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O grande pensador português Eduardo Lourenço deixou o mundo dos vivos no dia 1 de dezembro, mas, na realidade, a sua obra vasta e profunda é a garantia segura que vai continuar entre nós, a interpelar-nos com as suas reflexões intemporais, que podem sempre ser revisitadas para nos ajudar a compreender melhor o que somos enquanto povo e nação, como nos relacionamos com o nosso destino europeu e com o mundo lusófono.

Quando se lê qualquer um dos escritos de Eduardo Lourenço, fica sempre a sensação de que ele leu e compreendeu tudo o que havia para ler e compreender, procurando através da sua interpretação descobrir os mais recônditos segredos da nossa identidade. Tinha uma agilidade de pensamento extraordinária, uma erudição sem limites, um sentido da liberdade e independência sem concessões, uma capacidade crítica percutante, mas ao mesmo tempo possuía uma humildade e simplicidade desarmante, uma empatia que denotava bem a sua paixão e respeito pelo humano.

A sua obra é vastíssima, mas o “Labirinto da Saudade – Destino Mítico do Ser Português”, foi uma das que mais projeção teve, por ir tão fundo na problematização da nossa identidade, muito particularmente através da sua interpretação de grandes poetas e ensaístas portugueses, como Camões, Teixeira de Pascoaes ou Fernando Pessoa. Mas Eduardo Lourenço tinha os pés bem assentes na terra e distanciou-se do saudosismo de Pascoes, encontrando-se acima de tudo no existencialismo de Fernando Pessoa, onde cabe tanto a contemplação de Alberto Caeiro como o modernismo de Álvaro de Campos. E na identidade portuguesa estará tudo isso e ainda mais o universalismo e o impulso aventureiro que levou os portugueses a cruzar os mares e o mundo, tudo transversal na sua obra.

Eduardo Lourenço foi também um homem que, apesar da sua dimensão intelectual, aceitou com naturalidade a sua condição de emigrante, com a humildade que lhe é reconhecida, certamente tendo bem presente a dureza da emigração portuguesa em França nos anos 60 e 70 e as suas vivências no Brasil e na Alemanha.

Era frequente ouvi-lo falar da sua condição de emigrante, embora, talvez, um pouco com o sentido de um ser errante no mundo e no espírito. Com efeito, Eduardo Lourenço viveu uma parte importante da sua vida em França, principalmente a partir dos anos 50, tendo lecionado em diversas universidades, como as de Grenoble, Montpellier ou Nice, cidade perto de onde fixou residência, em Vence.

“Sou estrangeiro. Ausente, sozinho. Entregue ao meu passado e à clarividência desta primeira noite sem ninguém à minha volta, descobri que nunca fui outra coisa desde a minha infância”, escreve no seu diário, em 1949, em Salamanca. E não seremos todos nós estrangeiros ao longo da vida, na nossa relação com os outros e com o mundo que nos rodeia?

Eduardo Lourenço era um homem admirável, que apesar do seu imenso saber tinha a humildade própria dos sábios. O seu desaparecimento representa a perda de alguém que nos ajudava a compreender como ninguém o que somos, a partir de uma reflexão crítica que procurava nos movimentos das sociedades e nos interstícios da história e do pensamento de poetas, escritores e ensaístas a nossa essência coletiva.

Tive a satisfação e o privilégio de me cruzar algumas vezes com Eduardo Lourenço e de com ele trocar algumas palavras breves. Desde logo em momentos eleitorais (ele foi candidato em 2014 numa lista do PS ao Parlamento Europeu que tinha Francisco Assis como cabeça de lista) e noutros eventos organizados pelo Partido Socialista.

Mas um dos momentos mais desafiantes que tive foi em Paris, em 2013, quando, a convite do Convivium Lusophone, fiz uma intervenção na apresentação do livro “Eduardo Lourenço et la passion de L’humain”, na Casa de Portugal André Gouveia. Foi a minha admiração por Eduardo Lourenço que, na sua presença, me levou a correr o risco de fazer uma pequena digressão sobre o Labirinto da Saudade e sobre o ensaio “Nós e a Europa ou as duas razões”, um desafio ousado que me impus, perante o olhar perscrutador do Mestre e do meu receio de dizer alguma coisa fora do lugar.

Um outro momento que me orgulho de ter vivido foi quando discursou na inauguração da Cátedra Eduardo Lourenço da Universidade de Aix-Marseille, com a sua humildade de sempre, e já com 95 anos, repescando na memória a sua relação com França e aquilo que considerou a sua dívida para com o país onde grande parte da sua carreira se realizou.

A inauguração da cátedra com o seu nome é um orgulho para Portugal e realizou-se com a devida solenidade académica perante o Corpo diretivo da Universidade integrada no Departamento de Estudos Luso-Brasileiros, e foi brilhantemente apresentada pela Professora Ernestina Carreira, na presença do Secretário de Estado das Comunidades de então, José Luís Carneiro, do Embaixador Torres Pereira, do então Cônsul-Geral em Marseille, Pedro Marinho, do Presidente do Instituto Camões, Luís Faro Ramos e da Coordenadora do Ensino em França, Adelaide Cristóvão, entre outras individualidades.

Eduardo Lourenço continuará bem vivo através da sua vastíssima obra e do seu exemplo de dedicação ao saber, da profundidade e atualidade do seu pensamento, da sua humildade intelectual e da intensidade do seu humanismo. E será sempre uma inspiração incontornável para nos ajudar a compreender melhor o nosso destino, tantas vezes mitificado, seja qual fora o tempo futuro.

 

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