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Um músico, Jack Novak, desaparece sem deixar rastro depois de atingir o zénite da fama como guitarrista da banda Bitters. É este o ponto de partida de “Dernière chanson avant la nuit”, o segundo romance de Francisco Camacho (Funchal, 1969), jornalista e editor, que, em 2008, conquistou com “Niassa” o Prémio P.E.N. Clube na categoria Primeira Obra.

“Dernière chanson avant la nuit” (Asphalte Éditions) – romance publicado em Portugal como “A última canção da noite” – dá-nos a conhecer um protagonista cuja complexidade encontra raízes na Guerra da Jugoslávia (1991-95). Jack Novak, filho de uma escocesa e de um diplomata jugoslavo de origem croata, nasceu em Inglaterra e, embora não tenha vivido em primeira mão o sangrento confronto entre croatas e sérvios que conduziu ao desmembramento da Jugoslávia, a guerra acabaria por lhe deixar marcas devido à morte prematura do seu pai que, ao ver a destruição da sua pátria jugoslava, sucumbiu a um ataque cardíaco.

O aparente distanciamento que Jack demonstra a propósito do confronto nos Balcãs acaba por se revelar uma estratégia falhada para esquecer o trauma causado pela morte do pai. E é logo na abertura do livro – traduzido por Hélène Melo – que tal se revela: “Jack se réveilla, le couer battant la chamade, l’écho prolongé de la rafale de mitrailleuse réssonant dans ses oreilles”.

Foi então durante uma digressão da banda pelo leste da Europa que Jack, ao assumir enfim o sofrimento causado pela sua história pessoal e familiar, resolveu desaparecer para se descobrir. Esse seu desaparecimento dará azo às mais bizarras teorias da conspiração. Raptado por alienígenas? Retido por mafiosos? A verdade é que essa misteriosa desaparição, como tantas vezes acontece com as mortes prematuras de celebridades, deixou nas massas um sentimento de perda apenas gerado por aqueles que se tornaram mitos.

Francisco Camacho, entretanto, apresenta outros personagens, também eles riquíssimos, sendo o mais importante David Almodôvar, um admirador dos Bitter e um respeitado crítico musical caído em desgraça devido a um escândalo de plágio que envolve um jornalista americano e uma fadista portuguesa. Esse momento difícil da sua vida, capaz de suprimir o amor-próprio a qualquer um, agrava-se quando Vera, a mulher que ama, resolve abandoná-lo. Outro elemento relevante é o facto de David ter sido o único a compreender o interior amargurado da grande estrela dos Bitter, Jack Novak.

Três anos depois de se ter evaporado, Jack Novak reaparece com vontade de contar a história do seu desaparecimento e revelar ao mundo o que andou a fazer ao longo desses anos. Esse ressurgir em Portugal, país onde passou longas temporadas durante a infância e único lugar onde conheceu a felicidade, leva-o a procurar David, o único a quem ele deseja contar essa história.

Para tal, porém, David tem uma condição. Ele aceitará ouvi-lo se Jack o acompanhar numa viagem a Marrocos, país onde ele espera reencontrar Vera e reconquistar o seu amor. E eis que a aventura começa.

Um romance que contém em si muitas outras coisas: um livro de viagens (Francisco Camacho já foi Diretor da revista “Volta ao Mundo”), uma playlist de músicas (Francisco também é critico musical) e uma pertinente interpretação histórica da Guerra dos Balcãs.

Um romance e um autor repletos de mundos por descobrir.

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