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No domingo passado, à noite, foi projetado, na esplanada efémera da Cité de l’histoire de l’immigration, na Porte Doré, em Paris, o filme “Lorette et les autres” do realizador Dominique Dante. O evento foi organizado pelo realizador Hugo dos Santos, que é bolseiro do programa «Frontières 2021» e foi acompanhado em direto com a música do guitarrista Filipe de Sousa.

No início dos anos 70, Lorette Fonseca vivia nos subúrbios de Paris e ajudou emigrantes portugueses compatriotas que viviam no bairro de lata de Massy.

“Só que a Administração francesa não reagiu bem, não gostou, não teve uma boa opinião por ela ter ajudado os compatriotas e decidiu expulsá-la” disse Hugo dos Santos ao LusoJornal. “Mas nesses anos 70, houve um movimento de apoio e de luta para que Lorette Fonseca não fosse expulsa”. E acabou por não ser expulsa, mas foi obrigada a deixar de ser ativista para poder continuar em França.

Naquela altura, o realizador Dominic Dante decidiu acompanhar o Comité de apoio a Lorette Fonseca e seguiu Lorette e o marido, Carlos Fonseca. “Ele filmou muito no bidonville de Massy. É quase um filme de emergência, em bruto, e tem utilidade porque mostra sequências reais e vivas, não só do ambiente do bidonville mas também do discurso de Lorette e de Carlos Fonseca”.

Hugo dos Santos escolheu este filme porque ele próprio está – no quadro da residência artística que está a fazer no Museu – a realizar um documentário sobre o bairro social onde cresceu, nos subúrbios de Paris, em Conflans-Ste-Honorine. “Eu quis associar a projeção deste filme à minha ‘residência’ porque o meu bairro social é um bairro de realojamento de bairros de lata, então eu vi aqui uma ligação da minha história com esta história” explicou ao LusoJornal. “E é também uma oportunidade de mostrar um documento que é relativamente pouco conhecido”.

Até porque Hugo dos Santos está preocupado com ausência de cópias do filme sobre Lorette Fonseca.

O músico Filipe de Sousa diz-se “comovido” com o filme. “A história repete-se. Hoje nós não temos bidonvilles aqui à volta de Paris, como havia nos anos 60 e 70, mas temos tendas debaixo do Périphérique”.

Hugo dos Santos desafiou Filipe de Sousa “não tanto por ele tocar guitarra portuguesa, mas porque ele é um músico muito interessante, que assume o facto de ser emigrante e ao mesmo tempo tem esta ligação com o fado e com coisas mais tradicionais, mas também tem tocado em grupos mais ligados ao jazz e constrói coisas mais abstratas, mais experimentais, à volta das artes plásticas, do teatro,… eu achei que era a pessoa perfeita para trabalhar esta matéria comigo”.

O filme tem uma banda original que foi retirada. Tem uma canção do Luís Cília, assim como uns temas de Carlos Paredes. “Eu não quis reproduzir a música, exatamente como tinha sido tocada” diz Filipe de Sousa. “Dou apenas um cheirinho a este ambiente” explica ao LusoJornal. “Não faço nenhuma reprodução, não é a linguagem do Carlos Paredes, toco a minha própria linguagem, quis propor uma coisa um bocadinho mais dinâmica e sobretudo que as pessoas se sintam bem, que tenham vontade de ver este filme até ao fim”.

A projeção teve lugar ao ar livre, numa noite em que a chuva ameaçava e concorreu com a final do Europeu de futebol.

 

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