços e jantares para os amigos, embora profissionalmente seja diferente”.

Manuel Moreira já cozinhava ao sábado. “Eu gosto de ser criativo, mas defendo muito a nossa cozinha tradicional portuguesa” explica ao LusoJornal. “Também faço pratos franceses, porque tenho clientes franceses, mas os clientes franceses também gostam de comida portuguesa. Devo estar com 85% de cozinha portuguesa”.

Basta olhar para o menu para ver as propostas “tradicionais” do restaurante A Ponte: Cozido à portuguesa, Feijoada transmontana, Tripas à moda do Porto, Sardinhas, Bacalhau todas as sextas-feiras, Leitão, Cabrito,… “Até faço Papas de Sarrabulho ou Cozido à Terras de Bouro”.

Manuel Moreira é um apreciador de cozinha regional portuguesa, mas também é um apreciador de cultura tradicional em geral. Anima programas sobre este tema na rádio Alfa de Paris, é militante em associações portuguesas e dirigente na Academia do Bacalhau de Paris.

 

Influências minhotas

Manuel Moreira nasceu em Montalegre “por acaso”. O pai era de Cinfães do Douro, mas trabalhava na Barragem dos Pisões. A mãe é de Ferreiros, Braga e o pai dela trabalhava nas Minas da Borralha. O casal foi depois viver para Vilar da Veiga, Terras de Bouro. “É por isso que eu digo que eu sou de lá, foi lá que fiz a minha escolaridade, lá nasceram os meus dois irmãos mais novos” conta.

Veio para França há 39 anos, com o irmão mais velho, que faleceu há poucos meses. “Vim para casa de uns tios, trabalhei na construção civil, fui dirigente de uma empresa e depois apareceu-me esta oportunidade. Sempre gostei do contacto com as pessoas, e comprei este restaurante há 16 anos”.

Dali a passar para a cozinha, foi um salto. “Há sempre uma apreensão quando se vai para a cozinha. Temos que fazer o melhor possível”.

Manuel Moreira também é criativo e por vezes sabe bem receber os elogios de um “Chef de referência” como foi o caso do Chef Luís Portugal. O Arroz malandrinho, à moda de Luísa – que é o nome da mãe – e que não é mais do que um Arroz de Braga, com frango, toucinho, um pouco de verdura e tomate, foi elogiado pelo Chef português que, por acaso, foi almoçar ao restaurante.

Agora só resta mesmo esperar que esta crise seja ultrapassada, que os restaurantes possam reabrir, para que o restaurante A Ponte possa retomar a atividade e o Chef Manuel Moreira possa retomar o sorriso que o caracteriza.

 

Restaurante A Ponte

23 boulevard Henri Sellier

92150 Suresnes

Infos: 01.45.06.11.45

 

De segunda a sábado

Das 6h00 às 20h00

Só serve almoços

 

https://www.facebook.com/102245188354916/videos/2752700438300899

 

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