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Foram homenageados os 349 Portugueses que passaram pelo Campo de refugiados de Gurs

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Por iniciativa do Comité Aristides de Sousa Mendes de Bordeaux, foi inaugurada uma placa de homenagem aos 349 Portugueses que passaram pelo Camp de Gurs – um campo de refugiados da Guerra civil de Espanha, perto de Oloron Sainte Marie. Na cerimónia estiveram presentes a Secretária de Estado dos Antigos Combatentes, Catarina Sarmento Castro, o Embaixador de Portugal em França, Jorge Torres Pereira e o Cônsul Geral de Portugal em Bordeaux, Mário Gomes. O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, também estava anunciado, mas anulou a viagem para participar no funeral do antigo Presidente português Jorge Sampaio.

O Campo de Gurs foi construído em 1939, em apenas 42 dias, e tinha capacidade para acolher cerca de 20.000 pessoas. Estendia-se por uma área de 79 hectares, não muito longe da fronteira espanhola, a poucos quilómetros de Oloron Sainte Marie, e tinha 382 barracas. Numa primeira fase acolheu refugiados da Guerra espanhola e Combatentes republicanos, nas durante a II Guerra mundial, transformou-se num campo de concentração nazi, por onde teriam passado cerca de 60.000 Judeus, dos quais muitos foram deportados para Auschwitz.

As cerimónias começaram no sábado à tarde, com uma conferência da historiadora Cristina Clímaco, em Oloron Sainte Marie. Nesse mesmo dia, à noite, na Catedral de Oloron, a Associação França-Portugal-Europa, presidida por Elsa da Fonseca Godfrin, organizou um concerto com o cantor lírico Jorge Baptista da Silva e a fadista Fátima Garcia. Cantaram canções francesas, espanholas e, claro, portuguesas.

Durante muitos anos, não houve qualquer referência aos 349 Portugueses que passaram pelo Campo de Gurs. “Não há uma lista completa dos 349, conhecemos alguns nomes, cerca de uma centena. Este número foi encontrado num documento, mas pode ser mais importante. Conhecemos o percurso de muito poucos” explica Cristina Clímaco ao LusoJornal.

“São sobretudo emigrantes em Espanha que depois se alistaram ou foram integrados no exército répubicano, alguns nas Brigadas internacionais, que lutaram em defesa da Espanha republicana e que, no final da guerra, em janeiro e fevereiro de 1939, acompanham o êxodo da população espanhola e a derrota do exército republicano – a retirada – para França” diz a historiadora.

São “internados” num primeiro tempo em Argelès-sur-mer (66) e em Saint Cyprien (66), mas depois foram construídos outros campos para repartir melhor os refugiados de Espanha. O Campo de Gurs acolheu os ‘internacionais’, ou seja, todos os estrangeiros combatentes na Guerra de Espanha, nos quais foram integrados os Portugueses”.

Sabe-se que alguns desses Portugueses já eram emigrantes em França e foram combater em Espanha, mas a grande parte eram emigrantes em Espanha, onde já tinham uma vida organizada. Depois da Guerra civil, e depois de terem passado pelo Campo de Gurs, “alguns pediram repatriamento para Espanha, depois, ou tiveram o mesmo destino que os Republicanos espanhóis, foram presos, foram internados nos Campos franquistas, e ao final de algum tempo foram entregues pela polícia espanhola à PVDE, a polícia portuguesa e foram presos na fronteira” explica Cristina Clímaco. Os que tiveram um compromisso menor na Guerra foram libertados, mas outros permanecem presos em Portugal, sobretudo em Peniche. Alguns até foram desterrados para o Tarrafal, “sobretudo os que tinham um perfil mais político”.

 

Homenagem “essencial”

Manuel Dias, o obreiro desta homenagem, considera que a presença portuguesa nos campos de refugiados da Guerra civil espanhola no sul da França, eleva-se a um milhar. “Em Gurs estiveram 349 Portugueses, mas houve Portugueses noutros campos daqui até Argelès. Houve perto de 1.000 Portugueses nos campos de internamento ou de concentração franceses entre 1939 e 1940” diz ao LusoJornal.

