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Luís Câmara Brito assumiu a função de Cônsul Geral de Portugal em Lyon em setembro de 2017.

Logo que chegou, deu uma primeira entrevista ao LusoJornal, que diz “admirar”. Um ano e meio depois, fez um novo ponto da situação sobre a sua missão. Falou da admiração que tem pelos Portugueses que residem fora do país, mas também evocou o serviço de atendimento consular, as Permanências em várias cidades da região e a situação do atendimento em Clermont-Ferrand.

 

Que balanço faz da sua missão em Lyon?

O meu sentido patriótico e o meu amor pelos Portugueses e por Portugal aumentou exponencialmente. Eu já era patriota antes, claro, mas o facto de estar em Lyon durante este tempo, pelo contacto que tenho tido aqui, desde que cheguei, com os dirigentes das associações, os nossos empresários, os nossos concidadãos que estão cá, tenho encontrado pessoas formidáveis. Estou completamente rendido aos nossos Portugueses. Sinto um grande orgulho quando vejo o que os Portugueses fizeram desde que vieram para cá há 30, 40 ou mais anos. Tenho conhecido pessoas extraordinárias, que se fizeram a pulso e que hoje são respeitadas, são pessoas de muito valor, estão muito bem integrados. A nossa população integra-se bem em todo o lado, é uma Comunidade exemplar. Ainda ontem jantei com o novo Préfet e ele deu-me mais uma vez os parabéns pela exemplaridade da nossa Comunidade. São Portugueses que vieram praticamente com a roupa do corpo e com a sua dedicação e trabalho, conseguiram honrar a sua vida, a sua família, mas também contribuir para o desenvolvimento económico e social da França. E isso só pode ser um motivo de orgulho para mim, como Cônsul Geral. Acho que não há melhor elogio do que ver as nossas Comunidades integradas.

 

E como estão os serviços consulares?

Os meus funcionários são fantásticos e têm feito um trabalho meritório. Temos tentado pôr o Consulado o mais perto possível das pessoas, para que as pessoas sejam atendidas o mais rapidamente possível. Fazemos tudo para que os nossos utentes fiquem contentes com o nosso serviço.

 

Há muito tempo de espera atualmente?

Já arrancámos com o agendamento online, mas continuamos com a porta aberta e as pessoas podem vir livremente. A tradição deste Consulado é ter a porta aberta e vamos continuar assim. Os que chegam por marcação são atendidos na hora marcada e tudo faremos para atender também os outros. Tenho tentado melhorar o Consulado, melhorando o site internet, sobretudo para ajudar os Portugueses. Este Consulado cobre uma área do tamanho de Portugal, ora, quando alguém está em Dijon, pode consultar o nosso site, conhecer os horários, saber se estamos abertos, mas permite também recorrer ao Consulado em Casa. Temos uma lista de 20 ou 30 documentos que podem ser feitos a partir de casa. As pessoas imprimem o documento, vão aos correios, enviam para o Consulado e nós respondemos. Estamos no século XXI… e para certos documentos as pessoas nem necessitam de vir ao Consulado.

 

E porque razão o Consulado só abre de manhã?

Necessitamos de tempo para que os nossos funcionários façam o trabalho de back-office, por exemplo tratar e responder aos correios, responder aos emails – recebemos muitos por dia -, trabalhar sobre os processos de nacionalidade, de casamentos, são processos que têm de ser feitos durante as horas de expediente.

 

E como estão em termos de Permanências consulares?

Aumentámos o número de Permanências consulares. Em 2017 tínhamos 14 Permanências e em 2019 já vamos em 26, como vê quase duplicaram. Levamos o Consulado às pessoas. Acrescentámos algumas cidades e em Dijon, por exemplo, eram necessárias mais Permanências, em Annemasse também. Se pudermos disponibilizar 3 ou 4 Permanências lá, é mais fácil do serem os utentes a virem cá.

 

E tem equipa suficiente para as Permanências?

Temos. Os nossos funcionários são muito dedicados, estão cá há muitos anos, têm muita experiência. Quero sublinhar esta eficiência e dedicação que mostram ao serviço. Vão sempre dois às Permanências, levam um quiosque móvel e fazem praticamente toda a documentação que os nossos concidadãos precisam.

 

A Comunidade de Clermont-Ferrand tem demonstrado algum descontentamento por ter o Consulado dentro de uma empresa privada…

Sim, estamos a trabalhar sobre isso, não é uma questão que possa ser tratada em pouco tempo. Temos de encontrar um sítio que seja digno e que as pessoas possam estar satisfeitas quando forem lá. Tem de ser no centro da cidade, tenho estado em contacto com a Mairie e estamos a tentar encontrar um sítio. Os sítios estão sujeitos às regras do arrendamento comercial, com preço atual, por isso vamos através da Mairie.

 

Mas o espaço atual também é caro já que o Cônsul honorário recebe um subsídio de 25.000 euros por ano. Deve ser para pagar a renda, não é?

