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Carlos Balbino é ator e Diretor artístico da Companhie des Rêves Lucides, uma companhia de teatro em França, que deu resultado a um grupo internacional de Cante alentejano, o Rancho Cantadores de Paris, que recentemente editou o seu primeiro álbum “Alentejo Ensemble”.

Carlos Balbino iniciou também estudos de etnomusicologia e está precisamente agora a fazer trabalho de investigação no terreno, no Alentejo.

Mas, mesmo de longe, vai acompanhando as questões relacionadas com a Covid-19.

 

Como está a passar este período?

Estou correntemente em Cuba, no Alentejo, desde o dia 12 de março, desenvolvendo uma etnografia sobre o Cante alentejano na sua forma espontânea – dito à laia – e tendo as tabernas como ponto inicial de observação. Quando a chegada da epidemia à França foi anunciada, tive a opção de adiar o meu estudo e ficar em casa para pôr a leitura em dia, mas preferi vir para a Cuba. No entanto, confesso que a presente pandemia contaminou o meu estudo: agora observo como as pessoas vivem a evolução das notícias na televisão; o controle da guarda sob o cumprimento (ou não) das regras dos estabelecimentos de consumo alimentar; a ansiedade da chegada do vírus pela população idosa; senhores que, sem saber contrariar os hábitos, encontram-se às portas das tabernas para falar, em pé, de mãos nos bolsos… Como se diz no Alentejo: “Tamos cá metidos numa m… !”.

 

Está preocupado com a situação atual de pandemia?

Sim, e a vários níveis. Segundo a imprensa, o número de vítimas do vírus continua a aumentar, o que é muito preocupante. Por enquanto, ainda estamos autorizados a andar nas ruas de Cuba, mas em França os casos classificados de “desobediência” têm sido severamente penalizados. Aqui, temos receio dessas multas. Por outro lado, especialistas – como o Pr. Didier Raoult – propõem soluções de tratamento para o Coronavírus, mas não têm o apoio ou a divulgação necessária. A televisão continua a fomentar a propaganda do medo, justificando a criação de novas medidas de segurança, e assustando a população que, por sua vez, acaba por desenvolver um ceticismo ou uma paranoia geral. As associações e personalidades, só fazem repetir o discurso moralista da imprensa, aproveitando esta oportunidade para aparecerem. É frustrante ver a vaga de artistas que se autopromovem atualmente nas redes sociais, fazendo o melhor para contrariar a precariedade acrescida da indústria do espetáculo. O comércio local está extremamente fragilizado. Em meio rural, algumas lojas não conseguem responder ao impacto e já fecharam de modo definitivo. Sinto que estamos atualmente num momento de vida suspensa, no qual sufocam-se os momentos de sociabilidade e cruzam-se os dedos para que o Covid-19 não passe à nossa porta. Infetados ou não, a pandemia está a afetar todos.

 

Quando esta situação estiver ultrapassada, o que espera do ‘novo mundo’?

A nível pessoal sei que voltarei a frequentar a biblioteca local, a piscina municipal, as tabernas, os ensaios de Cante alentejano, e os amigos que tenho feito. Penso que, depois da passagem desta Primavera de 2020, o Governo francês já terá criado argumentos suficientes para pôr em prática novas medidas: ainda mais segurança que o Vigipirate; novos impostos e aumento dos preços dos medicamentos; quiçá uma nova vacina obrigatória… Portugal, ligado ao cordão umbilical da Europa, também poderá vir a proceder de forma semelhante. Espero que cada indivíduo consiga recuperar da pressão psicológica da qual temos estado a sofrer. O meu desejo maior é que, depois desta grande lição, os Governos possam ter confiança no esforço científico – para combater o ceticismo, e reavaliar a influência que o homo-economicus está a ter sob o futuro da Humanidade.

 

 

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