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A paixão pelo basquetebol nasceu nas ruas de Luanda, mas é em França, que o angolano António da Silva tem ‘brilhado’: ao serviço dos Gauleses foi Campeão mundial para atletas com deficiência intelectual e Campeão francês.

Apesar de um passado difícil, marcado por feridas de guerra e pela fuga de Angola, o jogador, de 45 anos, tem trilhado um caminho de sucesso no desporto.

Chegou a representar Portugal nos Jogos Paralímpicos de Sydney (2000) e de Atenas (2004) e foi “Campeão europeu e mundial pelas Seleções portuguesa e francesa”, nomeadamente Campeão mundial no ano passado, em Itália.

Na sexta-feira da semana passada, em Paris, António da Silva esteve perto de nova consagração, na discussão do título de Campeão nos Primeiros Jogos Europeus de Verão da Federação Internacional para Atletas com Deficiência Intelectual (International Federation for Intellectual Impairment Sport – INAS), mas perdeu frente a Portugal, por 61-60.

“Saio um pouco triste, não é? Gostaria de ganhar, mas Portugal teve um pouco de sorte no fim e perdemos por um ponto. Ficou preso na garganta! É preferível perder por dez pontos do que por um ponto”, disse à Lusa o jogador que espera ‘vingar-se’ nos Global Games INAS, em Brisbane, na Austrália, em 2019.

Com 1,98 metros e 100 quilos, António da Silva admite ser um ‘jogador-chave’ na França e o seu “sonho” é voltar aos Paralímpicos, competição em que esteve duas vezes por Portugal, a última das quais não em competição, mas em modalidade de demonstração em Atenas2004.

É que desde os jogos de Sidney, em 2000, os atletas com deficiência intelectual foram excluídos dos Paralímpicos após a revelação de que a Seleção espanhola de basquetebol, vencedora da Medalha de ouro, só tinha dois jogadores com deficiência intelectual num total de 12.

António da Silva começou a jogar basquetebol em miúdo, em Luanda, onde nasceu e onde “o desporto-rei é o ‘basket’”, mas foi forçado a parar de jogar quando a guerra em Angola o arrancou do ‘recreio’ e o obrigou a ser uma criança-soldado.

“A minha história de basquetebol não começou na Europa, começou em África, em Angola. Sou um rapaz que vem de muito longe, de sofrimento, de guerra. A paixão pelo ‘basket’ foi através de amigos de infância que já jogavam e eu seguia-os”, recordou.

Aos 16 anos, no final de uma partida de ‘basket’, foi “apanhado para ir para a tropa”, metido num camião e num avião em direção a Malanje, no norte do país, onde fez “a famosa guerra” e, cinco anos depois, em 1991, conseguiu fugir “de noitinha” num comboio que ia para Luanda.

Chegado à capital angolana, os pais esperavam por ele, com um bilhete de avião para Lisboa, onde começou por trabalhar e dormir nos estaleiros de obras, clandestinamente, e recomeçou a jogar basquetebol no Estrelas da Avenida, clube que lhe atribuiu o nome Carlos Luz “para poder jogar logo” como cidadão português.

Assim, com um nome diferente, jogou durante vários anos em Portugal e pelo país, conquistando “várias medalhas em Europeus e Mundiais” de basquetebol para atletas com deficiência intelectual, até ao dia em que de regresso de uma competição internacional com a Seleção, no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, lhe disseram que “havia um problema e que tinham duas pessoas com o mesmo documento”.

Sentindo-se “abandonado” pela Seleção portuguesa, que não “legalizara o problema depois de tantos títulos”, o atleta veio para França, onde vive “há cerca de 20 anos”, e joga no Sport Adapté de Choisy-le-Roi, a equipa de basquetebol para atletas com deficiências intelectuais que este ano revalidou o título de Campeã.

Apesar de o basquetebol ser a sua paixão, António trabalha num hipermercado – porque ‘não se consegue viver só do basket’ – e ainda tem tempo para jogar com os quatro filhos que andam já em provas da modalidade.

Nestes primeiros Jogos Europeus de Verão INAS, António perdeu na final com Portugal, mas pôde falar português com antigos companheiros, ainda que, explique, em Paris também tem “muitos amigos Portugueses”, com os quais se sente em casa.

Nos Jogos Europeus de Verão INAS, Portugal também esteve em destaque, com uma delegação de 57 atletas, em atletismo, basquetebol, ciclismo, parahóquei, remo, ténis de mesa.

A prestação ficou concluída com 26 medalhas: cinco de ouro (Sandro Baessa nos 800 metros; Ana Filipe no salto em altura; Cláudia Santos no heptatlo; Ana Catarina Ramos no remo indoor e a seleção no basquetebol), 13 de prata e oito de bronze.

 

 

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