Museu da Emigração de Fafe (Arquivo)

Reflexões sobre Museologia e Migrações: Portugal não tem um Museu nacional da emigração


Os museus desempenham hoje um papel fundamental na preservação da memória coletiva, na valorização do património cultural e na educação das sociedades contemporâneas. Muito para além de espaços de contemplação artística, tornaram-se lugares de reflexão histórica, de construção de conhecimento e de sensibilização para grandes fenómenos sociais, entre os quais se destacam as migrações.

Durante uma conferência apresentada no âmbito de um colóquio que teve lugar nos dias 14 e 15 de maio, no Auditório Adriano Moreira da Sociedade de Geografia de Lisboa, foram referidas as potencialidades pedagógicas, que encerram os museus de migrações.

A organizadora deste evento, Maria-Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações dessa mesma Sociedade, apresentou uma comunicação, amplamente ilustrada pela projeção de um powerpoint, em que a reflexão sobre “Museus de Migrações Potencialidade Pedagógicas”, procurou justificar o interesse que para Portugal teria a criação de um Museu nacional, que viesse a contemplar essa realidade.

Foi precisamente a tomada de consciência da importância, que neste campo temático reveste a museologia, que conduziu Maria-Beatriz Rocha-Trindade à elaboração de um bloco multimédia, subordinado ao título «Iniciação à Museologia», Universidade Aberta (1983) – que veio a merecer uma condecoração, atribuída pelo Ministério da Cultura português. Uma das fundamentações em que se baseia este reconhecimento oficial, tem por base o facto de, na época da sua edição, pouco existir publicado a esse respeito.

Assim nasceu o projeto que, enriquecido pela colaboração de responsáveis pela direção e curadoria de importantes museus portugueses, representativos de áreas temáticas diversificadas, articularam perspetivas de natureza variada.

A relação entre o fenómeno migratório e as técnicas museológicas adequadas à transmissão pública do conhecimento, que fizesse compreender as migrações, em que o aspeto teórico fosse transmitido aliado ao exercício da prática profissional tornou-se imperativo e assim aconteceu.

Neste percurso, o projeto da criação em Portugal de um museu especializado em migrações, reforçou a convicção de que os objetos, os documentos e as imagens constituem componentes privilegiados, para transmitir a memória do fenómeno migratório.

O museu como espaço educativo

Durante muito tempo, os museus foram vistos sobretudo como espaços de beleza, arte e contemplação. Atualmente, porém, assumem-se cada vez mais como espaços educativos, onde as exposições são acompanhadas por explicações históricas, sociais e culturais que permitem compreender melhor os objetos expostos e os contextos em que surgiram.

Os museus contemporâneos procuram explicar não apenas a autoria ou a origem das obras, mas também os fenómenos sociais, os movimentos culturais e os processos históricos que lhes estão associados. Tornam-se, assim, locais de aprendizagem acessíveis a todos os públicos.

Neste contexto, os museus dedicados às migrações possuem uma importância particular, porque ajudam a preservar a memória dos povos migrantes, das suas dificuldades, dos seus percursos e das suas contribuições para as sociedades de acolhimento.

Maria-Beatriz Rocha-Trindade passou em revista alguns dos museus a nível mundial sobre o tema das migrações

Museus da migração no Brasil

O Brasil possui alguns dos mais importantes museus da imigração da América Latina. Em São Paulo, destaca-se o Museu da Imigração, instalado num edifício histórico de grande valor arquitetónico, recentemente remodelado e transformado num espaço museológico de referência internacional.

Este museu testemunha a chegada de milhares de imigrantes ao Brasil, incluindo japoneses, italianos, portugueses, polacos e muitas outras comunidades que contribuíram para a construção da sociedade brasileira contemporânea.

A imigração japonesa para São Paulo teve particular importância após o fim da escravatura, funcionando como mão de obra de substituição nas plantações. Atualmente, a comunidade japonesa no Brasil é uma das mais influentes do país.

O bairro do Brás, em São Paulo, ligado historicamente à receção de imigrantes, constitui ainda hoje um importante centro de memória migratória. O museu preserva documentos, fotografias, objetos e testemunhos que permitem compreender os processos de chegada, integração e transformação das comunidades migrantes.

Ellis Island e os museus da imigração nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, Ellis Island, permanece como uma das maiores referências simbólicas da imigração mundial. Foi ali que milhões de imigrantes chegaram ao chamado “Novo Mundo”, alimentando o sonho de uma vida melhor.

Transformado em Museu da Imigração, Ellis Island constitui atualmente um espaço de grande impacto histórico e emocional. O edifício foi cuidadosamente restaurado e preserva a memória das chegadas, dos registos e das experiências migratórias que nos Estados Unidos tiveram lugar.