Isso não lhe sei dizer. É uma questão que está a ser tratada por mim com o Ministério dos Negócios Estrangeiros e com o Cônsul honorário.

 

E as antigas instalações do Consulado, que continuam fechadas, ainda não foram vendidas, pois não?

Ainda pertencem ao Estado português, sim. Neste momento a questão está colocada em Lisboa e é em Lisboa que estão a trabalhar neste assunto.

 

Ter lá uma segunda funcionária resolveu o problema de atendimento?

Sim, temos bons ecos desse lado, temos uma Comunidade portuguesa bastante grande, mas está a funcionar bem.

 

Verifiquei que em 2018 não houve nenhum subsídio atribuído às associações desta área consular. Isto quer dizer que houve pedidos e não foram apoiados, ou não houve pedidos?

Há dezenas de associação que fazem muita coisa, festivais de música e de dança, fazem muita coisa, mas é da iniciativa das associações pedirem apoio ou não. De facto nenhuma associação pediu, ao contrário das associações da região de Paris onde sei que houve muitos pedidos.

 

O Consulado Geral de Portugal em Paris destacou um funcionário para ajudar as associações a formularem os pedidos…

O que eu sei é que é recorrente que as associações da zona de Paris pedem sempre apoios. Aqui há associações muito dinâmicas, fazem muita coisa pelos seus jovens, muitas iniciativas, mas se não pediram ajuda, é por vontade própria. Nós organizámos formações, convidámos os dirigentes das associações a virem cá, eles vieram, mas decidiram não pedir apoios, e tem de ser solicitado por eles. Mas eles continuam a fazer muita coisa, e eu acho que há muita coisa que pode ser feita sem apoios financeiros. Eu noto muito o esforço que os Presidentes associativos fazem com as suas equipas para darem vida às suas ações. O que me emociona mais é de ver esta ligação com Portugal, porque lhes vem do coração. Aqui tenho muitas vezes a sensação de me sentir em Portugal. Isso é que é bonito.

 

Sei que costuma estar frequentemente com as associações…

Aquilo que eu tenho constatado em Lyon é a heroicidade da Comunidade portuguesa. Heróis não eram apenas os que participaram na Batalha de La Lys, é também esta gente que se levanta cedo e se deita tarde, com temperaturas negativas, a trabalhar na construção. O pouco tempo que têm livre dedicam-no às associações. E nesse aspeto, as associações mantêm essa sanidade mental, mantém essa ligação com Portugal. Saíram de Portugal, mas sabem que ao fim de semana vão ter um almoço, um jantar, com os amigos, há uma dinâmica em que eles sentem que Portugal também está com eles.

 

O recenseamento eleitoral passou a ser automático. E agora como se motiva esta gente para ir votar?

O voto em Portugal não é obrigatório, cada um é livre e uma pessoa que não quer ir votar é livre de o fazer. Durante 48 anos, na geração dos meus pais, as pessoas não puderam votar, vivíamos numa ditadura, uma das grandes vitórias da Revolução de Abril é a de ter liberdade e de poder votar, espero que as pessoas votem.

 

Mas não tem nenhuma ação prevista para incentivar as pessoas a votar?

Se tivermos instruções nesse sentido de Lisboa, naturalmente. Não vamos dizer às pessoas que não votem! Se estamos a criar os mecanismos para as pessoas votarem, naturalmente que vamos dizer às pessoas para irem votar. Eu acho que as pessoas têm essa vantagem de poderem votar para o destino do país e eu enquanto Cônsul e enquanto cidadão, sempre que puder, digo às pessoas para votarem, vou tentar dinamizar as pessoas para votarem.

 

Falamos de ensino. Tem conseguido aumentar o número de cursos de português nesta área consular?

Tenho ido a várias escolas falar, tenho feito intervenções nas universidades, e tenho chamado a atenção dos pais que podem inscrever os filhos em escolas onde existem Secções internacionais. Por exemplo o meu filho está na Secção internacional de Lyon. Temos organizado a entrega de diplomas anualmente às crianças que têm aprendido português. A língua portuguesa não é apenas a beleza da língua, é uma marca patrimonial que temos todos entre nós, e, até egoisticamente, é um instrumento que pode servir para ter um bom emprego em qualquer sítio do mundo.

 

Finalmente, como se portam as relações económicas com Portugal?

Noto que há cada vez mais empresas portuguesas a virem para cá, interessadas no mercado francês e em particular no mercado desta região. É verdade que há uma saturação do mercado na região de Paris, há muitas empresas e muita concorrência. Então, muitas empresas vêm para cá. Temos aqui o Portugal Business Club bastante dinâmico, tanto em Lyon como em Saint Etienne, temos relação com a Câmara de comércio e indústria franco-portuguesa (CCIFP). Os clubes de empresários levam empresários franceses e lusodescendentes a Portugal com o apoio natural do Consulado. Os empresários portugueses de cá também têm uma ligação muito forte a Portugal e facilitam muitos Portugueses porque empregam muitos portugueses quando chegam cá.

 

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