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José de Paiva é economista e foi durante muitos anos Diretor-Adjunto do ICEP em Paris. Foi também, até ao ano passado, Cônsul Honorário de Portugal em Orléans, mas entretanto mudou-se para o Mónaco.

 

Como está a passar este período?

Respeito o confinamento. As circunstâncias implicam que todos devemos respeitar as condições impostas, sem estados de alma. O tempo passa depressa, devemos saber agradecer todos os momentos de vida, mesmo confinados, e não dar ao tempo a ideia de que estamos fartos, se não ele pode querer vingar-se! Faço o possível para que o confinamento não deva ser pretexto para inatividade. É costume dizer-se que ninguém gosta de trabalhar. Seja! Mas, como dizia o dramaturgo brasileiro Millôr Fernandes, “é porque ninguém gosta de trabalhar que o mundo progride”.

 

Está preocupado com a situação atual de pandemia?

Estou muito preocupado, como a maioria das pessoas, e sem falso pudor penso muito nos que perdem os seus familiares e na forma brutal como tudo isso acontece. Assistimos a um acontecimento terrível, de consequências económicas, sociais, políticas e humanas incalculáveis. Ainda há bem menos de um mês, muitos políticos dos países mais desenvolvidos negligenciavam os perigos da doença aparecida na China, seus sintomas e consequências, uma simples gripe passageira que causaria menos mortos que os resultantes de acidentes rodoviários, diziam. Até na boca do hoje mais polémico especialista francês na matéria, Professeur Raoult, suposto ter a receita-milagre para o tratamento do vírus, tratava-se, então, de uma doença circunscrita à China que, em França, causaria menos mortos que os resultantes de acidentes de trotinetes (sic). Em pouco tempo, tudo mudou. Diariamente os mortos nos países mais desenvolvidos do planeta se contam por milhares, sem que se tenha ainda encontrado o antidoto ou a vacina que vai libertar o mundo deste flagelo. Que será, se o vírus se vier a propagar rapidamente a países menos desenvolvidos ou de fortes densidades populacionais? Que acontecerá se a crise, supostamente jugulada, retornar ciclicamente, como uma gripe normal? Como não estar preocupado, quando a estratégia do tratamento da epidemia em França é diferente da Itália, esta é diferente da Alemanha, esta da Suíça, esta da Coreia do Sul, esta da dos Estados Unidos, esta da Austrália, ou seja, não há em nenhum país do mundo o remédio preventivo, nem uma estratégia comum, a não ser que devemos estar confinados. Como não estar preocupado, se não se descortina uma solução a curto prazo? Mesmo se os tempos são outros, é sem esquecer que no século XIV uma pandemia, a peste bubónica, conhecida por peste negra, atravessou a Europa, vinda da China, provocando a morte de quase metade da população europeia. A origem foi semelhante, a infeção a partir de mordeduras de animais infetados, com um período de incubação idêntico de dois a seis dias, os mesmos sintomas de febre, dores musculares e de cabeça e um cansaço importante. Na natureza não existem recompensas nem castigos. Existem consequências.

 

Quando esta situação estiver ultrapassada, o que espera do ‘novo mundo’?

O dia seguinte não se parece com o dia anterior. Ultrapassada esta situação, ousaria esperar uma maior solidariedade entre as pessoas, um maior respeito pela pessoa humana. Pura utopia. O homem é bom por natureza, nasce bom, como teoriza Rousseau, e é a sociedade que o corrompe. Face ao que se passa, apesar de um certo elo de solidariedade que parece existir, temo muito que o “novo mundo” venha corroborar aquela tese e que a sociedade recupere os seus demónios quando esta situação estiver ultrapassada. O espírito cívico e de entreajuda é frágil e pouco duradouro. Assiste-se hoje, aqui e ali, a algumas manifestações de coexistência pacifica, de entendimento e de partilha. Vêem-se laços entre pessoas que não se conheciam, entre vizinhos que se cruzavam e que agora se falam pela janelas quando às oito da noite celebram diariamente o movimento criado de apoio e de agradecimento ao pessoal médico que estoicamente se ocupa dos doentes hospitalizados. Mas a natureza humana é o que é. Ao mesmo tempo deste apoio moral e humano, alguns idiotas na Ilha de Ré furam os pneus dos automóveis com matrícula parisiense ou, perfeitamente inimaginável, certos outros tentam impedir, pelas mesmas razões, enfermeiros de estacionar ou residir no prédio que habitam, com medo de serem contaminados. Ousaria esperar do “novo mundo” uma maior solidariedade entre as pessoas, um maior respeito pela pessoa humana, repito. Mas receio bem que a futura situação social e relacional do “novo mundo” seja menos feliz e solidária do que o que estamos em direito de esperar. A crise não perdoa. Uma coisa, no entanto, me parece evidente, as políticas hospitalares e de apoio à saúde vão ser repensadas em benefício da população, o que é uma nobre esperança. Mas uma crise económica e duradoura vai-se instalar, com consequências sociais graves em muitos países. O tempo de retoma da economia mundial vai ser longo e os grandes detentores de capital vão reforçar o seu posicionamento após o afundamento das bolsas de valores mundiais a que assistimos. Uma das consequências potenciais desta crise é que ela afetará os grandes blocos e que cada um tentará sair da crise à sua maneira mas, paradoxalmente, é a China o bloco melhor apetrechado em capitais que, nesta ordem de ideias, pode entrar em força no capital das empresas europeias, alvos de escolha para os investidores chineses, que a Europa não pode evitar, contrariamente às empresas americanas protegidas pelo “Defense Act” onde o Presidente americano será, mais do que nunca, o feroz defensor e protecionista dos interesses americanos, contra tudo e contra todos. Ou seja, se a Europa não encontrar rapidamente os meios e a vontade firme e definitiva para um acordo solidário, a crise instalar-se-á a longo prazo com riscos acrescidos de progressão dos movimentos extremistas latentes na Europa desunida, que será distanciada. O “novo mundo” continuará “velho”. Quando a pandemia for saneada, sabe-se lá quando, os órfãos chorarão os seus, os outros seguirão o seu rumo. E o “novo mundo” corre o risco de se tornar, infelizmente, em pouco mais que uma recordação e uma efeméride.

 

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