Por isso, considera que “recordar esta página da história é essencial”. E orgulha-se de ter conseguido juntar, na mesma cerimónia, autoridades portuguesas, espanholas, francesas, mas também a Cônsul Geral da Alemanha. “Isto é mais do que simbólico” considerou. “Nunca se tinha feito uma cerimónia aqui no Campo de Gurs com as quatro nacionalidades e nós conseguimos reunir aqui representantes das quatro nações envolvidas na problemática de Gurs”.

Para a Secretária de Estado dos Antigos Combatentes “é um momento marcante vir hoje aqui fazer esta homenagem a estes 349 Portugueses que estiveram internados no Campo de Gurs, porque é a história que vem ao encontro do presente, para podermos olhar para o futuro”.

“A história e os testemunhos que nos trazem a história – e este testemunho da história é resultado de pesquisas históricas muito recentes – trazem consigo não só a carga importante de nos fazer valorizar o sacrifício daqueles que por aqui passaram, mas, mais do que isso, transporta o espírito e o sacrifício destas pessoas em direção ao futuro, e podemos assim, fazer com que os netos de quem aqui esteve, os bisnetos e aqueles que ainda não nasceram, possam perceber, com este testemunho, que há, deve haver, tem de haver, um caminho que é o das liberdades fundamentais, da igualdade, da justiça entre as pessoas e os povos” disse Catarina Sarmento Castro numa entrevista ao LusoJornal. “A importância da nossa vinda aqui é resgatar a memória destas pessoas, não apenas por elas – mas também por elas – mas sobretudo trazê-las para o futuro, vir hoje, no presente, conversar com estas memórias, de forma a que estas memórias nos ajudem a olhar para um futuro que só pode ser um futuro sempre de esperança, no respeito dos direitos humanos, na igualdade e na fraternidade entre as pessoas”.

Catarina Sarmento Castro e Manuel Dias retiraram a bandeira portuguesa que cobria a placa agora inaugurada, acompanhados por três netos de Portugueses que passaram por este campo de refugiados. “Eu tinha conhecimento da existência deste campo, mas nunca cá tinha vindo” explica ao LusoJornal José Rebelo, neto do anarquista-sindicalista português Jaime Rebelo. “Esta é uma viagem que vem acrescentar-se a toda esta carga de recordações sobre o meu avô que eu transporto comigo e que transportarei a vida toda”.

A cerimónia terminou com dois fados, cantados por Fátima Garcia e Jorge Baptista da Silva e uma cerimónia na Mairie de Oloron Sainte Marie, onde apenas participou a Delegação espanhola, já que a Delegação portuguesa já tinha viajado.

 

Novos projetos já programados

Manuel Dias, Vice-Presidente do Comité Aristides de Sousa Mendes, disse ao LusoJornal que quer continuar a trabalhar sobre este assunto. “Temos o projeto, em 2022, de realizar, aqui na região, oito conferências sobre os Portugueses na Resistência, que é um assunto que não foi ainda tratado e que foi praticamente ocultado em França” explica ao LusoJornal, acrescentando que, “na verdade, é a continuidade do projeto sobre os Portugueses nos Campos de refugiados, porque muitos dos Portugueses que saíram dos Campos, entraram na Resistência”.

Mas espera que os trabalhos dos historiadores sobre a presença dos Portugueses nos outros Campos de refugiados da região possa continuar e espera realizar, em 2024-2025, “um guia de referência, para dizer que aqui, no sul da França, aconteceu isto há 82 anos e isto também diz respeito aos Portugueses e os Portugueses também fazem parte dessa história”.

“Vamos, com certeza, aguardar e apoiar os historiadores para que possam trazer também até nós a memória desses outros espaços, dessas outras pessoas, desses outros eventuais Portugueses, para que também eles nos ajudem, não só a trabalhar a história, mas sobretudo nos ajudem a trabalhar aquele que deve ser o nosso futuro de esperança dos direitos humanos e no respeito entre os povos” confirma a Secretária de Estado Catarina Sarmento Castro.

Mas Manuel Dias sabe que estes projetos representam “muito trabalho, é um grande investimento logístico e financeiro, são necessários muitos contactos e reuniões”. Ao LusoJornal, afirma que “a memória é um problema de paciência”.

 

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