Também na Califórnia existem importantes marcas culturais ligadas à imigração, entre as quais importa referir a portuguesa, não devendo deixar de ser lembrada a forte presença de comunidades açorianas naquela região.

O museu canadiano da imigração

No Canadá, destaca-se o Museu Canadiano da Imigração – Quai 21, situado no preciso local onde chegaram muitos dos primeiros imigrantes portugueses.

Trata-se de um museu profundamente educativo, concebido para proporcionar ao visitante uma experiência imersiva sobre as dificuldades da viagem, os processos de acolhimento e a instalação das comunidades migrantes no país.

Os percursos expositivos permitem compreender as condições de vida dos primeiros que aí chegaram e a forma como contribuíram para o desenvolvimento económico e social do país.

Museus da migração na Austrália e na Europa

De igual forma, a Austrália possui importantes museus dedicados à imigração, projetando a diversidade étnica e cultural existente no país. A imigração de origem europeia, nomeadamente holandesa, desempenhou um papel significativo na construção da sociedade australiana e os museus preservam essa valiosa memória histórica.

Na Europa, vários países investiram fortemente na valorização museológica das migrações. A Suécia, França, Bélgica, Alemanha, Itália e Espanha – a Catalunha, exemplificam países que possuem museus e centros de interpretação considerados referências internacionais.

Nalguns países, muitos destes museus articulam a promoção da memória migratória a roteiros urbanos e visitas guiadas pelos bairros construídos ou transformados por comunidades migrantes. O património histórico, aliado à prática turística, transforma-se assim numa iniciativa rentável.

Na Bélgica, por exemplo, o projeto do museu Red Star Line, instalado junto ao antigo porto de embarque de emigrantes, constitui um dos mais significativos exemplos europeus de valorização da história das migrações.

Em Paris, o Museu da História da Imigração, um outro notável exemplo de preservação da memória migratória, instalado num emblemático edifício, concebido como espaço de reflexão sobre diversidade cultural, cidadania e identidade, merece sem qualquer dúvida uma visita.

Portugal: Um país de migrações sem um grande museu nacional

Portugal possui uma longa e profunda história migratória. Durante séculos, milhões de portugueses emigraram para os mais diversos continentes, ao mesmo tempo que o país recebeu sucessivas comunidades estrangeiras: ingleses, galegos, africanos, povos do leste europeu e, mais recentemente, as comunidades asiáticas, que em dia aqui vivem.

Apesar desta riqueza histórica, Portugal continua sem um museu dedicado ao fenómeno migratório, capaz de representar plenamente a dimensão nacional que o fenómeno migratório assume no país.

Embora tenham existido tentativas e projetos nesse sentido, envolvendo especialistas, investigadores e representantes institucionais, muitas acabaram por não avançar ou permaneceram incompletas, de que constituiu exemplo o caso do Fundão. Outras cidades têm falado na instalação de museus: para além do Fundão, acima mencionado há que considerar Vilar Formoso, Sabugal, Matosinhos…

A importância da preservação da memória migratória

A preservação da memória migratória é essencial para compreender a história coletiva dos povos e reconhecer o contributo das comunidades migrantes para o desenvolvimento das sociedades.

Documentos pessoais, fotografias, objetos familiares e testemunhos orais constituem patrimónios de enorme valor histórico e humano. Muitos destes materiais correm o risco de desaparecer se não forem recolhidos, estudados e preservados.

As migrações fazem parte integrante da identidade portuguesa. Valorizar essa memória significa também valorizar os milhões de portugueses que partiram, os seus sacrifícios, os seus sonhos e as suas conquistas.

Em conclusão, Maria Beatriz Rocha Trindade referiu que os museus relacionados com as migrações representam espaços fundamentais de educação, e de memória em que o reconhecimento histórico, permitindo compreender os percursos humanos, preservar identidades culturais promove uma visão mais justa e humanista das migrações.

Portugal, país profundamente marcado pela mobilidade humana (tanto pela emigração como pela imigração) possui todas as condições para criar estruturas museológicas de referência internacional nesta área. Valorizar a memória migratória não é apenas preservar o passado, mas é também construir uma consciência coletiva mais informada, mais inclusiva e mais respeitadora da dignidade humana.

Como ficou evidente ao longo de todas estas reflexões, a história das migrações portuguesas merece ser melhor conhecida, mais largamente estudada e, sobretudo, transmitida às gerações futuras enquanto parte essencial da identidade nacional, podendo os museus vir a tornar-se centros importantes de turismo memorial.

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